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Naquele tempo... PDF Imprimir E-mail
Sex, 10 de Agosto de 2007 20:37

O matemático Osvaldo de Souza seria superado facilmente pela calculadora ambulante, que foi “Chico Farinha Seca”, no famoso cálculo do “noves fora, nada”. Na ponta da língua, o saudoso ambulante aceitava qualquer desafio para cálculos inesperados e dava a resposta correta: 05 + 05 = 10, “noves fora, nada”!

A medicina moderna e atuais câmaras de incumbação ficariam a desejar, pelos célebres partos da eterna “Mãe Parteira” de São José do Duro, que apenas com o olhar e tirocínio sertanejo adivinhava o momento e hora exata do parto.

Peritos não precisavam explicar como um surdo, conseguia se embalar em ritmos tão diferentes de canções, sem perder o rebolado, como fizera Manoel Vogado da Silva (Xêro), nas noites e embalos noturnos da inesquecível Terra das Dianas.

Ecléticos Garis em suas notívagas pressas teriam muito que aprender com a invejável paciência de Venancinho Lixeiro, nas ruas de Dianópolis-TO, onde de prosa aqui, cafezinho acolá, com sua carroça e burro incansável, varria todas as ruas de uma cidade, sem estafa e sem estresse.

Não havia técnica psicológica ou pedagógica para demover o “Velho Anjo” da sistemática reclusão ao vocábulo, NÃO. Tudo era possível, neste particular, a título de sinônimo, a negativa, a negação, o contrário, e a certeza de que “Rege Regino Rei, magistrado, casado com a ARENA e com o MDB” partiu, no seu silêncio sepulcral de introspecção, sem explicar ou esclarecer acerca da teimosa evasiva do vocábulo, SIM.

A barbearia do saudoso Faustino Pereira traria lições gratuitas aos atuais salões de cabeleireiros, na medida em que ensinaria que a manutenção da clientena não reside na arte de contar prosas e anedotas, mas de assoviar, afinado, canções inusitadas, para embalar os seus clientes, como se dera em relação ao saudoso Venceslino Leite, que sobre aquela cadeira, tanta paz encontrou, que ali mesmo atendeu ao chamamento de Deus, em seu último sono.

Os bailes não eram regidos por orquestra de um só instrumento. Havia, é certo, desafinos percebidos até mesmo pelos ouvidos menos sensíveis. Mas, a sensibilidade humana estava lá, com Zé de Bento, Edilton de Souza Lima (Zé Bostinha), abrindo nossos bailes com valsas, boleros, xotes, forrós. Agora, as músicas têm só três notas, ausência de letras, ausência de tudo!

A política era uma arte, nas mãos do Prof. Antônio Póvoa Leal (Tonys), que quando a coisa ficava insossa, mudava de partido, abria o debate e conclamada as discussões, sem ódios, rancor ou dissensões, enfim, sem vendas de legenda partidária. Atuais políticos do “Duro”, com raras exceções, talvez, ainda se ressintam da incompreensão dessas lições, o que dirão aqueles que preconizam a fidelidade partidária como solução para o contexto político.

O jornal Terra Boa era a fiel notícia, o referencial, no mesmo tom para ricos e pobres, que antes se ser proibido na sua veiculação, teve ordenada judicialmente a sua permanência, mantendo fiel o seu estilo de crítica isonômica.

Sorveterias atuais não possuíam o mesmo tempero que a saudosa Tia Joaquininha emprestava aos seus sorvetes e picolés, com a surpresa de ingredientes inesperados, nas guloseimas.

Os odontólogos Solonzinho e Manoel Dentista dariam lições gratuitas aos atuais “boticões”, como extrair um dente, sem anestésicos, sem choro, e apenas com o alento final, insuperável: Parabéns, “Cabra Macho!”.

Patinadores, em tempo de olimpíadas, perderiam para aos hábeis jogadores de futebol de salão, em tempo de quadra de esporte molhada, protegidos apenas pelo insuperável tênis “konga”

Rui Chapéu e Roberto Carlos seriam discípulos do velho Abdias Antunes de Miranda, na geometria de encaçapar a bola cinco, na boca do meio, no território disputado da mesa de sinuca do Bandeirante de Valdó.

Noutro passo, aprendizes da dança, recebiam as lições invejáveis do saudoso Eliseu Cavalcanti, da leveza dos seus passos de Valsa, Bolero, para fazer inveja ao maestro Carlinhos de Jesus e as atuais academias de dança que não conseguem aos seus alunos ensinar.

Os cinemas dos shoppings não teriam tanta concorrência como as velhas janelas do Cine Atanaram, com os seus Bang-Bangs à Italiana, apesar da fria e gélida água atirada, não poucas vezes, por Cantú, vizinho do local, no intuito de afugentar os invasores.

A equipe de futebol, eterna campeã, Cometa Futebol Clube, no velho estádio São José, ganhava e levava, diferentemente de todos os cartolas e tapetões que, a qualquer custo, retiraram os títulos do Botafogo. Haja bandeirinhas, trampolins das páginas de playboy, para articularem o ilícito!

Os apitos de fábricas não soavam como engrenagem de trabalho, mas soavam como a sirene de uma prefeitura, que convidava para a vida todo o município de Dianópolis-TO, cuja sirene apesar de não ser o big-ben de Londres, era o relógio gratuito do tempo, num tempo em que as coisas se moviam lentamente.

O bom da viagem era a demora, nas sábias lições de Eufrosina Santos (Dona Goiana), por isso se via poucos acidentes, pela parada obrigatória à sombra de uma árvore para descanso e consumo do inesquecível frito de frango enlatado, ao invés das atuais coxinhas e pastelões vencidos, que promovem os sofríveis desarranchos intestinais.

Políticos poderiam reeleger-se por dois mandatos de prefeito, além de outros de vereador, sem construírem enormes patrimônios com o dinheiro público, nem tampouco cair na vala dos corruptos. Um ex-prefeito, de nome Cézar Costa Póvoa, é o exemplo vivo desta postura.

Os exames de admissão, do 5.º ano do primeiro grau, do Colégio João D´Abreu, fariam inveja a qualquer vestibular manipulado de agora, que apenas garantem a mensalidade para as Faculdade e a certeza para o acadêmico de um diploma negociado.

As serenatas eram regadas a voz e a violão, muito diferente dos sons ambulantes e estridentes de hoje, ou das frias mensagens fonadas. As luzes, às vezes piscavam, avisando a oitiva da serenata; noutras, apagavam-se, não em nome do apagão, mas em homenagem a nossa Senhora das Candeias.

Se faltava luz, havia bacondês, lua e violão; se faltava água, havia “biquinha”, córrego getúlio ou lata d´agua na cabeça. Se chovia, era tempo de jogar finca; se o vento soprava, era tempo de soltar surú (pipa). Agora, só há tempo para a rainha da família, a TV de 29 polegadas, e para a ausência de diálogo.

Naquele tempo, ainda é tempo, porque a memória não apagou o que foi verdadeiro, significante e belo. Em nosso tempo, a pressa e a velocidade não só retiram o sabor, como impedem que se armazene alguma coisa, para novamente se dizer, se possível for, num amanhã, NAQUELE TEMPO...


Zilmar Wolney Aires Filho (Zilô), professor universitário