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Obesos e ignorantes PDF Imprimir E-mail
Qua, 05 de Janeiro de 2011 06:46
A Universidade de São Paulo é considerada a melhor do Brasil, mas se encontra em 207º lugar no ranking mundial. Nós estamos cansados de saber que a educação nacional está na UTI há muitos anos. Li uma reportagem onde o economista americano Robert Solow diz que estudou em escola pública, já que não tinha condições de frequentar as particulares, mas leu todos os clássicos da literatura universal ainda no que aqui chamaríamos de “ensino médio”. Basta dizer que ele conseguiu, mais tarde, estudar em Harvard e ganhar um prêmio Nobel.

Bom seria se um aluno brasileiro tivesse condições de ler todos os clássicos da literatura mundial ainda no ensino médio. Não lê nem os clássicos nacionais; não lê nem Machado de Assis, nosso maior escritor. Em 2008, ano do centenário da morte do citado autor, as Academias Tocantinense e Palmense de Letras realizaram o projeto “Rodas Machadianas de Leitura”, que consistia na simples distribuição de seus livros aos alunos, enquanto estes acompanhavam a leitura feita em voz alta por um acadêmico. Eu fui escolhido para ler alguns contos de Machado em uma escola pública aqui de Palmas.

A decepção foi enorme ao constatar que, com exceção de uma aluna, os demais sequer sabiam de quem se tratava ou apenas tinham ouvido dizer. Era uma turma do terceiro ano do ensino médio! Nada entenderam do que haviam escutado e acompanhado. Outros não tiveram a gentileza de ao menos abrir o livro durante minha leitura. E o pior: a professora estava nitidamente nervosa, com medo de ser questionada. Os poucos que prestaram atenção não sabiam interpretar um único parágrafo do texto. Saí de lá preocupado e fiz um relatório sobre a situação, o que era exigência do Projeto.

Nos órgãos públicos, com as honrosas e raras exceções, grassa a incompetência. São servidores mal-humorados, carrancudos, que trabalham com raiva e desleixo, como se não estivessem ali justamente para prestar um serviço ao público. Muitos apenas cumprem horários enquanto navegam pela internet, se esbaldam nas salas de bate-papo ou apenas batem o ponto e voltam para casa onde esperam tranquilamente o salário no final do mês.

Fazer um mero ofício é tarefa por demais complexa a muitos desses que são atraídos para o serviço público apenas como recompensa política, a pedido de algum influente. Sem falar naqueles que, embora remunerados, não oferecem a natural contrapartida, ou seja, a prestação do serviço. Isso é reflexo de uma má formação, de um ensino pobre, que não incentiva a leitura, que não faz o aluno pensar, mas apenas decorar fórmulas. Muitos professores apenas preenchem o quadro negro com textos longos, que são copiados à exaustão.

O melhor passatempo do brasileiro comum é cometer a incoerência de criticar tudo o que apóia. São os filhos da classe média que participam de passeatas em favor da paz e contra a criminalidade durante o dia e cheiram cocaína à noite, financiando o tráfico. São os que odeiam tudo que se pareça com ilegalidade enquanto sua casa e seu carro estão repletos de discos e filmes piratas. Parece não haver correlação, mas esse tipo de atitude é resultado de um povo que não lê. Como a economia anda bem, reforçada pelos programas assistenciais do governo – que são necessários diante da carência de nossa população – as pessoas passaram a comer melhor, porém, com educação deficiente construiremos, no máximo, uma nação de obesos e ignorantes.  

Dídimo Heleno, advogado, membro das Academias Palmense, Dianopolina e Tocantinense Maçônica de Letras.