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Réquiem ao monsenhor João Magalhães Cavalcante PDF Imprimir E-mail
Qua, 23 de Fevereiro de 2011 14:21
O águia da Terra das Dianas alçou vôo eterno, rumo à Pátria espiritual. Agora, para sempre, a maranata não arrebentará as alvoradas do Duro, com a valsa matinal, “por de sol”. O coreto será apenas página da história, onde os jovens enamorados ofereciam suas canções, nas tardes da velha pollis. O ginásio João D´Abreu não ecoará, no seu interior, a voz que entoava aulas magnas de latim, francês, inglês. E a igrejinha da Sagrada Família silenciará o sábio e insubstituível sermão. Pois, o “Bom Francesinho”, o velho Maga, se foi. Assim, a bela canção Greenfields, na voz de Nilo Amaro, soará apenas como um eco de nostalgia.

Ele deixará saudade daquela inescondível sabedoria, onde queria explicar o inexplicável, sempre com uma gagueira infantil, de bom professor, querendo passar o melhor aos seus alunos, sem economia de conhecimentos. E, ao final, sempre citava um filósofo, para embasar suas falas. Magalhães bem que não precisava explicar nada. Sua presença de espírito já era tudo.

Monsenhor Magalhães amou Dianópolis, além de muitas crias do lugar. Ele educou gerações, trouxe novo estilo, no modo de ser, de pensar, e na maneira de agir de inúmeras gerações. Foi um craque na seara cultural, cujo estilo ainda hoje se antepõe à anti-cultura que habita as praças da Terrinha, num barulho ensurdecedor, onde a confusão de notas musicais, objetiva tomar corpo de música. Não foi isso, que o velho mestre ensinou. Educou-nos a ouvir, sim, as músicas da bossa nova, como as de Dorival Caymmi; o vozeirão de Frank Sinatra; as músicas francesas de Christophe, como Aline. E aquelas italianas de Sérgio Endrigo e Gigliola Cinquetti, como “Io che amo solo te” e  “Dio come tio amo”, dentre outras tantas, que repercutem, até hoje, no subconsciente dos cônscios aprendizes.

Este projeto de artigo, na roupagem de réquiem, seria muito audacioso, em querer sintetizar, em apenas algumas linhas, todo o legado que foi Padre Magalhães, para Dianópolis-TO, seus filhos e gerações. Mais que isto, porque, também, dentre tantos ilustres filhos que educou, talvez, não seríamos nós o mais legitimado para fazer registros de sua história. Todavia, como muitas vezes, tive o privilégio de ser solicitado por este, para rascunhar os seus escritos, discursos, tomo a liberdade de render o nosso último preito de gratidão.
 
Me penitencio pelos arroubos, a fim de registrar que fui discípulo, aluno e coroinha do Padre Magalhães. Vi ele cristianizar rebanhos. Traduzir, a bom termo, o sentido das parábolas do Cristo, em memoráveis sermões, que libertou inúmeros fiéis pelo conhecimento. Ele batizou, casou e fez extrema unção de inúmeros filhos do seu rebanho. Agora, só podemos lhe dedicar um réquiem desafinado, porque, aqui, os discípulos, não conseguiram superar o velho mestre, já que ele sempre estava além do seu próprio tempo.

Magalhães foi, sim, mais Dianópolis do que Arraias, Campos Belos, Peixe, ou qualquer lugar onde esteve pregando e educando gerações, na condição de sacerdote e professor - que me perdoem opiniões em contrário. Na Terra das Dianas, por algumas décadas, ele se entregou, por inteiro. Amou, sonhou, foi reconhecido, e retornou mais uma vez, para partir em definitivo rumo às plagas celestes. Outrossim, insta salientar que sempre reconheceu, com gratidão, as honrarias que todos os povos e lugares dispensaram à sua pessoa, por onde quer que tenha passado. Enfim, é bom que se lembre, que o seu último testamento oral, para meu irmão Abílio Wolney Neto, foi de passar seus últimos dias na Terrinha. Assim, como se dera em relação à madre Aranzazu, em seu desabafo, para comigo, numa última empreitada caritativa na periferia de Dianópolis-TO.

O sacerdote Magalhães pode ter sido incompreendido, por muitos, em suas inovações progressistas e, em sua inquietude cultural. O cine Atanaram, o Juvenato Dom Alano, a paixão pelo futebol. Ele rompeu velhos paradigmas do homem sertanejo, do antigo norte goiano, hoje sudeste do Tocantins. Para tanto, utilizou a mesma régua e compasso de Anchieta e Nóbrega, nos caminhos da catequização. Nesses trilhos, despiu São Lalau, para vesti-lo São José, o nosso padroeiro. Porém, tudo isso produzia reações e oposições daqueles que pouco compreendiam suas empreitadas sertanistas desbravadoras, de cunho estadista. É sempre bom reiterar: “Ele estava além do seu tempo”, como num momento feliz, poetizou José Alencar Costa Aires.

Por derradeiro, segue nosso último bafejo de saudade, agora, em verbos tristonhos e lágrimas. Pois, a nostalgia é emoção, e no sentimentalismo não há controle ou policiamento daquilo que chega à mente, e desce às mãos em forma de escritos.  

Dianópolis te deu pouco, Monsenhor Magalhães. Pois que o título de cidadão que recebestes, outrora, atende bem aos pressupostos da cidadania, para que amanhã possamos eternizá-lo no logradouro público, titulando-o com seu digno nome. A nossa academia de letra, também, o imortalizou, reafirmando aquilo que já era imortal pela eterna herança do seu legado. E, no que diz respeito ao seu questionamento, de dias anteriores, acerca de onde seria a sede desta. Respondo que a referida sede será onde tiver alguma cria do seu rebanho, resvalando cultura oriunda de suas mãos!  

Outrossim, é tempo de pontofinalizar os resmungos de saudade, pois como bem ensinastes, professor Magalhães, a diferença entre a poesia e a crônica, é que aquela resvala vida e esta concretude. Ao final, em rumores nostálgicos, balbuciamos que este réquiem se diferencia de ambos, porque passa, antes que vida ou concretude, lágrimas e saudade.

Monsenhor Magalhães, nas palavras do teu sermão, nos despedimos, aclamando a uma só voz: “Glória a Deus, nas alturas, e paz na terra aos homens de boa vontade! Siga em paz, bom pastor, e que o senhor vos acompanhe, na jornada inexorável rumo ao Pai criador!

Zilmar Wolney Aires Filho (Zilô), advogado, professor Universitário, especialista em Processo Civil e mestrando em Direito