Sobre mim

Meu amigo Synthroid PDF Imprimir E-mail
Sex, 29 de Outubro de 2010 10:57
No dia oito de outubro do ano de dois mil e dez, exatamente às sete horas e cinquenta e oito minutos – e escrevo assim por extenso para demonstrar a solenidade que merecem a data e a hora – tomei o meu primeiro Synthroid. Ele é pequenininho, azul e possui apenas setenta e cinco mcg de um hormônio que minha glândula tireóide não produz mais. Graças a ele, poderei viver como se nada tivesse acontecido. Portanto, esse remédio, que conviverá comigo até o fim dos meus dias, será meu amigo. Espero que nos entendamos bem.

A frase “até o fim dos meus dias” é forte demais. Pode até ser banal para quem está de fora, mas você, leitor ou leitora, não tem ideia do quanto isso mexe com a gente. Sabe o que é conviver com algo até o fim da vida? Nem casamento hoje em dia goza de tanta consistência. Pois o meu amigo Synthroid (pronuncia-se sintróide) é um que pode bater no peito e dizer: “Sem mim ele não vive!”. E o pior é que não vivo mesmo.

Sabedor de sua importância, logicamente o trato com todo o carinho do mundo. E como se não bastasse ser ele o maioral, é o único que tem o privilégio de invadir o meu organismo no primeiro momento do dia, já que o tomo em jejum e com um detalhe: só posso comer algo após meia hora de sua ingestão. Ou seja, o meu amigo deleita-se com todo o meu corpo e tem um longo período para explorá-lo sem que nada – uma gota de café ou leite, uma migalha de pão que seja – o atrapalhe em sua expedição.

E ele se deleita, sabe de sua importância e, o que é pior, minha dependência o faz cada vez mais arrogante. Todos os dias, quando o seguro entre o polegar e o indicador, tento manter um diálogo civilizado, mas o sentimento que me surge é o de humildade. Eu, ali, ele entre os dedos, com os meus um metro e oitenta centímetros de altura, tendo de me sujeitar a esse mero ser cilíndrico, minúsculo, pesando provavelmente menos que uma pena, a me olhar com seu olhar azul, pedante, dizendo: “Engula-me e pare de choramingar feito uma criança. Você precisa de mim, mas eu não preciso de você!”.

Estamos, eu e o Synthroid, mantendo uma relação difícil, como um pai diante do filho adolescente (ele é o pai). A grande vantagem é que, quando ele me olha com aquele olhar de desdém, eu o engulo rapidamente, sabendo que amanhã o farei novamente. O Synthoid é como andróide de filme de ficção: por fora é substância, mas por dentro é máquina, é química. Todo dia é como se fosse o mesmo de ontem, a me olhar, a me dizer: “Hoje não quero papo, pode me engolir, amanhã estarei aqui novamente!”.

Nossa relação evoluiu, obviamente, afinal é para o resto da vida e somos adultos o suficiente para saber que necessitamos um do outro, embora ele insista em me desprezar. Às vezes, pela manhã, o encaro com melancolia e, sinceramente, fico com pena de engoli-lo, desejando que ele se acomode no sofá e vare a manhã comigo a me consolar, a me explicar que somos assim, canibais de nós mesmos, vivendo nessa antropofagia ininterrupta... Gostaria que ele me fizesse cafuné...

Certo dia, olhando com os olhos úmidos para Synthroid, por volta das sete da manhã, ele me encarou e disse: “Fique triste não, quanto mais de mim você engolir, mais vida você terá!”. Antes que eu pudesse responder, perplexo pela filosofia insculpida por um simples e minúsculo remédio, ele me interrompeu e disse sem piedade: “Engula-me e, depois, reflita”.

Enquanto Synthroid descia por minha garganta, empurrado por um grande gole d’água, fiquei a pensar: “De fato, quantos comprimidos valem minha vida?” Isso é muito importante, afinal a existência deste que vos fala, daqui em diante, será contada em Synthroid e não em dias. Quantos Synthroid faltam para eu viver?

Morbidamente falando, no dia em que eu morrer, se a morte acontecer no período vespertino, terei engolido pela manhã o meu último amigo inseparável. Ele estará comigo até o momento final, e enquanto faz efeito no meu organismo morreremos qual Romeu e Julieta, abraçados e febris. Para o céu ou para o inferno, eu e ele iremos juntos. Jamais pensei que teria uma relação assim com algo. Amo você, companheiro! Obrigado por existir!

Dídimo Heleno, advogado, membro das Academias Dianopolina, Palmense e Tocantinense Maçônica de Letras