A vida para quem mora ou já morou em Palmas, nunca foi fácil e isso muita gente pode confirmar. Temos em Palmas um custo de vida proporcionalmente muito alto em ralação ao tamanho da cidade, um calor insuportável e aquela dura realidade de viver com a política e o político como os principais fatores de inclusão social e econômica. Como muitos dizem por aí: “Tudo aqui gira entorno da política...” Mas se formos analisar bem, principalmente os pós e os contras disso tudo, para que nós possamos sobreviver neste capitalismo bruto, nós devemos seguir a seguinte regra: “O lugar onde você consegue se realizar profissionalmente e financeiramente, seja ele em qualquer parte do mundo for, sempre será o melhor lugar para se viver”... Eu, por exemplo, saí de Dianópolis em 1997 e fui morar na cidade de Porto Nacional-To e só cheguei a Palmas por volta de 1999. Não trabalhava e tinha a função única de estudar. Minha mãe me mandava alguns trocados e eu morava com meu irmão Robinho (que na época ainda era casado). Depois de 06 meses, acabei tendo que retornar para Porto Nacional novamente. Morei em Porto na casa de minha queridíssima tia Mireta, que, aliás, me acolheu, juntamente com seus filhos, muitíssimo bem. No início do ano 2000, retornei novamente para capital Palmas, só que dessa vez, quem me acolheu, foi minha lordíssima tia Eliane, esta que, aliás, sempre nos tratou (eu e Ronde que morou lá também) como se fossem verdadeiros filhos. Através da costumeira via política, meu pai me conseguiu um emprego, não era grande coisa, mas ajudou. Era um contrato pra trabalhar oito horas por dia, ganhando entorno de R$ 320,00 reais por mês, para tirar xérox na Secretaria Estadual da Educação. Passado mais alguns meses, eu e meu irmão Rondenelle, decidimos nos mudar e alugamos uma casa na ARSE 82. A partir desse dia, começou uma verdadeira odisséia em nossas vidas...No dia em que mudamos, pude sentir duas sensações muito fortes baterem em meu peito, uma delas foi a empolgação e a outra foi o medo. Ao mesmo tempo em que me senti empolgado, por ser um jovem livre naquele momento, podendo fazer o que eu quisesse do meu nariz, também senti muito medo, pois teria que enfrentar uma vida diferente daquilo que estava acostumado. Tive que pagar aluguel, água e luz, pagar o que comer, o que vestir e ainda ter que fazer mágica para sobrar uma grana pras farrinhas. Farrinhas? Bem que eu poderia chamá-las eram de farronas! No início, eu me empolgava muito, não calculava, não examinava os passos antes de sair gastando o dinheiro (que já era pouco) e acabava por bagunçar as contas. Foram muitas as vezes em que tive que sair da ARSE 82 e fui para o trabalho à pé (uns 8km de distância), simplesmente porque já havia gastado todo o dinheiro do ônibus nas farronas. Apesar de que durante este período, sempre tínhamos algum colega ou amigo morando com agente para ajudar a dividir as despesas, mas mesmo assim, foram muitas as vezes em que o gás de cozinha, a luz ou a água foi cortada por pura irresponsabilidade. Nossa comida era bastante modesta, arroz, feijão e um tipo de carne (99% das vezes era carne moída ou costela). Salada de verdura, quando tinha, era um repolho com tomate ou com cenoura ralada. Era uma comidinha simples, bem básica, porém muitíssimo deliciosa. Na maior parte do mês, o nosso prato principal era o bom e velho macarrão misturado com carne moída ou com sardinha. O incremento principal era a pimenta. Foi nessa época que aprendi a cozinhar, quando meu irmão Ronde me deu algumas aulas, não porque ele queria fazer uma boa ação, mas sim para me dar uma função dentro da casa. Cozinhar era (e ainda é) algo que ele fazia com grande maestria, talvez até para justificar a velha frase que diz: “A necessidade é a mestra da vida!”
Nossa única condução, por muitos anos foi uma bicicleta velha que Robinho havia doado para Ronde e que mais tarde foi roubada na minha mão. Vez ou outra morava alguém com agente que possuía uma moto ou um carro, como foi o caso de Edmilson (baiano). Nossas “farronas”, na verdade, eram muito modestas, era um litro de pinga (a preferida era Pitú) e alguns cajus colhidos no quintal do vizinho. Teve mês que chagamos a incrível marca de 60 litros consumidos. Lembro-me que certa vez, a montanha de litros empilhada no quintal acabou nos salvando, pois o gás de cozinha havia acabado. Com a venda dos litros conseguimos “interar” o dinheiro para comprar o botijão. Outra coisa que agente apreciava muito, era o garrafão de vinho Sangue de Boi. Era barato, doce e volumoso... Muita gente andou léguas para ir beber desse vinho lá na nossa casa. Uma cervejinha gelada era raridade, uma iguaria que agente só consumia em festas 0800 (tudo de graça) ou quando fazíamos as festas dos outros dentro da nossa própria casa. Nosso amigo Hélisson (paquinha), que morou uma temporada com agente, foi testemunha ocular de grande parte do que estou relatando aqui... Como ele trabalhava na esfera privada, foi muito providencial naquela época, pois ele tinha a possibilidade de pedir adiantamentos (vales) para a empresa que trabalhava. Final de mês, todo mundo quebrado, adivinha quem era a nossa salvação? Se formos analisar bem isso tudo, tivemos uma vida sofrida, mas agente sorria, brincava e não tinha muito tempo para reclamar das coisas. E o estudo? Muitos devem se perguntar? Quem estudava? Pois é, este deveria ser o maior objetivo a ser buscado, mas penso eu, que dependendo do ritmo, do meio e das condições que a vida lhe impõe, o estudo sempre ficará em segundo plano, visto que, em condições análogas, agente só pensava mesmo era no “imediatismo”. É diferente quando há disponibilidade de “tempo”, os pais presente cobrando ou até mesmo de longe, patrocinando cursos, bons colégios e faculdades particulares. São incentivos que também servem como cobrança e pressão para que o indivíduo não perca o foco no estudo. Sei que tem muita gente pobre que consegue subir na vida sem ajuda nenhuma, mas pra ser sincero, o percentual de quem consegue é tão pequeno, que desmotiva mais do que nos inspira.
