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O maniqueísmo no crime organizado

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Nos últimos dias, estive frente a frente com a cinematográfica história do crime organizado no Rio de Janeiro. Com ares de ficção e beirando o espetacular, é o retrato histórico da violência urbana, do terror e da cruel disciplina que as grandes facções criminosas impõem às favelas, há várias décadas. Confesso que o livro é envolvente. A cada página, uma incitação à curiosidade. Fiquei perplexo com a riqueza de detalhes com que o autor pontua a obra, delineando e traçando o perfil psicossocial dos personagens, suas alegrias, suas amarguras, a coragem desmedida, os confrontos armados, as mortes brutais, o gerenciamento do narcotráfico e a disputa das quadrilhas rivais pelo controle dos morros. Fica quase impossível, de alguma forma, na contramão do bom senso, não simpatizar-se com os mesmos.

O livro, Abusado – O Dono do Morro Dona Marta, do repórter da Rede Globo, Caco Barcellos, disseca  as entranhas do tráfico de drogas no Rio de Janeiro, tendo como personagem principal o traficante de codinome Juliano VP - “o abusado”, a sua infância, a adolescência, a sua entrada para o crime e a ascensão dentro da facção criminosa mais poderosa do Estado, o Comando Vermelho. A linguagem é simples, com diversos diálogos transcritos ao pé da letra, o que conduz o leitor para bem perto da realidade dos fatos.

Márcio Amaro de Oliveira, o Juliano VP, filho de pai trabalhador honesto, apaixonou-se pelo crime e sem dúvidas não sabia fazer outra coisa. Era um legítimo criminoso. Parece ter nascido para essa “profissão”. Dotado de ideologias revolucionárias, tinha Che Guevara como ídolo e fonte de inspiração para difundir a paz, justiça e liberdade ao povo sofrido e abandonado pelo Estado, o povo do Morro Santa Marta. Era bem articulado, leitor de livros de sociologia e filosofia, o que facilitava a sua comunicação e aproximação com alguns intelectuais da cidade. Segundo o autor – que durante as pesquisas manteve diversos contatos com o personagem principal – Juliano VP era um rapaz que oscilava entre o bem e o mal. Dizia sempre estar no lado certo da vida errada.

Em alguns momentos, beirando o cômico, em sua trajetória ao topo do comando do Santa Marta, foi olheiro, vapor, avião, chefe de plantão, gerente, até chegar a comandante da “boca de fumo” no Morro Santa Marta, até ser encontrado misteriosamente estrangulado, dentro de um latão de lixo do presídio de Bangu, aos 33 anos de idade. Essa é a promíscua e meteórica carreira que muitas crianças do morro sonham em seguir: um dia ser um traficante como Juliano VP - o traficante que chefiou uma quadrilha da terceira geração do Comando Vermelho e que dominou o narcotráfico nos morros do Rio de Janeiro.

Com foco na narração, cravada de uma generosa pitada de subjetividade e cunho jornalístico do autor, onde às vezes veste o personagem principal de mocinho, é inegável que a leitura desse livro levou-me a repensar a visão e a experiência sobre esse mundo controverso, desigual, e, consequentemente, à criação definitiva de uma veemente consciência crítica acerca do nosso contexto político-sócio-econômico. Não há como abstrair os fatos, visto que os papéis de parede da própria história, são justamente os problemas pela manutenção da ordem no interior das favelas, a vida dessas pessoas, a infraestrututa precária e subumana, a miséria, a prostituição, a desesperança, a truculência policial, a matança, o descaso do poder público, onde o narcotráfico assenta suas armas e cinge o ambiente a uma relação de causa e efeito, do certo ou errado, do isso ou aquilo, do é ou não é.

Trata-se de um ambiente assustador, turbulento, movido a massacres de toda ordem, onde matar é um mal necessário e às vezes até recomendável. Esse é o diapasão com que é montado o quebra-cabeça da vida no morro: ou você está do lado do crime ou é traidor. E sendo traidor, você é expulso do morro ou é aniquilado. Essa é a regra geral. O cenário é real, um mundo à parte, com regras e tribunais próprios, onde os chefões do tráfico fazem valer a vontade da força dominante, impondo a lei do silêncio e a conivência dos moradores, mesmo que à bala.

A exclusão social é o epicentro do caos ao qual sociedade está exposta. Isso é fato! E o crime organizado que permeia a vida, não só nas favelas, mesmo diante do combate voraz da polícia e da vontade de alguns segmentos dentro da comunidade em mudar o rumo dos acontecimentos, conduz as pessoas a um mundo perverso, obscuro, um verdadeiro barril de pólvora. O poder estatal não consegue dominar a situação, bem como não sobe o morro para levar assistência aos moradores, diga-se: educação, saúde, infraestrutura e proporcionar a paz aos moradores. E foi exatamente em cima da ineficiência do Estado, nas entrelinhas do descaso, da cancerígena corrupção policial, da morosidade do sistema jurídico, da exclusão social, é que surgiram centenas de favelas no Rio de Janeiro.

Hoje em dia, muitas ONG’s subiram os morros e de alguma forma amenizam o sofrimento dessa gente, com projetos sociais voltados para a melhoria da qualidade de vida em todos os aspectos. O tráfico de drogas se instalou e criou tentáculos poderosos no mundo inteiro. Grosso modo, o consumo crescente dos usuários, tem fomentado a expansão desse comércio. Com isso, a sociedade dá um tiro no próprio pé e paga uma conta caríssima ao longos de décadas, por essa desigualdade social desmedida.

Os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres, cada vez mais pobres. A violência está instalada e caminhando a passos largos, motivando uma onda de insegurança generalizada em todo o Brasil. Muitos “comandantes” do tráfico estão presos, porém o cordão umbilical com o crime, aqui nas ruas, continua intacto. De dentro dos presídios comandam os “bondes” e as principais ações. Tudo isso facilitado pela corrupção policial, diante do nariz do Estado.

Aqui no asfalto, não temos paz, não temos segurança, não temos saúde de qualidade, não temos educação, não temos empregos, não há distribuição de renda, enfim, estamos no fio da navalha. Independentemente do fascínio que Juliano VP, exercia sobre os admiradores do seu discurso revolucionista, no meu entender, ele foi só mais uma peça desse imenso mosaico sociológico, maquiado com cores opacas e sem vida - as cores do crime. Esse é a essência que pude extrair da obra.

É preciso que o Estado ouça a voz rouca do povo, abandone a mediocridade e aja de verdade, pois num futuro não muito distante as leis dos morros poderão ganhar o asfalto, e muito provavelmente estaremos sendo governados de dentro dos presídios, como faziam e ainda fazem os chefões do tráfico. Quem sabe teremos que, além de nos inspirarmos nos ideais de luta de Che Guevara, ainda sermos olheiros, vapores, aviões, chefes de plantões, gerentes, até chegarmos a comandantes de alguma coisa.

De qualquer forma, a leitura dessa obra é mais do que válida. Fica aqui a minha sugestão.


Robispierre Melo Xavier (Robim), auditor fiscal da Receita do Estado do Tocantins

 

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