Sobre mim

Natal imaginário PDF Imprimir E-mail
Sex, 12 de Março de 2004 17:40

Pressinto as luzes lá fora, ao frio, a catrapiscarem em Morse mensagens que se não
destinam a mim. De quando em quando, ainda que mal dê por isso, uma ou outra lâmpada
penetra pela íris dos meus olhos e devolve-me a idéia de que existe no mundo algo de que não faço parte, pelo menos por alguns instantes.

Foi o que aconteceu comigo quando ainda ontem, estava eu a acabar de aquecer o velho Missin Miojo, lembrei-me de ligar para minha querida mãe, Dona Lourdes, ainda sonolento, comecei a queixar das coisas da vida, o fato de eu passar tanto tempo sozinho e de talvez não poder passar o natal em Dianópolis este ano, cidade que amo e mais que isso és onde nasci.

Imaginei... Ficaria então fechado em casa, quando muita gente se reconforta na companhia dos respectivos entes, queridos, não queridos, mais ou menos queridos e assim no que concerne à queridice familiar nesta época natalina.

Logo deduzi e calculei acerca das razões, pelas quais eu não poderia ficar aqui, fechado,
isolado, entre quatro paredes, como uma reclusa numa cela, alimentado a pão e água por
uma escotilha sem sol. Foi tudo isso que me veio à mente, esse foi o quadro que pintei em minha mente, assim mesmo, sem sol, sem cor, a preto e branco, como se fosse um retrato desbotado por décadas na gaveta. Se eu ficasse, pareceria um bicho, um bicho-do-mato, a berrar para as paredes.

Durante a ligação, perguntei-lhe se haveria as festividades de costume, e tive
oportunidade de escutar o meu pai, ao fundo, a rematar as coisas de sempre, só faz falta quem cá estiver, não vem porque não quer. Desliguei o aparelho e sentei-me ao sofá, imaginando-me num natal sozinho, posto para uma só pessoa, ou melhor, para um só bicho, um bicho-do-mato.

O prato à minha frente, o macarrão, insignificante, aguado, com partículas de ervilha e
um caldo insosso, a água a tilintar no vidro, e o reflexo refletindo algo mais do que a
transparência do líquido logo me fez voltar a comida. Peguei meio sem jeito na colher e
voltei a imaginar o som, a televisão, as imagens mudas, sem sol, sem cor, a preto e
branco, não das pessoas que lá estiverem, mas de outros bichos-do-mato, reunidos em torno de mesas postas para muitas pessoas, ou, por outra, muitos bichos, bichos-do-mato, a deglutirem garfadas de panetone e lascas de bacalhau cozido, regadas com vinho tinto e embrulhos de prendas, doces, fritos, frutas cristalizadas. Pensei para comigo que, se caso alguém descesse pela chaminé, embora não a tivesse, teria que equiparar o telhado.

Imaginei uma daquelas típicas, altas, que deitam fumo e tudo, como se baforassem
mensagens que se não destinassem a mim, eu ia dizer, se me aterrissasse um gordo na
lareira, encarapuçado de vermelho, supondo que todas as chaminés típicas e altas
desembocam numa lareira e todos os barbudos se trajam a rigor.

O coitado sofreria muito neste calor Palmense, e ainda correria com ele a pontapé ou, na
pior das hipóteses, convidaria ele a sofrer um pouco junto a mim naquela noite deglutindo
algumas latinhas de cerveja.

Sem tocar nada ainda na boca, voltei a imaginar novamente nesta noite solitária o
telefone tocando, uma, duas, três apitadelas, mas eu relutava em atender. Suporta-se
melhor a solidão quando se finge não existirem telefones a tocar. Luzes a piscarem.
Lareiras e chaminés. Tenazes e pais-natais. E, nesse preciso momento empurrei o prato e
substituo-o por uma dobra de papel higiênico, (guardanapo seria muito luxo) lembrando de que existe no mundo pessoas que fazem parte dessa minha imaginação, pelo menos por aquela noite. Uma noite como as outras. Sirvo-me do papel para limpar os beiços, embora nem uma única colherada tenha arriscado a dar, sequer para tomar o gosto ou queimar a língua.

Peguei então no lápis, não pelos cornos, pelo rabo, e comecei a escrever isso aqui, sem
nexo, só pelo bel-prazer de vomitar o que me veio à cabeça, ou à colherada, conforme,
debruçado na cama posta para um só texto. Uma só frase. Uma só palavra. E se, por
qualquer motivo, qualquer um, por ínfimo que seja, não resultar em nada o que escrevi
aqui, não faz mal. Só não mais imaginarei esse tipo de coisa, e nem desejo isso a
ninguém. Não mais ficarei lembrando de coisas como esta, e peço para que quem puder passe o natal em Dianópolis, pois só de imaginar em não ir ao natal em Dianópolis, me causa ANOREXIA NERVOSA.

Mário Sérgio Mello Xavier