A morte é o momento mais espantoso, inexplicável e triste da vida. Já que não somos imortais só deveríamos morrer bem velhos. Morte não combina com juventude. Recen-temente perdi um amigo de infância, Afrânio Dantas, no vigor dos seus parcos 35 anos de idade. Afra, como carinhosamente o chamávamos, deixou um filhinho de 3 anos, Lucas.
Meu amigo morreu por conta de um dos maiores assassinos de nosso tempo: o trânsito. Quando fui à casa de seus pais, onde foi velado, fiquei observando o sofrimento das pessoas, principalmente dos familiares, e de novo me veio à mente a velha pergunta: por quê? A morte, essa incógnita devastadora, nos deixa impotentes, desnorteados e em busca de explicações. Nesses momentos, os que possuem fé se apegam à esperança de uma vida eterna. Numa hora dessas, em que as perguntas são órfãs de respostas, é o que resta como tábua de salvação.
Eu que lhe havia prometido uma visita em Tocantinópolis, onde morava, fui surpreen-dido com a notícia e imediatamente me veio o sentimento de culpa: por que não fui visitá-lo antes? Diante da morte, somos todos servos. O único remédio é o tempo. So-mente ele arrefece a dor da perda.
Afra tinha muitos amigos. E quase todos estavam ali, despedindo-se dele, solidarizan-do com seus irmãos Ana, Seno, Cido e Cláudio, além de sua jovem esposa, Rosivan. E quando cheguei à minha casa e olhei para os meus dois filhos, lembrei-me dos seus pais, seu Zé da Noite e D. Livinha. A morte de uma pessoa jovem vai de encontro à ordem natural das coisas; afinal os pais não deveriam ter de suportar a perda de um filho.
Acabado o sepultamento, eu e alguns amigos fomos a um bar que Afra gostava de fre-quentar, em Dianópolis, e lhe dedicamos um brinde, olhando uns para os outros com aquela enorme interrogação no rosto, sem respostas, sem palavras, sem consolo. Na cabeça, a imagem do amigo, o som de sua voz ecoando em nossos ouvidos, só inter-rompido pelo espocar de uma tampa de garrafa sendo aberta, pelo farfalhar dos galhos de uma árvore e pelo burburinho que começava a tomar forma, enquanto as pessoas procuravam se acostumar com o fato de que Afra não chegaria mais tarde.
A morte vem, sem marcar hora ou dia, arrancando-nos do convívio as pessoas que amamos e deixando-nos assim, perplexos, inconformados, doentes de saudade. O poe-ta Pablo Neruda ensinava que estar vivo exige um esforço muito maior do que o sim-ples fato de respirar. Afra viveu poucos anos, mas com a intensidade necessária; sua vida não foi apenas respiro. Foi feita de suspiros, alegrias, tristezas e realizações. E nos deixou Lucas, sua continuidade, sua extensão...
Dídimo Heleno Póvoa Aires – advogado, membro das Academias Palmense e Tocan-tinense Maçônica de Letras.




