Como fiéis escudeiros da razão, se estabelecem os nossos impiedosos sensos críticos, e de prontidão, nos policiam no feliz hábito da escrita. Além disso, ora nos reprimem em posições menos ortodoxas, ora nos acautelam de uma possível postura dissimulada e arrogante de massificação de idéias e pensamentos.
Merece refletir que, quando se debruça no gesto da escrita, num mínimo tem-se por objetivo partilhar opiniões e pensamentos. Todavia, nesta perspectiva, pode se colher, também, críticas, controvérsias, e, até mesmo, com muita esperança, acenos positivos.
Outrossim, uma coisa é certa: se não se lançam as discussões, progresso e conhecimentos não se alcança, porque ao ser humano, eminentemente sociável e receptivo ao ato de interagir, faltaram ousadias nesta vertente.
As novas idéias, os pensamentos, as críticas seriam muito despropositadas se vivessem apenas no campo pessoal ou da particularidade. Elas passam a ser louváveis quando ganham o território da notoriedade e alcançam exuberância na discussão sadia.
Num mundo aberto às discussões e acolhimento de novas propostas, o que estava bem próximo aos nossos olhos, mas ofuscado por outras questões, ganham difusão e relevância. E a seqüência de tudo isso, é a velha exaltação: Eureca! Encontrei o caminho, a solução.
Não se pode ignorar que nesse território sensível, onde muitos objetivam revelar caracteres, posturas e comportamentos e, de outro lado, não se revelem receptíveis às propostas contraditórias, uma coisa fica bem certa: da discussão pode nascer a luz ou, noutro prisma menos elevado, a cisão, ou até mesmo uma súbita agressão.
Por isso, delicado, desafiador, comprometedor se revela o hábito feliz da escrita. Talvez, em conseqüência disso, tenhamos um débito insolvível para com os povos Fenícios - os embrionários desse altruísta costume. A história e evolução do homem certamente estariam hoje sem elos, se as linhas certas ou tortas dos homens não tivessem deixado os registros dessa epopéia.
Enquanto isso, cônscio de que a escrita deve perfilhar-se nos caminhos da concatenação de idéias, poder de síntese, sem embargo da fiel obediência às regras de ortografia, regência e concordância, vamos pontofinalizando o nosso despretensioso projeto de artigo, a fim de minorar os nossos remendos e ajustes, sem embargo de nos acautelar quanto aos direitos de terceiros possivelmente afrontados, a título de conteúdo, nesse desafio.
Ao final, insta salientar que se nos tornássemos reticente a esse hábito, pelo temor às críticas acerbas dos mais exigentes, nem sequer teríamos começado o nostálgico “B a BA”, num feliz processo de alfabetização. Aliás, cabe refletir que se os bons e notáveis escritores, ou despretensiosos rabiscadores, sempre cometeram equívocos nesta arte, assim o fizeram porque ousaram um dia dar início ao hábito feliz da escrita.
Desta forma, entre quedar-se inerte pelo medo do erro, erremos, então, pelo desafio da escrita, porque com o erro também se aprende. Aliás, nenhum Carlos Drumond, Guimarães Rosa ou Dostoieviski, nasceram sabendo, certamente, antes trilharam os espinhosos caminhos dos erros que constituíram ferramentas impulsionadoras das suas evoluções.
Por fim, vale salientar que se pelo temor, quedarmos silente, estaremos derrogando o velho brocardo que orienta que até mesmo pingo constitui-se letra. Ora, se muitos compreendem pingo como letra, imaginem então quando formos capazes de produzir uma frase, um parágrafo, um artigo?!
Zilmar Wolney Aires Filho (Zilô), professor universitário




