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Nada por nada, antes tivéssemos ficado com Goiás PDF Imprimir E-mail
Qui, 07 de Abril de 2011 17:37
Matutando um pouco sobre a situação de nossa querida Dianópolis e analisando melhor a história do antigo norte goiano, pude perceber que nossa cidade, apesar do abandono que reinava naquele corredor de miséria, sempre tínhamos representação política nas esferas federal e estadual. De Abílio Wolney à Hagaús Araújo, todos que passaram deixaram algum legado para o nosso município. Pelo que se lê nos annales, nossa cidade era forte e bem respeitada politicamente. Sabemos que os recursos da época eram escassos, mas havia uma plataforma que estava sendo construída para o futuro. Com a migração em massa dos nossos inteligentíssimos jovens para o sul de Goiás, com toda certeza teríamos mais destaques dianopolinos no cenário Goiano; e assim, quem sabe, traríamos mais investimentos e o resgate do prestígio que ficou no passado. Contudo, o caminho que Dianópolis percorreu e ainda percorre, depois da separação de Goiás, é lento e incerto. As oportunidades que antes eram muito escassas e restritas para os que verdadeiramente estavam "capacitados", foram todas entregues de mãos beijadas para analfabetos, matutos, reacionários e “oportunistas” que reinavam durante a época da divisão territorial do Estado de Goiás.  Digo isso, pois de lá para cá, a representatividade política que deveria ter aumentado em Dianóplis e na região, só fez diminuir. Nesse particular, somente os impostos continuam aumentando vultuosamente.

Outra grande problemática que percebi quanto a criação do Estado do Tocantins, é que ele sempre esteve preso pelo cordão umbilical de um estado sem muita identidade, expressada por um povo goiano que aqui habitava (e ainda habita). Alguns intelectuais falam muito bem desse "complexo goiano" de ser, onde muitos sentiam (e ainda sentem) vergonha de ser goiano. Desde a inércia dos tempos da sua fundação, onde os mineiros (de MG) deitavam e rolavam por aquelas terras, até o momento em que deixaram cortar a metade de sua área territorial, sem que houvesse qualquer resistência. O reflexo disso tudo, continua aceso, a partir do momento em que Anápolis reivindica a sua inclusão no Distrito Federal. Mas antes disso, o povo do antigo norte goiano, também pecava naquilo que hoje nossa Dianópolis tem pecado, que é reclamar da falta de investimentos na região, mas não fazem questão que essa situação se inverta, ou seja, de quatro em quatro anos os políticos de fora "fazem o corre" de votos na região, amparados pelos políticos locais, fazendo aquela velha junção de interessados e interesseiros. Vejo que as forças políticas do Estado do Tocantins, após a separação, estão todas nas mãos daqueles que considero ser os verdadeiros tocantinenses, que são aqueles povos que, culturalmente, se assemelham muito com os maranhenses e paraenses, estados que fazem divisa com a maior parte do estado.  

O nosso antigo norte goiano, em épocas da autonomia, era comandado por uma "elite pobre e metida a besta", que se achava a bolacha mais gostosa do pacote. Observando que os políticos daqui, do antigo norte, só queriam mesmo era falar pelos cotovelos, ou seja, se contradiziam, a partir do momento em que criticavam a falta de prestígio político do antigo norte, em detrimento do sul, mas sempre estavam dispostos a bajular e puxar o saco das autoridades do sul durante suas vindas ao norte. Diante disso, surgiu então, nesse cenário dúbio, um cearense esperto chamado Siqueira Campos, que entrou de cabeça na luta autonomista, montado num cavalo que já estava chegando ao final da corrida. Logo ele conseguiu liderar todo o processo histórico de independência do antigo norte goiano, que andava embalado pela constituinte de 1988.  Lendo o livro O Discurso Autonomista do Tocantins, de Maria do Espírito Santo Rosa Cavalcante, compreende-se melhor todas as articulações, as tramas, os prós e os contras que acabaram efetivando a criação dessa nova Unidade Federativa, considerada a "Mesopotâmia brasileira", banhada pelos rios Tocantins e Araguaia. Verdadeiro "paraíso político" que passou a se chamar Tocantins. Um grande gerador de cargos políticos e de terras praticamente intocáveis. O livro narra também, para variar, a velha covardia peemedebista da época, que durante a primeira eleição do estado, se viu totalmente desfragmentado. Fala sobre as brigas pela indicação da nova capital e a articulação política que levou ao surgimento do grande império Siqueirista, através da chamada União do Tocantins.  

