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Morte e Vida Severina

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Texto de Robspierre Melo Xavier, conhecido como Robim.

"E se somos Severinos iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, mesma morte severina: que é a morte de que se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte e de fome um pouco por dia (de fraqueza e de doença é que a morte severina ataca em qualquer idade, e até gente não nascida)."

O trecho acima é de uma das mais conhecidas obras (em forma de auto) do poeta João Cabral de Mello Neto, escrito em 1954 e que retrata a história de um retirante nordestino e sua longa jornada, do sertão ao litoral do Pernambuco, em busca de condições para sobreviver à seca. Por onde passa ao longo do Rio Capibaribe o retirante encontra pobreza, morte, miséria, sofrimento e ao final da história depois de ter assistido a tanta desgraça, Severino desiste de suicidar-se ao assistir o nascimento de uma criança, por testemunhar o grande milagre da vida.

Traçando um paralelo com a atual história do ainda Presidente da Câmara e "Deputado Quase Renunciante", Severino Cavalcanti, é válido observar alguns detalhes, sem fazer análises de cunho pejorativo quanto à sua origem.

Sou "tocantinense do pé rachado" e tenho vários amigos nordestinos. São pessoas altamente autênticas, inteligentes, íntegras, batalhadoras, estudiosas e bem humoradas. Donos de uma manifestação cultural riquíssima, e dessa forma elejo-os como representantes maiores da nossa cultura. Mas como em toda parte sempre tem a banda podre, quero pegar um dos desgarrados (que nem de longe o quero como amigo) e manifestar a minha completa insatisfação para com suas "artimanhas mensalinas". Gostei de uma deixa do Deputado Roberto Jeferson em seu discurso de despedida: "são igual rato magro, nunca viram mel... acabaram se lambuzando". Eu diria ao deputado cassado, Roberto Jeferson, que: "macaco senta em cima do rabo e não sente".

O insustentável Deputado Severino Cavalcanti deveria ao longo de sua trajetória política, que está por findar (esperamos que não volte mais), ter em seu seio como objeto de suas pretensões políticas, todas essas virtudes inerentes à alma do povo nordestino, ao seu berço. A bandeira da distinção e austeridade do seu povo, das pessoas que acreditaram na proposta de elegê-lo como representante daquele nordeste sofrido, mas irremediavelmente caiu nas teias da corrupção e curvou-se ao cheiro do dinheiro fácil e sujo. Pesquisei o seu passado e pude notar que as suas ações como parlamentar são alicerçadas de uma imensurável ousadia e constrangimento ao ciclo natural das coisas, sua marca registrada. Ao invés de se dedicar incansavelmente a resolver os gigantescos problemas que acomete o seu povo, eu soube, por exemplo, que logo depois de ser eleito Presidente da Câmara dos Deputados, tentou semear o projeto que reajustaria em 67% os salários dos parlamentares.

Por esse Brasil a fora temos muitos Severinos (os da poesia), pessoas que a cada dia tentam matar um leão pra ganhar a vida, que a cada dia acordam e não têm o que tomar no café da manhã, às vezes almoçam e quase nunca jantam. Pessoas que sequer sonham em passar em frente à porta do elevador de acesso ao restaurante da Câmara do Deputados. Porém, a realidade de outros Severinos (os sem poesia) é totalmente diferente, e essa realidade vai levá-los ao precipício da justiça, seja ela Divina ou não.

Depois de todo esse caminho percorrido, será que o ainda Deputado Severino - que tinha a nítida pretensão de dar a rasteira no Presidente Lula para assumir a cadeira - não se envergonha? Do alto do meu grãozinho de arroz-de-quinta, eu me sentiria completamente liquidado. Mas aguardem caros leitores, pois ele tem certeza que vai voltar. É só acompanharmos a trajetória da pizza rumo ao forno e o seu servir. As entrelinhas do poder invariavelmente urdem em favor disso. Não será surpresa que os Maluf saiam dessa ilesos. Por falar em Maluf, há muitos anos atrás estive naquele restaurante, na Câmara do Deputados, e me lembro perfeitamente da imagem do Paulo Maluf entrando naquele recinto sorrindo largamente, cumprimentando a todos e junto vinha a tropa de combate o escoltando; entre eles estava o "Deputado Quase Renunciante" Severino Cavalcanti. Visto isso, o que pensar do povo sofrido do nordeste que votou nesse senhor? Dizem que as pessoas têm exatamente aquilo que fazem por merecer.

Voltando à poesia, aquele Severino, o da poesia, merece aplausos, pois a sua história é bonita, a sua sensibilidade é fantástica e o seu mundo está entre a vida e a morte, assim como o nosso. Então, se um cidadão decide enveredar-se pelos caminhos da política com a intenção de promover o bem comum e de quebra ainda levar algum pra casa, porque não fazê-lo com a maior hombridade possível, com lisura, com honestidade e com irrestrito respeito aos interesses do seu povo?

No final da poesia, que veio depois a ser encenada em teatro, um carpinteiro fala ao Severino após o nascimento de uma criança: "- Severino, retirante, deixe agora que lhe diga: eu não sei bem a resposta da pergunta que fazia, se não vale mais saltar fora da ponte e da vida; nem conheço essa resposta, se quer mesmo que lhe diga é difícil defender, só com palavras, a vida, ainda mais quando ela é esta que vê, severina; mas se responder não pude à pergunta que fazia, ela, a vida, a respondeu com sua presença viva. "

Acho que é isso mesmo, o carpinteiro tem razão. O mundo dá voltas, os dias passam... nascemos com a certeza de que morreremos, temos uma missão; as coisas ruins acontecem e as coisas boas surgem para abrandar e colorir substancialmente o espaço que compreende esses dois pontos: a vida e a morte, severina. Aos agressores que maculam a nossa história e a nossa vida, que Deus cuide disso, porque os incumbidos da aplicação da norma escrita não fazem muito por nós, daí resta-nos crer na justiça Divina, que é a maior.

Que a justiça seja feita, e que os culpados caiam no ostracismo, definitivamente. O povo clama por paz!!!

 

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