O Sol esparramava seus últimos raios, promovendo tons: violáceo, carmim e rosa chá... o amarelo transparente, misturava-se ao azul celestial, que mais à esquerda confundia-se com o vermelho, que mais adiante passava ao branco de titânio, numa gradação suave, dando a impressão de uma pincelada firme, levemente incerta, e aquele momento imprimia emoção única, com nuanças indescritíveis, inimitáveis, face a beleza ilustrada naquelas tardes... saudosas e tristonhas...E Ele, sentado, encostado num poste de energia elétrica, “bem ali” na esquina da Rua João Rodrigues, fitava a despedida do astro-sol, todas as tardes, no mesmo lugar, à mesma hora...
O olhar perdido fitava o horizonte, talvez meditasse sobre a arte natural legada pelo Eterno: o traço divinal desenhado sobre brancas nuvens, ornando o céu com as cores do arrebol.
Olhar ensimesmado, quiçá pressentisse o momento supremo que se avizinhava.
Da janela da nossa casa era possível vê-lo. Impossível era compreender o significado daquela cena, que se tornara habitual.
A notícia do seu retorno à Pátria Espiritual causara um silêncio ensurdecedor em meus sentimentos de filha, que foi logo quebrado pelo toque dorido do sino da igreja matriz de São José, anunciando a sua despedida, sem corpo presente! Apenas as lágrimas, a lembrança...a saudade!
Mentalmente, sento-me naquele mesmo lugar e procuro lembrar-me de quando ele estava entre nós:
...Uma valsa ao longe, muito longe, remete o meu pensamento ao passado e posso vê-lo deslizando pelos salões a dançar alegremente, embalado pelo som melodioso do estilo musical que era a sua predileção... nesses momentos assemelhava-se a um cisne branco, livre, deslizando num lago de águas plácidas.
Debruçado sobre a velha radiola, aguçava os ouvidos para, num tom quase inaudível, escutar Dilermando Reis, Mozart ou Beethoven, por horas seguidas...
A voz impostada numa entonação vibrante, arrancava lágrimas de quem o ouvisse declamar Castro Alves, e as estrofes de Vozes d’África ganhavam um significado especial, pois parecia que ele era parte da história delineada naqueles versos.
Cantara Pixinguinha durante o banho e transformara aquele momento habitual num traço da personalidade: “Tu és, divina e graciosa estátua majestosa do amor por Deus esculturada, e formada com o ardor da alma da mais linda flor, de mais ativo olor que na vida é preferida pelo beija-flor...”
Moldar a personalidade a partir das sugestões de Jesus, trazidas pelos Espíritos Superiores e compiladas na Doutrina Espírita pelo ínclito Codificador Allan Kardec, foi sua meta existencial, oportunidade em que abraçou a sua profissão de fé como Filosofia, Ciência e Religião por longos anos, enquanto esteve entre nós...
Deslumbrava-se com a realidade sobre a Boa Nova lida nos livros que tanto amou! Então, de gravador em punho, direcionava-se ao antigo Berreiro, à noite, sozinho, com o objetivo de gravar as vozes do Além. Da tentativa frustrada, ouvia-se apenas o cantarolar das aves noturnas, o cricrilar dos grilos e o som dos ventos. Louco? Não, crédulo persistente!
Das atitudes equivocadas, o recomeço, a troca dos erros pelos acertos.
Na consciência, a certeza do dever cumprido.
No caráter, a retidão moral.
Na conduta, o exemplo.
Nas mãos, os calos que a experiência laboral imprimiu ao longo dos anos...
Mãos que transmitiam segurança quando conduziam a esposa ou os filhos pelos caminhos da vida...
Mãos que por vezes erguiam-se, soberanas, empunhando a palmada corretiva, chamando a atenção filial para o seguimento do caminho reto.
Mãos macias, quando afagavam carinhosamente a nossa cabeça, numa demonstração de amor profundo, incondicional, eterno...
Mãos solidárias e caridosas, quando empurravam o carrinho de mão, na prática da assistência social, sozinho, ou em equipe, pelas ruas da cidade...
Ourives, quando as Mãos hábeis manipulavam a ferramenta para transformar o ouro em jóia rara...
Escultor, quando da lasca de madeira fazia surgir figuras de corujas, cachorros, jumentos, garças e tantos outros.
O traço grafológico, também ficou eternizado nas peças de inox (copos, bandejas, etc) que personalizava para serem ofertadas como presentes para pessoas especiais.
Era desenhista, retratava figuras humanas com uma destreza incomparável.
Telegrafista de profissão, talvez o único destas paragens, quiçá da história de Dianópolis, entrava em gozo de férias e continuava trabalhando, gratuitamente...
Ensinar os primeiros ensaios de trabalho aos filhos, era uma preocupação constante. Posso visualizar aquele pentinho de bolso, da marca “flamengo”, que entregava-me, todos os dias, durante a sesta, para que eu penteasse os seus cabelos, enquanto lia, deitado numa preguiçosa rede, e depois ofertava-me uma moedinha.
As idéias sobre disciplina eram repassadas quando determinava que todos estivessem presentes, no mesmo horário, para as refeições principais. Quem não atendesse ao famoso assobio, ficava sem comer.
Contador de casos... em suas narrações as frutas do Piauí ganhavam proporções inimagináveis...
Na condição de filha, tenho a personalidade de meu pai, na conta de algo intocável, sagrado, face ao infinito amor que Deus permite sentirmos por outrem. E, quando este amor encontra-se no campo das lembranças, ganha o matiz da delicadeza, da sutileza, tal qual a rosa, tal qual a beleza das tardes mescladas pelas cores do infinito. É único. É incondicional, é para sempre.
E neste seis de março, data do seu nascimento, a minha homenagem e a minha gratidão a este PAI chamado ELISEU DE FREITAS CAVALCANTI. Saudades eternas...
De sua filha,
Estefânia Cavalari Cavalcanti