É indiscutível que o sul de Goiás sempre foi mais rico que o antigo norte, mas isso ocorria, obviamente, porque estavam geograficamente mais próximos dos grandes centros do país. O antigo norte goiano sempre foi algo a ser desbravado, algo a ser projetado, mas nunca executado. Durante o processo de divisão do estado de Goiás, muitas cidades apoiaram a divisão, porém, chegaram a reivindicar a permanência no Estado de Goiás, como foi o caso de Arraias, Campos Belos, São Miguel e outros. Neste contesto, de permanecer ou não no estado de Goiás, eu diria que Dianópolis deveria era ter ficado com Goiás, tendo em vista que pouca coisa mudou com a sua permanência no Tocantins. Depois da divisão, veio o tão esperado asfalto, aumentou o quantitativo de cargos públicos (ou seria políticos) e diminuiu a distância para quem pretende sair em busca de melhores empregos e/ou fazer uma faculdade.  O Tocantins nasceu lindo na teoria, mas na prática, ainda não mostrou a que veio. O estado ainda carrega a falta de identidade, os velhos oligarcas continuam no poder, os jovens ainda migram para o sul e tudo agora gira em torno da política, só que de uma forma mais compacta e restrita. O interior do estado, que deveria ter sido prioridade nos investimentos iniciais, continua sendo esquecido. Muitas cidadezinhas que foram criadas, com a média de três a cinco mil habitantes na época, continuam hoje do mesmo jeito ou até com menor população e riqueza.

Voltando ao que relatei no início, que o Tocantins vinha com ares de uma Mesopotâmia brasileira, observamos Siqueira Campos dando um golpe digno dos grandes imperadores da história mundial, optando por construir uma "nova civilização", uma nova cidade no meio do cerrado mesopotâmico, fazendo valer seu nome nos annales da história. Fez como já haviam feito Juscelino Kubitschek (Brasília) e Pedro Ludovico (Goiânia). Com relação a "cultura", conhecendo bem o Tocantins, eu diria que “do Município de Porto Nacional para cima”, os costumes e o linguajar bem diferenciados dos goianos do sul, expressados pelos termos "TU” no lugar de "VOCÊ", demonstram bem que o Tocantins de verdade, começaria era dali para cima. Cidades como Dianópolis, Natividade, Taguatinga, Palmeirópolis, Arraias e Gurupi, identificam-se bem mais com o povo Goiano lá do sul. Na região sudeste, temos também uma particularidade, que é a forte influencia baiana, mas mesmo assim, ela se volta mais para o sul de Goiás. De Porto Nacional para cima, vemos uma forte influencia dos nordestinos e do povo do estremo norte, através dos estados do Piauí, Maranhão e Pará. Diferenças que ficam mais evidenciadas, através dos gostos musicais, pelo jeito de se vestirem, pela culinária e muitas coisas mais.

Por tudo isso, vejo que a divisão do estado não nos ajudou muito, pois se olharmos para o quadro de representatividade política do estado, durante os 22 anos de existência do Tocantins, perceberemos que não tivemos nenhum progresso no que se refere a prestígio político, pelo contrário, houve foi o enfraquecimento das forças. Cidades históricas como Dianópolis, uma cidade pólo da região sudeste do estado, é hoje totalmente ofuscada por cidades menores e sem tradição alguma na história e na política. Basta lançarmos nossos olhares para os deputados federais e estaduais que aí estão ou que passaram pelo poder e veremos que é de Porto Nacional para cima que se constitui a verdadeira força política do Estado. Para concluir, diria que apesar dos pesares, muita coisa melhorou com a criação do Estado e também para Dianópolis, mas a intenção central do texto, não é concordar ou discordar da divisão territorial do estado de Goiás. De Dianópolis pertencer ou não a Goiás, mas sim, provocar aqueles que "hoje" pretendem ou dizem-se legítimos representantes de nossa querida Dianópolis, pois, da forma que anda, nada por nada, teria sido melhor termos ficado com Goiás.

Mário Sérgio Melo Xavier, acadêmico do curso de História na UFT de Porto Nacional
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