Outro dia desses, enquanto pescava no imenso lago aqui de Palmas, me veio na lembrança, uma parte boa da minha infância. Quando eu passava boa parte do dia pescando, banhando e desbravando uma barragem, que não sei se ainda existe, denominada de Barragem do Consórcio. Esta comparação com o lago aqui de Palmas, a primeiro momento pode parecer uma piada, mas quando somos criança, tudo nos parece imenso, incomparável. Para mim, aquilo era a oitava maravilha do mundo. O impressionante, que na própria ida, muitas vezes de bicicleta, achávamos aventura em tudo. Um buraco grande que tínhamos que passar, uma poça de lama que teríamos que atravessar pedalando sem por os pés no chão. Quanto mais obstáculos melhor era a aventura.
O mais impressionante ainda, é que quando crescemos, qualquer probleminha é motivo de desespero, e o fim. Será porque ocorre isso? Deixa para lá, isso já é outra história... Esta barragem por um longo período, era o nosso melhor lazer em Dianópolis. O maior barato de tudo era, sem dúvida, a pescaria. O momento de jogar o anzol na água, o local ideal, a puxada mais forte, alegrias que iniciavam até mesmo na compra da “tralha”: Vara, linha, chumbada, anzol... Objetos que na maioria das vezes eram comprados no histórico Casa Ponto Certo, armazém de seu Nélio. Nesta pescaria o peixe mais perseguido, apesar de não termos muita opção, era a “Joana Mole”, que denominávamos de “Moreira”.
Era cada Moreirona meus amigos!
A isca era a minhoca colhida nos quintais de nossas casas e o local onde garimpávamos por elas, deixando nossas mães “pês da vida”, era à beira do tanque de lavar roupas.
Na Barragem do Consórcio pescava-se além de Moreiras: a famosa Traíra (Esta somente no findar da tarde), o Cará (conhecido também por Caroço de Manga e Corró), o velho comedor de isca “o Piau 3 pintas”, as sardinhas ou ladinas (que eram piabas maiores que as outras), as Zoiudas ou Zuiudas (eram as piabas que tinham os olhos maiores que o normal).
Dentre estes, havia um peixe esquisitíssimo: o Mussum (peixe escuro, gosmento, comprido e fino, perecia uma cobra) que quando montava no anzol, fazia o pescador sair correndo de medo.
Percebe-se então minha gente, que a Barragem do Consórcio era um mar de diversidades, era formosa, cercada de uma bela mata verde, dotada de uma água fria e barrenta, de uma fundura impressionante. Terminada então a pescaria, era o momento de tirar os peixes da enfieira e fazer a contagem. Ver quem pescou mais ou quem pegou a “Moreira” maior do dia. Logo após isso, era hora do banho, a disputa agora era nas piruetas, nos “pulos mortais”, de frente, de costa...
Isso tudo ocorria nos dias de semana logo depois do almoço, assim que chegávamos da aula, e nos finais de semana nem dormíamos direito, acordando de madrugada para ir pescar.
Lá fazíamos amizades e muitas vezes, inimigos mortais. Encontrávamos garotos de vários setores da cidade: do Cavalcante, da Rua Baiana, da Rua do Couro, da Rua do Currao da Matança e etc...Cansei de ver nós entregarmos nossas “Moreronas” à força para algumas destas turmas que ali freqüentavam. O bem da verdade, que muitos deles coitados, apesar da deslealdade, e da maldade, precisavam muito mais que agente daqueles peixes em casa.
Esta é resumidamente um pouco da história desta Barragem, que ficou guardada na minha memória e que de alguma forma fez parte de minha vida.
Por tanto reafirmo, “recordar é viver”.
Mário Sérgio Mello Xavier




