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O elo perdido dos discursos e da versatilidade: marcos indeléveis de uma geração em Dianópolis PDF Imprimir E-mail
Ter, 19 de Outubro de 2010 10:11

Das inúmeras gerações, que tive o privilégio de conviver em Dianópolis-TO, certamente, a dos anos 80 foi exuberante em muitos aspectos. Nesta, convivi ao lado de pessoas descontraídas, espontâneas, criativas, e de elevado senso de humor. Em cujo convívio estavam, dentre outros, Coronel Custódio, Dep. Sílvio Romero, Dep. Gil (William), José Ângelo, Coquinho, Jeffão, Aurélio Araújo, Ruither Valen-te, Paulo Zanony, Adailton, Dioram, Ormides, Dídimo Heleno, Didão, Robin, Afrânio Dantas, Eduardo Leal (Duda). Em tais interações, o território comum eram os discursos, que abriam ou fechavam os eventos, ou surgiam, nos vapores etílicos do álcool. É certo que estes, também, eram pronunciados, de vez em quando, no cemitério local, em prol daqueles que nos deixaram repentinamente. E, noutras circunstâncias, como preliminar de serenatas.

Não é que a geração do MP3, youtube, e-mail, torpedos, não seja interessante. É que me deixa muito preocupado, por exemplo, nossos filhos acharem que tudo que fazemos está fora de moda. E, ainda, têm a ousadia de retirar, Roberto Carlos e Fagner do som do veículo, durante a viagem, para colocar Lady Ga Ga, Britney Spears, ou qualquer coisa do gênero. Só lamento que eles estejam recebendo inúmeras informações, de forma tão célere, que sequer as estejam decodificando. Eles apreciam leituras curtas. Ou seja, a síntese da síntese, ou pior, o substrato do substrato. Não se sabe o que é que vai ficar ou vão reter. É certo que, quando vi Brow (filho de Dica e Marta) tocar Bachianinha de Villa Lobos. Cássio, filho de Waltinho, executar  Brasileirinho. Teco, filho de Lito e Irene, dedilhar solos fantásticos de Dilermano Reis. E, por fim, a filha de Ismar Fernandes (Machadinha), entoar Roberto Carlos. Eu vi que nem tudo estava perdido. Ainda vislumbra uma esperança para outros ensaios dos novos talentos da minha Terra.

A verdade é que os discursos, ou pronunciamentos, se foram, ou se tornaram demodê. Salvo, honrosas exceções, como o Deputado Gil (William), e Deputado Oivlis que ainda resistem na prática, garantindo a tradição de suas personagens, mais biônicas e folclóricas, que o Sudeste do Tocantins já tenha conhecido.

Me recordo que o Sr. Sílvio Romero Alves Póvoa ficou como a boa lembrança desta prática, improvisada, e tão notável em nosso convívio. Por isso, tomamos a liberdade de citar o referido advogado, e seu lado extrovertido, que tanto nos comovia em lugares, bares, seja em Goiânia ou Dianópolis. Observo que Ele, no fundo, colocava em sua fala, tudo aquilo, que inúmeras vezes desejávamos pronunciar. E que, no entanto, reprimíamos, em virtude de valores, etiqueta, ética, e demais regramentos sociais que nos amordaçavam. Por isso, Sílvio Romero foi, sim, inúmeras vezes, o porta-voz dos nossos descontentamentos, xinga-tórios e protestos contidos.

É bom refletir o quanto sabíamos apreciar, com respeito, e sinceros aplausos, o final de cada discurso. Era uma característica que foi incorporando à nossa gente. Que os filhos de outras paragens, que nos acompanhavam se punham a admirar. Aliás, festa intitulada “boa”, principalmente aquelas organizadas por Didão (De Valdó), inexistindo discurso, não era festa completa, para o nosso povo tão extrovertido e criativo.
 Ainda está vivo em nossa mente, o último discurso-serenata do Coronel Custódio Gonçalves (Pixuri), para o saudoso Abílio Oscar Leal Costa. Lá estávamos na madrugada, na subida do córrego Getúlio, amaciando o pinho, quando o sábio professor-conterrâneo resmungou o versos do texto - “O melhor Possível” – Discursou o coronel: […] Oscar! “Se você não puder ser um pinheiro no topo da colina, seja uma pequena árvore no meio do vale [...] Arrematou, ao final, “não podemos ser todos comandantes; temos de ser soldados [...]”

Muitas pessoas, com quem convivi, eram assim. Quando vi, neste sítio, Luis Carlos Rodrigues (Tiobinha) ensaiando alguns passos do hale gale, anotei as palavras do Sr. Ruither Valente, meu contemporâneo, relembrando que, no Casarão, o Sr. Abílio Wolney Neto, meu irmão, e o Sr. Magno Cerqueira Pantoja (Nego Pan), também das nossas lides boêmias, atreviam imitar alguns passos de John Travolta, e a roda abria para apludí-los, em nome da versatilidade.

E, no passo da dança, noutro estilo, enquanto Dante Cavalcanti e Edilton Bartolomeu recriavam a coreografia da valsa e do bolero; noutro ritmo, alguns de nós arrochávamos o passo, criando estilos, na lambada, baião e xote. Ou seja, em nosso meio, essa espontaneidade e versatilidade era território comum. Por exemplo, quantas vezes tive o privilégio de acompanhar, na viola, o Sr. Dídimo Heleno Póvoa Aires, que, em momentos de pura descontração, interpretava suas canções, esnobando versatilidade, entre o francês, alemão e japonês. E, ao final, o Sr. Jefferson Póvoa Fernandes, recriando os trejeitos do rei do Rock, Elvis Presley, finalizava com a ontológica Kiss me Kiss. É claro, sustentado ao fundo por um coral afinadíssimo do seu fiel auditório. É certo que os vapores etílicos do álcool auxiliavam, e muito, na retirada do véu da timidez.

Essa criatividade, que além de outros tantos, salvo honrosas exceções, vi em Paulo Reco, Clemson e Edson Parente, Pery Wolney Aires, ao confeccionar, como ninguém, Surús, Baladeiras, Pinhões e Arapucas. Ranieri Amorim estruturar bibicletas futuristas. O Sr. Edilton Bartolomeu retirar de um simples fato, em cada esquina, argumentos para criação de uma crônica, no Jornal Terra Boa. E a turma do Coxo, na qual estive inserido, recriar os fatos, de uma segunda-feria, para sexta-feira, fazendo inveja aos inúmeros tradutores da Bíblia sagrada, que vão de Aramaicos a Hebreus e de Romanos a Brasileiros, cada qual emprestando os seus vernizes, para as suas particulares interpretações.

O certo é que, agora, nós somos apenas quarentões ou cinquentões, que estamos babando sobre nossos pimpolhos. Tomara que, no compasso do mimo das crias, ou no intervalo de uma frauda e outra, encontremos o elo perdido dos discursos e da versatilidade, entre o gesto altruísta da paternidade, e a capacidade de alternância entre risos, canções, falas e criatividade. Que, cá pra nós, ainda é uma forma de desopilar as vísceras, e continuar vivendo prazerosamente. 

Zilmar Wolney Aires Filho, professor, pós-graduado em Direito Processual Civil, Mestrando em Direito Civil, e integra o quadro docente da UniEvangélica em Anápolis-GO