Sobre mim

O click das teclas para afugentar a solidão PDF Imprimir E-mail
Sex, 10 de Junho de 2011 19:43
E se acordasse, numa manhã, atestando uma pane no sistema geral de internet, onde os satélites não enviassem sinais, e todos os sítios estivessem fora do ar? Será que perderia a razão, por não conseguir acessar a minha caixa de e-mails? Entraria em desespero por não conseguir fazer minha primeira refeição, acessando inúmeros títulos de notícias? Enfim, iria ficar depressivo, por sentir falta dos meus amigos virtuais, no Dnoto, IG, Terra, Hotmail, Jornal do Tocantins, o Popular, Orkut, Facebook, Quepasa, Twitter, etc.

A verdade é que foram, sim, encurtadas as distâncias, pela comunicação virtual. Mas, também, criou-se uma falsa expectativa de companhia física. Pois, que temos as pessoas próximas de nós, na rede, mas, fisicamente, estas podem estar até em outro continente. Assim, caso necessitarmos, efetivamente, de suas presenças físicas, numa situação emergencial, por exemplo, de primeiros socorros, estaremos sós. Talvez, por isso, aqui, certamente, não seja o local ideal para lembrar que o solitário não é solidão.
 
Enfim, no caso de blackout, ou fim da internet, num sistema volátil e inseguro, onde hackers conseguem devassá-lo, seria possível retomar a nossa vidinha simples, de ontem, sem a rede? Por exemplo, poder sair pelos lugares? Buscar mais contatos físicos que virtuais, onde, enfim, pudéssemos sentir o prazer de ler livros impressos. Assistir filmes, no cinema. Ouvir músicas no vinil, sem o som metálico do MP3. E, por fim, ser agradável num bate-papo, sem a necessidade de acumular, diariamente, tantas informações;

Neste contexto, merece questionar, ainda, à guisa de ilustração, se as modernas aulas telepresenciais, via online, justificam a ausência física do professor? E como fica, nesta seara, o propósito de se interagir, em salas de aulas, com outros alunos ou acadêmicos, trocando experiências, e colhendo, pessoalmente, as nossas impressões?

Aliás, tais relações não deixam de produzir arremedos reflexivos, também, acerca dos namoros iniciados na rede, que são calcados em imagens de retoque digital e frases superficiais, que ocultam a verdade, e nutrem a ilusão. Será que, nestes caminhos afetivos, o atrito à distância suplanta a real aproximação por osmose? Ou seja, aqui, também, não seria o local adequado, para lembrar, que muitas atrações constituem coisa de pele.

De outro lado, é necessário refletir, por que estamos, cada vez mais, nos formando em solidão? Com isso, jogando fora tantas práticas e costumes que possuíamos, como, à guisa de exemplificação, sentar na varanda, de tardezinha, e ver o dia transmudar-se em noite. Observar a lua nova, ou cheia, navegando entre as nuvens. E ter coragem de empunhar a viola, lembrando que um dia, fazer serenatas não era clichê, mas, sim, chique e romântico.

Esquecemos um tempo, em que não vivíamos por conta de estatísticas, números, títulos. Onde, os nossos heróis eram pessoas simples, comuns mortais. E as nossas boas ações e gestos, cotidianos, falavam mais forte, e construíam nossa imagem por toda uma existência. Agora, em torno de tudo o superficialismo, o descartável. Por isso, não raras vezes, reclamamos que as coisas estão rápidas demais. Que o tempo nos consome. Pois, quando pensamos que saímos do carnaval, já estamos chegando à semana santa. E, logo após, já são as férias de julho. E, num passo, chega o natal.

Não sei quantas horas das nossas existências dedicamos à vida online. Saímos da rede e vamos para a TV, e nos intervalos estamos no celular. Os filhos, a esposa, as plantas, o cachorro estão em nossa volta, querendo apenas um oi, um olá. Mas, nos condicionamos, boa parte de nossas vidas à vida on line e as empresas e repartições públicas ampliaram essas necessidades. Agora, as relações bancárias, processual, e universitária, também, foram para a rede. E até mesmo o namoro e sexo são virtuais. Talvez, por isso, o legislador tenha encontrado tanta dificuldade para disciplinar tantos ilícitos, que surgem nestes novos contatos dos sítios online. Principalmente, para distinguir, o que é real de mera ficção.

Mas, uma coisa é certa. Agora, nós temos tudo, ou quase tudo, ao nosso alcance, em nível de contatos e informações. Todavia, temos, ainda, efeitos colaterais, inescondíveis, como computadores substituindo, no trabalho, inúmeros pais de família, ao arrepio do princípio da automação, que advertia que a máquina jamais deveria substituir o homem. E, noutra parte, como herança do novo, ficou a saudade de costumes simples, convívios mais próximos, e físicos, com pessoas. Inclusive, para distinguir aquilo que os inúmeros vocábulos e imagens virtuais continuam dissimulando, e apenas os olhos presenciais conseguem distinguir, na perspectiva entre sonho e realidade.

No tempo dos chipes, e na dança online, a consciência virtual nos adverte que é hora de retomar os acessos à caixa de e-mails. De fazer leituras, ainda que ultra-superficiais das inúmeras informações que nos chegam diariamente. Mas, felizmente, é tempo de acessar alguns sítios da internet, a fim de colher notícias atuais dos nossos, ratificando que o solitário não é solidão, e inclusive disseminar essas idéias. Pois, o click das teclas, também, é uma forma de disfarçar a distância que nos separa dos consideráveis amigos virtuais. Muito embora caiba lembrar, que nesta ordem, uma boa prosa presencial, e um sincero abraço, ainda continuam insuperáveis.

Zilmar Wolney Aires Filho, advogado e professor universitário, especialista em processo civil e mestrando em Direito