Por que não sabemos explicar a súbita nostalgia de um lugar ou coisa vivida antes, principalmente quando nos aproximamos do final da tarde, quando o sol vai se escondendo e uma penumbra traz a noite?
Por que a cada mudança de estação, principalmente entre a seca e a chuvosa, quando a ventania começa a varrer as ruas prenunciando as primeiras chuvas do cerrado, e as águas lavam o solo, exalando o cheiro de terra lavada, nos transportamos mentalmente de volta às nossas origens, aos quintais do nosso tempo?
Por que desejamos que as pessoas, coisas, não se evoluam e fiquem estacionárias no tempo, conservando os marcos, lugares e ambientes da nossa história, a fim de que possamos retornar e reencontrá-las, no mesmo estágio em que deixamos, para então, imbuídos de um egoísmo injustificável, exaltarmos nossa particular evolução, crescimento em face de outros, apesar de termos distanciado durante tanto tempo, sem qualquer justificativa, sem embargo, também, de termos transmudado física e intelectualmente?
Por que a música nos transporta ao passado, a lugares e pessoas, que não existem mais, e apesar de sermos ciente dessa realidade, ainda assim, nos sentimos bem em buscar essa prática, como se fôssemos adeptos de um auto-sofrimento, uma vez que jamais conseguiremos resgatar épocas, lugares e pessoas que já deixaram de existir, que já se transformaram pelo tempo?
Por que as festas de época e os embalos de suas canções, tais como os natais, as festas juninas e carnavais, não se tornam démodé e sempre nos remete de volta a um lugar e momento especiais no tempo?
Por que temos saudade da infância, sua inocência e pureza, já que sempre perseguimos a emancipação, a fim de praticar a malícia, conhecer segredos dos adultos?
Por que não esquecemos a comidinha da nossa casa materna e a primeira professora, se já temos ao nosso alcance os melhores restaurantes, os melhores professores universitários?
Por que não aceitamos a doença, a velhice e a morte dos nossos entes queridos, se todos se igualam nestas circunstâncias?
Imaginamos que os “por quês” só nos perseguissem apenas naquela tenra fase da infância. Ora, ledo e torpe engano! Naquela época, esses pronomes alcançavam respostas ou evasivas apresentadas pelos nossos genitores, de acordo com o grau de dificuldade dos questionamentos levantados. Agora, muitas respostas que buscamos podem estar diante dos nossos próprios olhos, mas nos recrudescemos em vê-los ou até mesmo não temos a sensibilidade aguçada para isso.
Demais a mais, neste misto de conflito entre perguntas sem respostas e saudosismo, muitos já dispararam que o passado é uma roupa que não se usa mais e, além disso, viver do passado seria sofrer duas vezes. Outrossim, o que muitos se recusam em admitir é que inexoravelmente estamos presos ao nosso passado, já que ele constitui a base e estrutura do que vivemos no hoje e viveremos no amanhã.
Ora, apesar das lições exaltarem que a caminhada deva se dar no sentido do amanhã, no entanto, a todo instante fazemos remissões às condutas e posturas do ontem, para tomarmos a decisão mais acertada. Ou seja, viver com as reminiscências, certamente, não se revela prática estacionária no tempo, ao contrário, demonstra que se construiu, que se edificou, e, ao final, que tem algo de bom para recordar, para lembrar. Enfim, só mesmo, aquele que não arregimentou caminhos merecedores de recordação, insurge-se contra o saudosismo que nos incorpora, graças à Deus, a todo momento, pelas datas, pela mudança da estação, pelos reencontros, pelas despedidas....
Zilmar Wolney Aires Filho (Zilô), advogado e professor universitário




