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As doenças, quase sempre acompanhadas do martírio da dor, trazem, compreensivelmente, tristeza, aflição e desconsolo aos enfermos. Muitas delas, incuráveis, despertam também a desesperança com a vida e incitam o desânimo frente à luta. Existem, contudo, pessoas que, mesmo acometidas por males sem cura, males de morte, e atormentadas pelo padecimento, pela extrema dor, conseguem encontrar em meio às chagas um fio ou uns emaranhados de fios que as fortalecem, as animam a pelejar contra a enfermidade, e, de cabo, ainda as fazem inspirar os sãos a entender porque a vida é bela e porque vale à pena viver. Foi assim com José Alencar, nosso ex-vice-presidente.
Por mais de 13 anos, Alencar se negou a aceitar o câncer e sempre buscou, com dignidade, bravura e exímia determinação a vencer a malignidade da doença. Foi resistindo sempre (tumores no rim, próstata e estômago), mas o inimigo sempre teimava em voltar com uma nova arma. Desta última vez, guerreou duramente por cinco anos contra um tumor, tipo sarcoma, no abdômen. O Brasil o acompanhou por 17 cirurgias que foram enfrentadas com coragem, ternura, brandura de espírito e resignação comoventes. “Os brasileiros todos têm me ajudado muito, porque o que eles torcem por mim me deixa emocionado,” disse Alencar, em entrevista a José Roberto Burnier. “Determinadas mensagens que eu recebo me deixam emocionado, é uma coisa lindíssima”. Tornou-se um ícone na batalha contra o câncer.
Sucumbiu aos 79 anos, no fim de março, no hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, de câncer e falência múltipla dos órgãos, deixando vazio um espaço que jamais poderá ser preenchido no coração dos brasileiros. Por oito anos, Alencar ajudou Lula a colocar o Brasil no melhor patamar de sua história, e, ao somar na formação do novo Brasil, assumiu a Presidência da República por mais de um ano, durante os dois mandatos. Na vice-presidência, jamais esteve à sombra do carismático Lula. Fazia duras críticas ao próprio governo, principalmente à política econômica, por conta dos altos juros do Banco Central, que, segundo ele, travavam o desenvolvimento do país, e eram “um assalto à nação”.
“Foi uma grande honra ter convivido com ele”, disse a presidenta Dilma Rousseff, em Coimbra, Portugal. “Ele é daquela pessoa que vai deixar indelével uma marca na vida de cada um de nós”. Dilma ofereceu o Palácio do Planalto para o velório de José Alencar, com honrarias de Chefe de Estado. Seu esquife subiu a rampa do Palácio levado em ritmo e cerimônia militares, ao som de salvas de canhão. O último velório com honras de Chefe de Estado havia sido realizado há 26 anos, com a morte em 1985 de Tancredo Neves, outro mineiro, tal qual, também, Juscelino Kubitscheck, em 1976.
“Conheço poucos seres humanos que tenham a alma de José Alencar, a bondade e a lealdade dele”, disse o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um companheiro de décadas e amigo pessoal. “O Brasil perde um homem de uma dimensão extraordinária.” Lula está corretíssimo. Alencar era mesmo excepcional. Até na hora da morte deu exemplo de vida. Mesmo sabendo que não possuía quaisquer chances clínicas de superar o mal, e com o corpo já demasiadamente debilitado pela doença, mantinha viva a esperança, o bom humor, a força e o desejo de viver. O câncer, uma manifestação maligna, que no caso de Alencar era desordenado e metastatizado, teve que se esforçar muito para baixá-lo à cova.
Vê-se no mundo pouca gente com tamanho vigor e paciência com o padecer. Ele disse, certa feita, em entrevista ao Fantástico: “Eu não estou habituado a coisas fáceis. Sempre me deparei na vida com problemas difíceis e nunca deixei de enfrentá-los. Eu não tenho medo da morte, tenho medo da desonra. A morte é um fenômeno natural. Assim como você nasce, vai morrer um dia. Não temos que pensar nisso de forma alguma. E você vai viver o tempo que Deus quiser que você viva. Eu não posso, de forma alguma, pensar que vai acontecer alguma coisa comigo sem que Deus queira. E se Deus quiser, inclusive que eu morra, é porque vai ser bom para mim. Porque Deus não faz nada ruim contra ninguém.” Noutra ocasião, afirmou: “O escoteiro sorri na desventura”.
