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O sofrimento do Haiti: a catástrofe dobrou o país

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Infelizmente, o fim e o começo de ano, sempre marcados pela reconstrução da esperança e pelo desejo de tempos melhores, geralmente vêm acompanhados de tragédias naturais que nos pasmam a razão, e nos aviltam a própria existência. Para piorar, usualmente esses desastres atingem pessoas com frágil capacidade de resisti-los. À memória vem aquela catástrofe de 2004—a onda gigante que deixou mortas cerca de 250 mil pessoas no sul da Ásia. Este ano, ainda chocados com os deslizamentos de terra em Angra dos Reis, que fizeram perecer tantas vidas brasileiras, e com o castigo da chuva no sul do Brasil, somos apanhados de assalto por este terremoto assombroso que devastou Porto Príncipe, tornando a capital do Haiti um local da agonia que, à primeira vista, parece irremediável.

Observamos, espantados, um país enodado pela mazela da pobreza e rasteirado pela miséria, ser sacudido na base por um tremor que transformou em ruínas o que já era ruim, aliás, ruim não, péssimo. O Haiti não é marcado apenas pelo subdesenvolvimento, é cicatrizado pela ausência quase total de progresso. Para dizer o mínimo, é um país vilipendiado por uma chaga crônica  e angustiante: a falta da dignidade humana. É o mais pobre do hemisfério. Em nenhuma de suas cidades existe tratamento público de esgoto; 65% da população vive abaixo da linha da pobreza; menos da metade dos nove milhões de seus habitantes tem acesso à água potável; menos de 50% das crianças são imunizadas contra doenças comuns, como o sarampo, rubéola, caxumba e difteria. A aids assola repulsivamente milhares de pessoas, e a grande maioria não tem acesso gratuito ao coquetel antirretroviral. Em resumo, o Haiti, sem nenhuma catástrofe natural, já é uma tragédia. Agora, quando ocorre a união entre a fúria da natureza, infelizmente tão comum e tão voraz com o país, e o próprio cotidiano do Haiti, gera-se nada menos que isso: a desgraça, o horror e o caos. Ver o povo haitiano ser castigado duramente, outra e mais uma vez, de forma tão agressiva, produz na imaginação um nó cego que nos incapacita a compreensão do mundo.

Entretanto, o entendimento sobre as calamidades do mundo não requer muito esforço quando se trata do Haiti. O inferno em que Porto Príncipe foi transformado nesta semana, não é menos ardente que o inferno quase perpétuo imposto àquele povo pelos seus algozes históricos, que incluem gente da linhagem de Napoleão Bonaparte, Woodrow Wilson, François Duvalier (o Papa Doc) e depois seu filho, Jean-Claude, (o Baby Doc), Emmanuel Constant (...); a lista é vasta. O Haiti é uma terra torturada por anos e anos de colonialismo usurpador e brutal, e pela exploração desumana por parte de países poderosos do mundo, como França e Estados Unidos.

Uma das mais antigas democracias do hemisfério, o Haiti é formado por um povo batalhador, resistente, rebelado pelo desassossego com a opressão, um povo que historicamente questiona e confronta a ofensora interferência estrangeira. Um povo cujos antepassados se prontificaram a lutar contra a escravidão, e a juntar-se a seu mártir ex-escravo, Jean-Jacques Dessalines, para declarar o país independente da França, em 1804—18 anos antes do Brasil, que tinha condições políticas, econômicas e sociais anos-luz mais avançadas.
Ao que o sofrido povo haitiano tem sido submetido em seu passado e presente dolorosos não se pode dar outro nome além deste: ultraje. A verdade é que o mundo raramente estendeu a mão aos haitianos de forma a compensar o mal que lhe fez tão corriqueiramente. Quando se pensa que desde quando Cristóvão Colombo avistou aquela ilha, em 1492, nada mais aconteceu ali que destruição, podemos dizer que o mundo tem uma dívida enorme com o Haiti. Sobretudo os espanhóis, que arruinaram o país desde a sua descoberta até 1697, quando o entregou à França; a própria França, que impôs uma das mais nojentas formas de domínio sobre um povo e sugou do Haiti, sua mais rica colônia, até a última gota; e os norte-americanos que invadiram o país e conseguiram o grande feito de piorá-lo ainda mais. À França, o Haiti teve que pagar indenizações, por conta deste grave crime: a conquista de sua liberdade. Enfim, parece que o mundo se uniu para destruir o Haiti; quem não o fez diretamente, fez indiretamente por meio da negligência passiva.

Na história recente, a democracia haitiana, ainda que fragilizada por duas centenas de anos de exploração descabida, ainda respirou: elegeu um dos seus, um padre populista, carismático, com iniciativas sociais incluidoras, e que tinha tudo para iniciar um ciclo de melhorias no país. Pois bem, Jean-Bertrand Aristide sucumbiu, ao sofrer dois golpes de estado, o último claramente com a ajuda dos norte-americanos, em 2004; hoje vive no exílio.

Ainda mais triste é perceber que este terremoto, que tem de tudo para desencadear, se já não o fez, o pior desastre humanitário do hemisfério, obstaculiza por completo um país que vivia um dos seus raríssimos momentos de otimismo. A mudança estava para começar a acontecer. O Brasil, por exemplo, vem desenvolvendo um trabalho espetacular na liderança da Minustah, a missão de paz da ONU que conseguiu restaurar a ordem no país, corroído também por conflitos internos, pela corrupção, em suma, pelo desconcerto social.

Quiçá, no limiar deste arraso que assistimos apiedados, o mundo acorde para o desastre deste país desolado, afundado, degradado e machucado profundamente pela indiferença, pela passividade e pela ação grotesca de grandes nações. Que o mundo adote o comportamento do Brasil, que tem sido, pelo  menos nos últimos anos, o de acalentar o povo haitiano, dar apoio à ordem civil e política, e contribuir esforços com a estabilização do país. De agora em diante será preciso tudo isso e muito mais. O Haiti, que já vivia sufocado embaixo da terra, foi afundado de vez. Mas é possível reerguê-lo se houver seriedade e, sobretudo, respeito ao povo haitiano por parte de uma coalizão internacional pacífica e restauradora, ao invés do particular desprezo e, principalmente, da exploração e do abuso que sempre nortearam a postura internacional com o país caribenho.

O dianopolino Fabrício Silva é jornalista e mestrando em jornalismo pela New York University (NYU). É editor-adjunto do jornal The Brasilians, em Manhattan, e redator do Brazilian Day in New York, realizado pelo The Brasilians e pela TV Globo Internacional

 

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