Depois de quase um ano e meio, nossos salários estavam totalmente congelados, mas o valor do aluguel não para de crescer. Tivemos que mudar de uma casa que já era bastante modesta e fomos morar em um kitinete na ARSE 71. Não tínhamos muito que carregar, a carretinha do bar de Cloves (Roderão) era suficientemente grande para fazer a nossa mudança. Eu mesmo não tinha nem cama pra dormir, gostava mesmo era de dormir em um colchão espalhado no chão. A grande aquisição minha, na verdade, foi uma cômoda de 06 gavetas, comprada em um desses pregões e que serviu para matar minha vontade de guardar as roupas e colocar perfumes e desodorantes encima. Aliás, botei foi muita banca com essa cômoda... Naquela época, nosso “point” passou a se o Bar do João, que praticamente era vizinho da gente. Nesse local, além de beber umas e outras, acabávamos deixando boa parte do dinheiro numa maquininha caça-níquel. A insistência em jogar nessa máquina, era porque volta e meia dávamos sorte e ganhávamos 15 ou 20 reais em moedas. Com o passar do tempo, minha convivência com Rondenelle já não era das melhores, Helisson teve que nos deixar e então cada um de nós tomou um rumo... Ronde foi morar com Domingos (boca de jaú), que antes morava com Rodrigo (filho de Jalce) e eu fui morar sozinho em um kitinete na ARSO 41. Depois de mais ou menos seis meses, resolvemos juntar novamente as coisas, dessa vez fomos morar na quadra 1.105 sul. Lá morava eu, Domingos (Boca de jaú) e Rondenelle. Economizamos um pouco no aluguel, pois a casa era de Robinho. Pai nos ajudou na aquisição de uma moto, mas em compensação a casa ficava muito longe do centro, a casa não era forrada, não era murada, não tinha cerâmica e a quadra não era asfaltada. Antes de sair pra trabalhar, tínhamos que forrar tudo para que quando voltasse, não encontrasse tudo coberto de poeira, fuligem e cisco. Dessa vez o nosso “point” passou a ser o famoso Lagos Bar, que também chamávamos de Pequizeiro ou bar do Seu Delcí. Lembro-me que certa vez, antes de ter a moto, tive que voltar à pé do Carnapalmas, quando ele ainda ocorria nas proximidades da praça dos Girassóis. Do local do evento até onde morávamos, dava entorno de 12 km. Foram tantas presepadas que daria pra escrever um livro.
Depois de mais algum tempo, mudamos para uma casa melhor, localizada na 1.006 sul (ARSO 102) e Robinho passou a morar também com agente. Foi um período que vivemos um pouco melhor. Mas pouco tempo depois, por volta de 2006 ou 2007, cada um tomou um rumo, morei uma temporada em um kitinete até que então decidi parar de enrolar a filha alheia e me casei. Agora, quando olho para trás, a vida de hoje é uma maravilha, entretanto, como havia dito no início, o capitalismo exige muito da gente e nunca vamos estar totalmente satisfeitos. Vejo hoje que Palmas continua com um custo de vida muito alto, o calor parece ser ainda maior e a inclusão sócio-econômica ainda está atrelada à política. Muita gente se deu bem em Palmas ou ainda dará, pois ainda se vê muitas oportunidades por aqui, mas a cada dia que passa a criminalidade também aumenta, o trânsito fica cada vez mais caótico e o clima só arrebentando... Voltar para terra das Dianas (Dianópolis) seria uma boa opção, mas por enquanto, estando aqui, só devo bater “palmas” pra esta cidade, pois ela me ensinou (e continua ensinando), que a vida é uma escola e que as dificuldades passadas são as melhores provas que necessitamos para uma “educação da alma”. Outra conclusão que tiro disso tudo, é que o maior obstáculo a ser superado em Palmas ou em qualquer outro lugar do mundo, é superar agente mesmo. As ações do presente é que definem o nosso futuro. Por isso, continuo tiro o chapéu para o passado e arregaço as mangas para o futuro, tirando de cada dificuldade, a lição de que a única coisa que agente carrega dessa vida, são as amizades, os sentimentos, as lições é a vida que agente leva.
Mário Sérgio Melo Xavier, aluno do curso de História na UFT
www.dnoto.blogspot.com
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