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Relembrar é viver - 1

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Outro dia desses, num momento em que a insônia insistia em barrar o fechar de meus olhos, eu os voltei para a janela, mais especificamente para o céu cheio de estrelas. Lembranças boas de minha infância recaíram no meu pensamento, momentos ínclitos quese tornam inolvidáveis em nossas vidas.

Recordei de quando morávamos ao lado do antigo Fórum, perto também do antigo Banco do Estado de Goiás - BEG, onde hoje é a Câmara de Vereadores. Lá residimos por muito tempo e hoje é o Supermercado Ditinho - nome em homenagem ao meu finado avô Ditinho - que pertence ao meu tio Manoel, irmão de minha querida mãe, Dona Lourdes.

Vivíamos uma vida bastante simples, mas acima de tudo tranqüila e harmoniosa. Eu estudava na Escola Batista, fazia nesta época o antigo Jardim de infância. Lembro-me muito bem do uniforme que usávamos: um macacãozinho vermelho, uma camisa branca por dentro, meias brancas até o joelho e nossos nomes gravados no peito. Tinha entre 5 à 6 anos de idade nesta época. Idade preenchida pela ladinagem, inquietude e de muito atento. Só parávamos de funcionar nosso motorzinhos para comer ou na hora de dormir.

As preocupações da vida não eram muitas, exceto uma que relatarei a vocês. Lembro-me de alguns dos coleginhas meus desta época: Aloísio Neto (Lú), Aloísio Parente, Henrique Loureiro (Kindoba) e etc... Gostávamos de andar juntos, mas isso não impedia que uma dupla amedrontadora surrupiasse nossos lanches na hora do recreio. Eram dois irmãos gêmeos - que não me recordo o nome no momento - que nesta época, eram mais velhos e desenvolvidos que agente. Estávamos no jardim de infância enquanto eles já eram para está cursando a 1ª série. Esta diferença impedia que espocássemos algum tipo de reação diante das humilhações impostas.

Morríamos de medo, mas graças a Deus, eles ficavam somente na ameaça de uma possível surra na hora da saída. Um belo dia, este negócio de ter nossos lanches devorados todos os dias veio ao fim. Encorajei a todos, tínhamos que unir forças para reagir contra esta situação insuportável. Naquele exato momento, estávamos nos tornando a "Liga da Justiça".

Os espíritos dos heróis: Lanterna Verde, Ájax, Flash, Super-homem e Batman, baixaram
literalmente na gente. Infelizmente meus caros, na hora "H", alguns heróis foram correndo do pau. Tava tudo combinado para reagir contra os maus tratos. Sem saber do acovardamento de alguns, na hora do recreio, eu recusei entregar o lanche quando um deles veio pedir para que eu abrisse minha lancheira. Não quis ceder a minha deliciosa merenda e esta recusa foi na frente de todos, como eles costumavam fazer com agente na hora de confiscar nossos lanches.

Eles ficaram enfurecidos e a ameaça era mais branda que nunca. Prometeram que desta vez não iria ficar somente nas ameaças. Chegada então a hora da assombrosa saída, o sino batendo e eu já imaginando as batidas que eu ia ganhar no meio da cara também. O coração estava para sair pela boca, aos poucos a Liga da Justiça foi se desfazendo e eu ficando sozinho nesta batalha. Lembro-me que o único que ficou comigo foi Aloísio Neto. Este, como até hoje ainda é assim, sempre foi um cara tranqüilo, meio quieto, mas na hora que se zangava de verdade, podia sair da frente que o homem virava cachorro doido.

No exato momento da saída, percebi que a escola toda estava sabendo da grande surra. Gritos de incentivo e de deboche ecoavam vindo de todos os lados. Frente a frente, jogamos as mochilas no chão e começamos um ritual parecido com as brigas de galo, ombro a ombro, eu era o mais baixinho dos três, mas como dizem pó aí, eu era como um garnisé: pequeno, turrento, mas bom de briga que só vendo...Nós mesmos, tios, amigos, primos e nossos pais eram o alvo das ofensas. Mas existia, e ainda existe, uma frase que não podia ser pronunciada de forma alguma em minha frente. Foi o que ocorreu, assim que saiu da boca de um deles: "filho de uma puta ruim e tal..." Rapaz ! O pau quebrou feio ! Aloísio chega escumava o canto da boca de raiva, gritava freneticamente, pareia ter baixado um espírito ruim nele. Gritava tanto, que deixou o seu oponente até com medo. Eu ? eu não lembro de muita coisa, dizem que na hora da raiva a gente sega não é mesmo ? Mas foi isso minha gente, foi pá, buf, purucutufe e moita. Os dois eram grandes, mas o tombo deles foi bem maior. Batemos e a partir daquele dia, éramos nós que extorquíamos o lanche deles. Fazíamos algo parecido com Hobin Hood, pegávamos a merenda deles e distribuíamos para os demais colegas. Com isso tudo, nosso moral subiu e até as menininhas passaram a nos dengar e mandar bilhetinhos apaixonados.

Muitas vezes, levados pela inocência e o desconhecimento, durante nossa infância, nós
brincamos e brigamos em proporções quase que iguais. Mas que esta lição aqui, fique no passado, até porque hoje, nós nos conhecemos e sempre que encontramos um com o outro relembramos este momento.

É isso aí queridos conterrâneos, e hoje, deveríamos manifestar parte da atitude supracitada, quando vemos descaradamente, nossos representantes políticos surrupiar os cofres públicos impunes. A diferença é, que ao invés de braços e tapas, que nós usemos
bem a nossa mais poderosa arma: "o voto".

Mário Sérgio Mello Xavier

 

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