Era uma vez um rapaz que viajava e olhava distraído pela janela do ônibus. De repente, ele avista um pneu que passava correndo, pareado com o veículo. O que seria aquilo?, pensou ele. Em seguida o carro pára e vem a constatação: aquele era um pneu do próprio ônibus que se soltou.
Num outro dia, um segundo rapaz também viajava naquele mesmo itinerário, quando ouviu um barulho e um grande susto: o ônibus fazia a curva, um de seus eixos se quebrou e o veículo saiu arrastando, se aproximando cada vez mais do barranco. O rapaz via o carro saindo pela estrada, parando muito próximo da ribanceira.
Este mesmo segundo rapaz presenciou outra cena absurda: durante viagem noturna, pela esburacada BR 153, por meio da mesma empresa, ele acorda assustado, com uma freada brusca do motorista. O carro pára, faz a manobra e retorna. De repente pára novamente. Alguém desce e começa a chorar. “Minhas bagagens. Perdi minhas bagagens”, se lamentava em prantos aquela humilde aposentada. O ônibus seguiu parando na rodovia e continuou a catar alguns volumes que caíram de seu bagageiro. Ele se abriu sozinho e vomitava os volumes dos coitados passageiros. Infelizmente aquela senhora não conseguiu reaver tudo que caiu pela estrada. Ficou no prejuízo. Seguiu viagem, chorando e se queixando no ônibus, contando com a solidariedade dos demais viajantes. E cada um contava uma história semelhante.
Não. Não estamos falando de um filme de horror. Não é também nenhum roteiro de filme trash americano. Esta é a realidade dos passageiros da Transbrasiliana, que faz a linha Goiânia – Dianópolis. O primeiro rapaz da história acima é um amigo meu. O segundo, infelizmente, sou eu próprio. E tenho mais vários lamentáveis exemplos de viagens frustrantes, enfrentadas por consumidores desrespeitados.
O caso mais recente foi o deste domingo, 11 de setembro de 2005. Terminal rodoviário de Goiânia. Box 36. 21 horas. O carro GV 1150 da Transbrasiliana, com itinerário Goiânia – Dianópolis, está parado e cercado por uma multidão. Lá fora, cerca de 40 pessoas impacientes pelo atraso da empresa. Muitos volumes à espera de alguém para guardá-los no bagageiro. 21:10 chega um representante da empresa, começa guardar os volumes e o último passageiro entra às 21:20. Mesmo já atrasado (o carro devia seguir viagem às 21 horas), só inicia sua viagem às 21:30. Meia hora de atraso, com muitas reclamações de passageiros e familiares que aguardavam a saída. O atraso é rotineiro no embarque. E os descasos não param por aí. Como é freqüente, esse ônibus quebrou na estrada, próximo de Gurupi. O carro, que podia chegar ao seu destino final por volta de 10 da manhã, só parou na rodoviária de Dianópolis às 13 horas.
Viajo por esta empresa a mais de 10 anos. Infelizmente, da Capital goiana até Dianópolis, é a única que faz linha direta. E atende, indiretamente, outros vários municípios tocantinenses. Ao sair de Goiás, passa por Alvorada, Gurupi, Peixe, São Valério, Natividade, Almas, Porto Alegre até chegar a Dianópolis. De Goiânia para Dianópolis, há outros caminhos “indiretos”. É possível ir por Brasília ou Luís Eduardo Magalhães (BA). Nestes caminhos alternativos, as vantagens são um respeito ao consumidor, passagens mais baratas e menos horas na estrada, além de ônibus melhores e que raramente quebram. A desvantagem destes itinerários é que se faz necessário a baldeação - troca de ônibus no caminho. Às vezes ocorrem pequenos atrasos no primeiro trecho da viagem, o que causa a perca do ônibus para se chegar ao destino final. E a baldeação é fator complicador para quem viaja com muitas bagagens. Portanto, a Transbrasiliana ainda consegue muitos clientes, apesar de desrespeitar o consumidor, atrasar a viagem, disponibilizar um péssimo ônibus e cobrar caro.
Para se ter uma idéia, por Luís Eduardo Magalhães (BA), o passageiro viaja em um ônibus bom, gasta 13 horas de viagem, em média, pagando R$ 85,00. Indo por Brasília, a viagem dura, em média, 15 horas, num ótimo ônibus, pagando cerca de R$ 90,00 no total. Já na Transbrasiliana, a viagem custa R$ 99,40 e o pobre viajante é desrespeitado em horários de saída e paradas, é transportado num ônibus de péssima qualidade e gasta 15 horas de viagem. Isso quando não quebra. Frequentemente há problemas nos carros e a viagem pode durar até 19 horas, como vários vezes já presenciei.
Creio que não seria pedir muito ao cobrar uma atitude do Ministério Público, do Procon estadual e municipais e dos próprios prefeitos das cidades atendidas pela empresa. Não é possível que não haja ninguém para defender o consumidor/contribuinte. Se dignidade e respeito não são palavras conhecidas nesta negociação, pelo menos deviam honrar o contrato que é feito ao vender a passagem: o consumidor está pagando, e caro, pelo serviço. Tem o direito de receber um tratamento digno.
Aos consumidores, sugiram denúncia na Agência Nacional de Transportes Terrestres, fone 0800-610300 ou email ouvidoria@antt.gov.br e no Ministério Público do Tocantins, pelo fone 0800-631150 ou email denuncia@mp.to.gov.br.
Geraldo Neto




