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O sentimentalismo e a incorrigível nostalgia: caracteres insuperáveis de uma gente e lugar PDF Imprimir E-mail
Qui, 28 de Abril de 2011 08:00
Para mim, bastaria que os ventos da serra-geral noticiassem a chegada da estação seca. Eu olharia para um céu azul, de poucas nuvens, e lembraria, como sempre, a cada ano, longe das coisas de casa, que o tempo passa, mas não apaga, e nem tampouco esconde, o que reacende, no interior, a cada nova roupagem da natureza.

Espio pelas frestas da janela, e vejo os meses de junho e julho, mandando notícias das festas juninas. Dos festivais da canção. Da música solta no ar. Do folclore, do costume e tradição em exuberância, noticiando as romarias das missões, do Senhor do Bonfim e da Sucupira.

O cerrado, agora, irá resistir, com tudo que armazenou durante a estação chuvosa. Enquanto  isso, o Tocantinense irá deliciar-se com os mananciais de água, em lagoas, rios e cachoeiras em exuberância. Ouvirá o estalar das folhas das palmeiras, que balançam, na dança dos ventos. E apreciará a lua cheia e nova, impulsionando canções, que arrebentam as madrugadas.

Virá o ressecamento da pele, apenas para lembrar que, lá, tiririca não é um palhaço, travestido de político, numa irônica pasta da educação. Mas, sim, os mapas que a estação esculpe na pele do nortista, acentuados pela poeira do chão duro, que São José abençoou.

Quando o automóvel vai vencendo os quilômetros da separação, os olhos alcançam a vegetação, e a Serra-Geral reluz exuberante no pára-brisa. Agora, o subconsciente retoma os trejeitos do sertanejo, porque ali tudo continua norte, nada é desnorteio. Após, inicia-se o reconhecimento de curvas, lugares, até que se adentre as ruas da “Capital do Mundo”, do meu bairro, do meu lugar. Neste momento, retira-se o cinto de segurança. Esquece-se os quilômetros percorridos. O cansaço e o combustível da viagem. Pois, o prazer do reencontro, dos bares, dos amigos, dos lugares, supera tudo.

Não há nada mais agradável que chegar, detarzinha, naquela praça e defrontar com a Capelinha dos nove. Ali está o início de tudo. Deparar, depois, com a Igrejinha, o Coreto e os Casarões. Fazer mais algumas curvas, defrontar o espaço físico do inesquecível campo de futebol, onde as equipes Cometa, Comercial e Instituto de Menores se defrontavam. Em seguida, alcançar o Colégio João D´Abreu. Lá, mirar os olhos no distante, buscando recuperar o tempo passado. Subir aqueles antigos murinhos, e correr como em criança, até que o sino das freiras, fizesse o chamamento, para adentrarmos para a sala de aula.

E, nestes caminhos, até a casa materna, ir relembrando pessoas, amigos, que são parte da nossa existência, da nossa vida, e que jamais serão apagados, esquecidos. Inclusive, alguns que partiram, e nem sequer tivemos o tempo ou oportunidade de nos despedir.

Difícil esquecer aquelas noites, quando faltava energia, e vozes e violão ganhavam as ruas e calçadas, numa boa desculpa para esnobar talentos. De longe, o eco de vozes afinadas, poliam a madrugada, embalando o sono de gente grande. A televisão ainda não tinha poluído o casto ambiente interiorano, e até mesmo os jogos da copa se ouviam em rádio, no muro da antiga agência do correio e telégrafos.

Ainda bem que o choro é livre, e não faz vergonha. Raimundo Fagner, em tardes Dianopolitanas, cantava com muita propriedade: o homem também chora, menina morena... Chorar é bonito e não faz vergonha. E, por fim, arrematava, com resignação: entendo o fogo, por que sou daqui...
    
Aceitamos o tempo da volta. Toda volta é o recomeço. Tudo que fomos ontem é o que seremos amanhã. O retorno é certo. Nós todos voltaremos no embalo e resmungo do poeta José Alencar C. Aires: “lá pra minha terra eu vou voltar, pra ir de novo ao São Sebastião... Ou quem sabe, na lição do rei Roberto Carlos: “para rever a minha casa modesta, onde eu estava seguro. Para rever a minha escola, a minha rua, e os meus primeiros matrigais...”

 Muitas pessoas pouco compreendem a extensão de sentimentos que muitos vertem a Dianópolis-TO, apesar da distância que se encontram. É que muitos ainda possuem muitas coisas e causas pendentes, por cá, para, após, ir para lá. Aliás, mais dia, menos dia, a maioria desses desenham o trilho da volta, porque “São José do Duro”, no passo da ida, dá sempre a régua e compasso, para não se errar o caminho de volta. Pois, somos apenas aves do norte, em revoada passageira, até a retomada do ninho.

A impressão que, sempre, fica, é que deixamos alguma coisa para trás. Não desejamos ser cidadão do mundo ou cosmopolita, nem tampouco ganhar títulos ou reconhecimentos por cá. Mas, apenas ser cidadão, coexistindo, em nosso próprio Torrão. Se há um bairrismo incorrigível nisso, que me perdoem aqueles que ainda não compreenderam o sentimentalismo e a incorrigível nostalgia, que, felizmente, revelam-se caracteres insuperáveis da nossa gente e lugar.

Zilmar Wolney Aires Filho (Zilô), advogado, especialista em Processo Civil e mestrando em Direito Civil