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Processo político – mecanismo eficaz para desmistificar a ignorância como ciência PDF Imprimir E-mail
Qua, 27 de Setembro de 2006 20:10

Ao se aproximar do instante maior político do país, uma apatia, descrença e desinteresse se apossam do povo. É como se não houvesse necessidade de mudanças no contexto político, ou se as decisões de tal seguimento em nada refletisse ou significasse em nossas vidas!

É vetusto o chamamento que conclama a todos, dentro dos seus próprios ciclos, e de acordo com os seus esclarecimentos, participarem do processo político, articulando aos menos esclarecidos acerca do melhor perfil de candidato e partido, pois que só assim seria vencido o infeliz vício do toma-lá-dá-cá de cada eleição.

Muito embora a liberdade de escolha e de opiniões seja um direito e garantia assegurado por lei; por outro lado, conformismo e entreguismo em relação à situação política instaurada, certamente revela-se a pior prática. Indiferença e omissão, através de votos brancos e nulos, também, exsurge como um protesto surdo e incoerente, tendo em conta que no sistema proporcional de escrutínio, estes votos serão repassados às maiores coligações e legendas, na perspectiva de terem abarcado maior número de votos.

Não se pode continuar assegurando a idéia de que cada povo tem o governo que merece, porque o filósofo Joseph de Maistre teria feito a assertiva em tempo de Revolução Francesa, pois que os vales e cestas básicas, disso e daquilo outro, que acomodou e viciou alguns eleitores menos esclarecidos, não pode impedi-los de querer aprender a pescar e, inclusive, decidir sobre aquilo que, politicamente, se revele melhor para o Brasil.

O ciclo vicioso político instaurado revela o seu notável interesse em manter um eleitorado inconsciente, com o propósito de, a cada nova eleição, implementar o fácil aliciamento. Aliás, o que se faz agora, em dias de título de doutor honoris causa concedido pelas renomadas instituições de ensino superior, até mesmo aos incultos, revela-se apenas o agravamento daquilo que, ontem, Garrastazu Médici fizera em dias de MOBRAL. Pois que, agora, pariu-se Faculdades de Ensino, por todas as esquinas do Brasil, para titular, do dia para a noite, sem maiores critérios ou exigências, o analfabetismo, em nome das exigências de Órgãos Internacionais. Ademais, cabe refletir que, em momento algum, se pensou, em nível de futuro acerca do descrédito e inviabilidade do sistema de ensino superior, bem assim sobre os novos bacharéis, que porventura tiverem rejeitados os seus diplomas ante a visível inabilidade profissional.

A velha e sofrida classe média, indefinida num contexto entre o que se chama de pobreza e miséria, e a resistência altruísta de se continuar pagando, através dos pesados tributos, todas as manias, paixões e vícios políticos, ressente-se, mas não reage participando efetivamente do processo político, para, através das urnas, rejeitar velhos coronéis políticos, e outros transgressores do ordenamento jurídico que se camuflam através da imunidade parlamentar temporária, para se protegerem dos rigores da lei.

A história não muda, porque as novas esperanças políticas, inicialmente castas e cheias de boas intenções, para não caírem no ostracismo, aderem a pactos e falcatruas, e passam a ser mais um no ciclo vicioso político. Talvez, por isso, fosse obrigado a repetir um temeroso e indesejado jargão popular que afirma que: “a maioria dos homens, salvo consideráveis exceções, à medida que mais nada têm a fazer, e perdem o pudor, resolvem ser políticos”.

Outrossim, no sistema de governo e regime político adotados pela República Federativa do Brasil, necessitamos de parlamentares, cabendo exclusivamente a nós separarmos o joio do trigo. Ademais, não nos compete agora levantar a idéia de que o mau caráter político é algo crônico, em função da origem mal resolvida do povo brasileiro, oriunda da escória de Portugal, misturada ao bicho índio preguiça e ao sambista africano. Ora, tantos anos já foram necessários para depurar a espécie. Por isso, a corrupção não pode ser propalada como uma moléstia hereditária. Na pior das hipóteses, como algo cultural, que ainda resiste em nosso meio porque não há punição. E, principalmente, porque comumente nos quedamos inertes, à guisa de ilustração, em nome de um membro de família, que está sendo favorecido pelo sistema vigente, e termina por amordaçar a voz da razão de muitos.

Insta salientar que a cláusula pétrea do voto, se dá de forma secreta, direta e obrigatória. Assim, esse é o momento do desabafo feliz de todo brasileiro em relação ao lodaçal de falcatruas que vem sendo despejado nesta Nação. Faz-se necessário não se deixar levar pela aceitação e concordância generalizada de práticas criminosas, como se fossem comuns e devessem ser banalizadas, porque a mídia monopolizadora massifica a isso, manipulando pesquisas, idéias e comportamentos, a fim de proteger os seus interesses espúrias.

Urna é símbolo de liberdade ao povo no regime democrático. Sejamos, pois, livres, autênticos e conscientes em nome de uma Nação viável, que irá ficar para os nossos filhos e netos. E, principalmente, para que não cheguemos a uma condição de termos vergonha de sermos honestos, apesar de vivermos numa época em que muitos ignorantes comandam letrados, como se quisessem fazer crer que a ignorância virou ciência.

Zilmar Wolney Aires Filho (Zilô), advogado e professor universitário.