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Nós sem Lula PDF Imprimir E-mail
Sex, 15 de Outubro de 2010 06:28

Aproxima-se janeiro de 2011 e eu confesso que já sinto falta do Lula, o nosso presidente. Ele é, sem dúvida alguma, uma fonte quase inesgotável de assunto, a grande matéria prima de todas as redações. Como ficarão os articulistas e humoristas deste país? Nunca antes na história existiu um Líder Maior tão carismático e caricatural. As gafes lulistas são homéricas e motivo de inspiração para os menos inspirados dos escritores. Ele alimentou, durante oito longos anos, a pauta dos programas de humor e foi um deleite para os cronistas neófitos.

Num país onde os pagadores de impostos são denominados “contribuintes”, no dizer da Lúcia Hipólito, até fica parecendo que somos coniventes com as bandalheiras que ocorrem por aí. Em verdade formamos uma horda de espectadores assombrados que paga para ver um programa de humor ao vivo, diário, ininterrupto e de profundo mau gosto.

Caso ganhe a Dilma será diferente, afinal falta-lhe o carisma de um Lula. Ela é mal-humorada, com aquela mania de autoridade que tanto incomoda o brasileiro comum.  Suas gafes não terão a menor graça. Para começar, ela não bebe cachaça. E quem não bebe cachaça dificilmente consegue encarar a nação com alegria. E, por ser mulher, sua vaidade a impedirá de aparecer suada em público. Mulher que é mulher retoca a maquiagem a cada inserção publicitária. Aquela     imagem clássica de um presidente rouco, barbudo, suado e sob torpor estará ausente ao menos pelos próximos quatro anos. A grande dúvida é saber se Dilma conseguirá desatar todos os nós sem Lula.

Enquanto isso os humoristas estarão à míngua.  E como fará falta a língua presa do Luiz Inácio. A candidata do Lula, com o seu sorriso de colegial que não usou aparelho dentário, será insuficiente para suprir a falta da garganta irresponsável que brindou a galera com tantos momentos hilários. Dilma – tenho para mim – seria uma espécie de Margareth Thatcher tupiniquim, uma dama de ferro, só que menos inteligente e mais bruta do que o similar inglês.

Imagine o quanto o brasileiro se deleitaria com as piadinhas machistas e de mau gosto que permeariam o universo da internet, só pelo fato dela, Dilma, ser a primeira presidente do Brasil. Uma mulher no poder maior da nação é algo que ainda não vimos. E o pior: ela não é casada, o que permitiria aos bisbilhoteiros de plantão fiscalizar a vida sexual da Grande Líder. Os primeiros cavalheiros que se fizessem presentes seriam expostos, de imediato, ao crivo do populacho. Um questionamento se faz necessário: Dilma arranjaria namorado durante o seu mandato? A última mulher poderosa do Brasil que se meteu a se apaixonar durante sua vida pública foi execrada e acabou casada com um humorista.

Sem Lula estaremos órfãos de argumento.  E as belas gafes internacionais? Será que Dilma ou Serra dariam continuidade a essa modalidade tipicamente brasileira, inaugurada a partir de 2003? Como ambos não têm humor, provavelmente teriam a cautela de se calarem, utilizando os meneios de cabeça como forma de escapismo. E isso o brasileiro não suporta mais. É preciso falar errado, assassinar o português de forma elegante, cometer todo tipo de deslize que só um verdadeiro representante do nosso povo é capaz de protagonizar.

Seja quem for o eleito, será um calo no sapato da nação. E o nosso povo não está preparado para ouvir discurso escrito, como naquela época da ditadura. É preciso improvisar, e isso eles não sabem fazer. Caso Serra seja eleito, precisa entender que nunca saberá de nada, não verá nada e deve passar a mão na cabeça de meliantes. No caso de Rousseff, creio que esta perderá muito mais cedo a paciência com o povo do que este com ela. E, ao contrário do velho Figueiredo, que preferia o odor equino ao da ralé, ela suportará o perfume popular com a cara de nojo. Eis aí algo que a massa não tolera: álcool-gel após o aperto de mão.         

 Dídimo Heleno, advogado, membro das Academias Palmense, Dianopolina e Tocantinense Maçônica de Letras.