“Eu vou guardar para sempre o heroísmo deste homem, que serviu de lição para minha vida e para a vida de milhões de pessoas”, disse, emocionada, uma cidadã brasileira que sofre de câncer e foi visitar o féretro no Palácio do Planalto.
José Gomes Alencar nasceu em 17 de outubro de 1931, em Muriaé, Minas Gerais. Trabalhador desde cedo, o ex-vice-presidente teve seu primeiro emprego aos 14 anos em uma loja de tecidos, como balconista. Foi dali que despertou nele o interesse por tecido que o levaria, mais tarde, a se tornar um dos mais proeminentes empresários da indústria têxtil brasileira. Sua atuação à frente da Coteminas, o grupo têxtil líder no Brasil e na América Latina, o tornou conhecido nacional e internacionalmente e o levou para a política. Tal qual o ex-presidente Lula, Alencar não avançou muito na educação formal. Estudou somente até a 5ª série. Ainda assim, possuía destreza e fartura de conhecimento invejáveis. Era um ótimo orador, articulista e grande pensador.
Seu esplêndido tino empreendedor o colocou entre os maiores empresários do Brasil. Foi presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) e vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Na política, foi também muito bem-sucedido ao ser eleito senador por Minas Gerais com quase três milhões de votos. Antes, Alencar havia tentado o governo de Minas, mas ficou em terceiro lugar. Seu ápice veio em 2002, quando, pelo PL, formou chapa com Lula e venceu as eleições presidenciais, sendo reeleitos em 2006 para um segundo mandato.
Ainda com tanto êxito empresarial, e sendo símbolo de ética na política, seu legado supremo fica mesmo expresso na simplicidade que tinha, e no modelo de perseverança e resistência que mostrou à família, aos amigos e à nação brasileira. A candidez da alma, bem como disse Lula, será o marco maior de sua meritosa história de vida. Tanto na vida pessoal e profissional quanto na pública, José Alencar conseguiu mostrar que origens humildes são nobres, e que arrogância e luxúria não são bons combustíveis para o sucesso. Seu exemplo é inspiração para uma grande massa de brasileiros. De uma infância difícil e faltosa, ele cresceu para criar um verdadeiro império industrial e para se transformar num ser humano indispensável.
O empresário e político recebeu homenagens em dois velórios oficiais e religiosos. Depois do Palácio do Planalto, o corpo de Alencar foi transferido, sempre com honras militares, para Belo Horizonte, em Minas Gerais, seu estado natal, onde foi recebido com altas honrarias e bandeiras a meio mastro. O governador Antônio Anastasia cedeu o histórico Palácio da Liberdade para o velório. Da base de Pampulha, o féretro foi transportado em carro aberto do Corpo de Bombeiros, por sinal, o mesmo histórico e simbólico veículo utilizado no cortejo com o corpo de Tancredo Neves. Chegando ao Palácio da Liberdade, o caixão de Alencar foi recebido pelos Dragões da Inconfidência e pela cavalaria militar. Perfilados, os militares reverenciaram a chegada de Alencar, com a mesma honra dispensada a Tancredo Neves, também no referido Palácio. A presidenta Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula também homenagearam Alencar em Belo Horizonte, tal qual haviam feito na noite anterior, em Brasília. Ambos estavam em Portugal quando Alencar pereceu, mas adiaram o retorno ao Brasil.
Sobrevivem-no a esposa, Mariza Campos Gomes da Silva, três filhos, Maria da Graça, Patrícia e Josué Christiano, bem como cinco netos: Ricardo, Geovana, Barbará, Josué e Davi. Também, deixa uma suposta filha, Rosemary de Morais, uma professora aposentada, de 55 anos, que entrou na Justiça para ter a paternidade de José Alencar reconhecida.
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“Deus não deve, nem eu quero, que me dê nenhum dia de vida a mais de que eu não possa me orgulhar. Se Deus achar que a minha vida possa ser útil, e me der mais um dia de vida, eu fico, naturalmente, reconhecido e vou procurar fazer com que este dia seja útil.” (José Alencar)
Fabrício Silva
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