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Nosso piche, nosso povo PDF Imprimir E-mail
Sáb, 16 de Julho de 2011 07:39
O brasileiro médio é um sujeito bem humorado, extrovertido, quase sempre alegre, cheio de deboche e que leva a vida ou deixa a vida o levar.  É nesse estado de espírito que vai sendo “engabelado”, pagando os mais altos impostos do mundo e sorrindo desmedidamente, como se fosse feliz. Segundo o J. R. Guzzo, em recente artigo, é um otário posando de malandro.   

Essa felicidade aparente encobre enormes mazelas, que vão da pobreza extrema aos remediados “com viés de baixa” – assalariados contentes e acomodados. Com o dinheiro que sai dos nossos bolsos para pagamento de impostos o mínimo que poderíamos esperar seria um serviço menos imoral. Como disse Delfim Netto, certa vez, vivemos no país do “ingana”, que cobra impostos da Inglaterra e presta serviços de Gana.

Saia com o seu carro – se tiver um – e constate o que estou dizendo. Na Alemanha, por exemplo, o asfalto possui quase doze centímetros de espessura. Aqui, há um recapeamento fajuto de mais ou menos dois centímetros. De uns tempos para cá se o tocantinense andar por aí, e falo apenas do tocantinense, ele poderá ser engolido por alguma cratera praticamente lunar. E não digo apenas do perímetro urbano da Capital, mas das nossas rodovias estaduais.

Fazer uma viagem entre Palmas e Miracema, por exemplo, é um exercício de bravura. Somente os destemidos conseguirão viajar com tranquilidade. A desculpa de sempre é que as chuvas atrapalham o serviço, como se nós pagássemos impostos apenas no período de estiagem. E o pior é que, como nosso café, o melhor asfalto é exportado. Inúmeras empresas brasileiras são conhecidas pelo exímio trabalho que fazem em países pelo mundo afora, asfaltando estradas e oferecendo segurança aos usuários estrangeiros.

Para quem enxerga de fora somos um bando de babacas deslumbrados (agora falo de todos os brasileiros). Inúmeras pessoas, inclusive nossos amigos e parentes, morrem todos os anos por conta de estradas mal conservadas, de buracos que são tapados apenas quando nossos governantes desejam. É certo que muitos dirão que temos outras prioridades, que deveríamos nos preocupar com questões mais relevantes, como serviço de saúde eficaz, o fim da pobreza, boa educação e segurança garantida.

As licitações são públicas, mas o povo não participa e, como as salsichas, melhor ingeri-las do que vê-las sendo fabricadas. Talvez se cuidássemos um pouco melhor do nosso piche e aumentássemos alguns centímetros de brita ou uma camadazinha qualquer de bom senso, muitas vidas seriam poupadas, infortúnios evitados e nosso dinheiro pago por meio do IPVA melhor aproveitado e certamente teríamos menos homens públicos se enriquecendo vinte vezes seguidas em parcos quatro anos.   

Sei que aqui no Brasil se vive de clientelismos, favores e mendicâncias políticas. Não é de bom tom se preocupar com questões tão banais quando o que importa é estar com o estômago cheio e a cabeça vazia.  Muita gente pode até pensar que piche não faz parte de nossas prioridades, mas, pense bem, se as nossas rodovias são mal cuidadas e não reclamamos disso, isso quer dizer que estamos dispostos a sermos tratados de qualquer jeito. O asfalto de nossa terra é a melhor metáfora de parte da nossa gente: desqualificada, bonita de se ver, mas é só capa.

Dídimo Heleno, advogado, membro das Academias Palmense, Dianopolina e Tocantinense Maçônica de Letras