E assim, a natureza com seus excrementos vem poluir o silêncio, a solidão que se busca pela ausência dos movimentos no universo da madrugada. De longe, arrebenta-se o silêncio madrugatício através dos trôpegos passos do bêbado, no seu findar de procissão pelos bares da vida. Outros movimentos e habitantes notívagos, também, querem vencer a perseguida ausência de tudo, pois que longe, além da periferia, o velho burro de carga acolhe o ensejo da noite para extrair o capim silvestre incrustado entre o asfalto e a pedra nua. Fazendo sintonia a este movimento, o teimoso vira-lata tudo quer acuar, deste um simples mosquito até a ratazana que dá início à sua ceia por entre tetos e telhas. Mas, o cantor da madruga não quer perder a majestade, assim o galo desafinado, embriagado com a luminosidade da lua, confunde o prenúncio da manhã e começa a cantar desreguladamente madrugada à fora.
Ao final, quando estes desacertos e sonoridades vão se aquietando, aparece um teimoso vento que começa soprar a copa das árvores, dos coqueirais, e por fim rouba a profissão dos garis, lambendo as ruas, carregando para lugar nenhum as velhas folhas, papéis, que a ciranda da vida, de um dia já falecido, depositou pelas ruas, no seu habitual gesto de deseducação.
A credibilidade no silêncio, solidão e ausência vão se vencendo, pois, agora, o silêncio é estrangulado pelo toc-toc do fujão e fujona, que atropelaram o horário permitido pelos pais; pela descarga dos estômagos desregulados e pelos bebês que gritam espasmos de lufital para as dores intestinais. Mais que isso, só mesmo o piar dos corujões, a respiração ofegante dos ausentes de sonos e sonâmbulos que vão desafiando a solidão que se almejou efetivar nos cantos tortos da madrugada.
Ora, não há silêncio, solidão ou ausência, quando se quer, por alguns minutos, escutar o barulho das estrelas. Pois, o que se busca, de vez em quando, é apenas fugir da usina da vida, deixar de ser peça ou engrenagem desta máquina, e por algum instante, esquecer que existe TV, estresse, engarrafamento no trânsito, elevadores, chamadas de celular. O se quer, se possível for, é possibilitar ao homem se encontrar consigo mesmo, no seu grande propósito de vida, para que possa conversar com as suas confusões, com as suas pretensões, organizar seus sonhos, repensar caminhos e jornadas e sublimar-se perante o Onipotente, na costumeira prosa do pai nosso de cada dia, que ainda revela ser uma forma altruísta de esquecer o silêncio, a solidão e a ausência.
* Zilmar Wolney Aires Filho (Zilô), professor de Direito Internacional, IED e Penal,Orientador de monografias e de Núcleo de Prática Jurídica, Pós-graduado em Processo Civil.




