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Sacola de plástico, bolsa de pano e cara de pau PDF Imprimir E-mail
Qua, 14 de Outubro de 2009 14:55

Depois de passar 10 minutos espancando o adversário de apenas 53kg, o peso-pesado Mike Tyson resolve compensar o pobre oponente dando-lhe um Band-Aid.

A hipotética cena acima serve como comparação para a ação de preservação do meio ambiente da Petrobrás, na qual a empresa distribui sacolas retornáveis. O que ela quer com isso? Induzir o consumidor a utilizar sacolas de pano, ao invés de sacolas de plástico. A ação parece nobre, certo? Errado. Já explico.

Sacolas plásticas são feitas à base de polietileno ou polipropileno, derivados do petróleo. Petróleo? Não é esse o negócio da Petrobrás? Vai vendo...

Relatório do Unibanco de 6 de agosto de 2007 fala sobre a compra da Suzano Petroquímica pela Petrobrás. Veja trecho do texto: “Depois da aquisição, a Petrobras terá uma participação relevante no mercado de resinas, com 24% da fatia de mercado de polietileno, atrás da Braskem, e assumirá a liderança no mercado de polipropileno, com 53% de participação de mercado”.

Então deixa ver se entendi direito: Petrobrás gera insumos necessários para produzir sacolinhas, ganha rios (ou mar, veja aí o pré-sal) de dinheiro com isso e agora quer que acreditemos que ela realmente não gosta das sacolas de plástico?

Em todo o mundo, são produzidos 500 bilhões de sacolinhas a cada ano, o equivalente a 1,4 bilhão por dia ou a 1 milhão por minuto. No Brasil, 1 bilhão de sacolas são distribuídas nos supermercados mensalmente - o que dá 66 sacolas por brasileiro ao mês. Dizem que tais sacolas levam cerca de 300 anos para decompor.

Entendo que a empresa esteja preocupada com o meio ambiente e queira fazer algo por isso. Mas se quer realmente combater as sacolas plásticas, basta parar de vender o subproduto do petróleo, oras. “Ah, mas esse é o negócio dela”, diria alguém. Pois então que pare com esta bobagem de faz-de-conta! A Petrobrás explora petróleo, que vira gasolina e diesel, queimados e jogados na atmosfera. Se é assim que ela ganha dinheiro, assuma isso e vá caçar outra forma de compensar este judiado planeta.

Plante árvores; despolua rios; invista na proteção de animais em extinção. Qualquer coisa é válida, desde que não seja uma ação hipócrita. Se a Petrobrás quisesse mesmo livrar este planeta de sacolas plásticas, ela poderia tomar providências para verdadeiramente resolver a questão.

Friso: sacolas retornáveis são bacanas. A preocupação ambiental é bacana. Mas a campanha só teria sentido se fosse outra empresa que estivesse com esta bandeira. Não dá pra aceitar tal postura de alguém que é parte do problema.

E a Petrobrás debocha de nossa inteligência. Na polêmica sacola retornável tem a seguinte frase: “Eu faço a minha parte”. Não questionamos sua parte, consumidor consciente e preocupado com o futuro da Terra. O problema é que os números do quarto parágrafo comprovam que a Petrobrás também faz a parte dela: lasca de ganhar dinheiro, enquanto o planeta se lasca.

Geraldo Neto, radialista, pós-graduado em Assessoria de Comunicação e usuário de sacolas plásticas (feitas de polietileno ou polipropileno).