Mais uma vez o mundo se estarrece diante da violência que vem do Oriente Médio, região da Ásia formada por 15 países. Ao contrário do que parece não se trata apenas de uma simples disputa por terras entre dois vizinhos inconsequentes. A questão remonta aos primórdios bíblicos e, portanto, tem fortes conotações religiosas. Tudo teria começado lá em Gênesis, quando Noé, pai de Sem (antepassado dos judeus, daí o termo “semita”) e Cam (segundo historiadores, o antepassado dos árabes), embebedou-se e ficou insatisfeito com a atitude deste, que fez chacota com a sua embriaguez, sendo por isso amaldiçoado pelo próprio pai.
Como se observa, os árabes (palestinos) e judeus (israelenses), são povos primos, filhos de dois irmãos. É, também, uma briga de família. A discórdia foi crescendo ao longo dos séculos e ficou mais acirrada quando Deus resolveu fazer uma aliança com Abraão, descendente de Sem, dando-lhe de presente Canaã, a “Terra Prometida”, a atual Palestina, local do recente conflito. Acontece que o lugar já era habitado por cananeus (descendentes de Cam, daí o termo Canaã). Moisés conduziu o povo hebreu do Egito, onde era escravizado, até a citada localidade, expulsando os que lá estavam.
Grosso modo, é como se os judeus reivindicassem a propriedade alegando que Deus, o dono de tudo, lhes doou a terra. E o documento que atesta tal doação é nada mais do que a própria Bíblia. Os árabe-palestinos alegam que tinham a posse direta da terra, já que os seus antepassados (cananeus) estavam lá quando os hebreus (judeus) chegaram. Com a tomada da terra, séculos depois o rei Davi instituiu oficialmente um Estado Hebreu, sendo derrubado, mais tarde, pelo Império Romano, que gradativamente os expulsou da “Terra Prometida”, dando origem ao fenômeno que ficou conhecido como “diáspora” (dispersão dos judeus pelo mundo). Com isso, os árabes (cananeus) que haviam sido retirados à força da terra começam a voltar lentamente para a Palestina. Os judeus se espalham pelo mundo, tornando-se apátridas.
Entre 1939 e 1945, a II Guerra Mundial mudou o destino dos judeus. A loucura de Hitler, que via neles uma ameaça para toda a Europa, já que dominavam boa parte do comércio, além da sandice de raça pura, fez com que o Nazismo dizimasse 6 milhões dos filhos de Sem, o que ficou conhecido como Holocausto (referência aos sacrifícios que eram feitos a Deus, no Antigo Testamento). Com o fim da Guerra, os Estados Unidos, juntamente com os países aliados, fundaram a ONU, daí sendo criado o Estado de Israel em 1948, local que deveria abrigar todos os judeus espalhados pelo mundo. Um diplomata brasileiro, Osvaldo Aranha, presidiu a sessão das Nações Unidas que criou o novo Estado, sendo até hoje reverenciado pelos israelenses. Israel recebeu este nome em homenagem a Jacó, filho de Isaac, que era filho de Abraão, que foi assim chamado por Deus. Ao centro da bandeira de Israel vê-se uma estrela de seis pontas, a Estrela de Davi, em referência ao rei que primeiro instalou um Estado Hebreu.
Acontece que Israel foi construído justamente na Palestina, terra prometida por Deus aos judeus, mas que os árabe-palestinos se dizem donos, vez que os seus antepassados tinham a posse. Resolveu-se o problema dos judeus e criou-se outro de igual proporção, já que agora são os palestinos que ficaram sem pátria. A Palestina é um minúsculo território, com pouco mais de 27 mil quilômetros quadrados, dos quais 21 mil são ocupados por Israel. O restante é dividido entre Faixa de Gaza e Cisjordânia, onde vivem os palestinos, descendentes de Cam. Somente na Faixa de Gaza vivem quase 1,5 milhão de árabes, numa área de 10 km de largura por mais ou menos 45 km de comprimento, bem ao lado de Israel, tendo entre eles a cidade sagrada e histórica de Jerusalém (motivo de eternas disputas).
Desde 1948 grandes conflitos ocorreram na região, e um dos principais foi a Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando Israel tomou dos árabes a Península do Sinai, a Faixa de Gaza e as Colinas do Golan. As duas primeiras foram devolvidas, mas a última até hoje não voltou às mãos da Síria, sendo motivo para muitos atentados terroristas. Outro grande entrevero foi a Guerra de Yom Kipur, em 1973, quando o Estado de Israel quase sucumbe diante das forças árabes, tendo sido providencialmente amparado pelos EUA. Outra ocasião de muitas mortes foi a Intifada (levante de palestinos contra judeus) ocorrida entre os anos 2000 e 2006.
O grupo radical islâmico Hamas tomou o poder na Faixa de Gaza nas últimas eleições legislativas, relegando a Fatah, do ex-líder Yasser Arafat, e hoje dirigida pelo presidente Abbas, ao comando da Cisjordânia. Embora a Palestina não seja um Estado oficial, com fronteiras e soberania definidas, mantém relações diplomáticas com diversos países. O atual conflito está sendo considerado o mais violento desde a Guerra dos Seis Dias e teve início no mês de dezembro de 2008, quando expirou o acordo de paz de seis meses assinado entre os dois povos em junho do mesmo ano. O Hamas lançou foguetes contra Israel, que no revide (considerado desproporcional), já matou centenas de palestinos, entre civis e militares, e o número de mortos aumenta a cada dia.
Desde aquele famoso porre de Noé esses dois povos não se entendem. Três questões atuais insuflam o ódio entre eles: a reivindicação de um Estado independente, aos moldes de Israel, pelos palestinos; a disputa por Jerusalém e a devolução das Colinas do Golan à Síria. Além disso, quase 400 mil israelenses vivem em território palestino, nos assentamentos judeus que causam conflitos diários na região. Num tempo em que os muros estão caindo, uma enorme barreira de concreto está sendo erguida pelo Estado de Israel na região, o que separa ainda mais os dois mundos. Como se tudo isso não bastasse, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, islâmico fanático, ameaça construir a bomba atômica e suas metas são, nesta ordem: destruir o Estado de Israel e os EUA, o “Grande Satã”. Se isso vier a acontecer, estaremos diante de uma inevitável III Guerra Mundial, onde os países do ocidente certamente se aliarão aos americanos e israelenses. Do outro lado, boa parte do mundo árabe-islâmico se unirá.
Infelizmente, o fanatismo religioso não se estanca com medidas políticas, através de decretos e acordos diversos, por isso o fim dos conflitos é cada vez mais um sonho impossível. Talvez seja um acordo que deva ser feito entre Javé, o Deus dos israelenses, e Alá, dos palestinos. Por tudo isso, confesso que me deu vontade de rir ao ver no Jornal Nacional o presidente Lula suado num desses palanques da vida, prometendo convocar o chanceler Celso Amorim para tentar acabar com a matança da região. Em que pese a boa-fé do Presidente, ele não sabe o que está falando. A esperança é que Barack Obama venha a intermediar um acordo de paz que, se não vai resolver definitivamente a questão, colocaria um fim temporário à barbárie. Ao menos até o próximo capítulo.
Dídimo Heleno Póvoa Aires (Dibo) – advogado, membro das Academias Palmense e Tocantinense Maçônica de Letras.




