Em meio a um ciclo de orgulho, vaidade, e maledicência, muitos se louvam do expediente mentira para ocultar impotencialidades e deficiências humanas, vitimizando a verdade, que costumeira e pacientemente permanece no aguardo do momento inexorável de se revelar com total eficácia e plena exuberância. Isto é o que demonstra as lições dos sábios axiomas, que a verdade tarda mais não falha e sempre prevalecerá em face da mentira. Ao final, porque a verdade, abalizada na razão dos fatos, comparecerá derrogando tudo aquilo se edificou nas bases frágeis das inverdades.
Por isso, as plagas populares afirmam que mentira tem pernas curtas, que mentir para si mesmo é a pior mentira, e ao final de tudo adverte: “que para se sustentar uma pequena mentira de hoje faz-se necessário criar diversas mentiras maiores no amanhã”. Enfim, exalta que ao mentiroso, neste particular, o pior castigo será o descrédito público, não conseguindo sustentar suas razões, mesmo quando em posse da verdade.
Ora, tudo se pode afirmar acerca da mentira, tal como de que ela se faz presente em nossa base cultural, tendo em conta o eterno legado que nos deixaram os colonizadores, à guisa de ilustração, as escórias de Portugal. Outrossim, não se pode sustentar tal premissa, pois que seria admitir que as gerações futuras estão inviabilizadas de se depurarem e se redimirem para posturas que se filiem aos caminhos da verdade.
Dizem outros que o correto não seria fazer apologia à mentira, muito embora exaltem ser um contra-senso viver num país de mentiras, aliás de novelas, admitindo que aquilo que os olhos vêem a alma não deseja, ou num trocadilho de linguagem mais chula e rasteira, que aquilo que os olhos vê apenas se lambe com a testa.
De outro lado, não se deve ignorar, que no arrebol de uma infância, muitos já apregoaram lorotas para as tias, quando furtivamente adentraram seus pomares para se deliciarem das frutas e guloseimas do local. Outros tantos já tiveram que, de forma mentirosa, engessar pernas, braços, para justificar atrasos em compromissos universitários, profissionais, sociais, quando noutra circunstância não compraram atestados médicos para tal, e numa pior hipótese esculpiram o próprio enterro de pais, mães, irmãos. Ou seja, mentiras menores que começaram por crimes anões, como falso testemunho e depois chegaram à falsidade documental, e certamente poderão chegar a crimes gigantes, ou sabe se lá o quê, para sustentar uma primeira mentira.
Noutras hipóteses, os próprios pais variavelmente se vêem em circunstâncias difíceis para responder perguntas capciosas dos filhos e terminam recorrendo à vetusta técnica da evasiva, saindo pela tangente, ou da mentira, para explicar, à guisa de ilustração, onde nasceu Deus? Como a criança foi colocada na barriga da mãe? Por que o piu-piu da Mariazinha é diferente do piu-piu do Joãosinho? Se tais escapes, mentiras, merecem perdão só mesmo o leitor menos criterioso poderá emitir a sua opinião.
Além dessas, o que dizer das eternas mentiras, tais como de que Adão comeu a maçã; que Cabral é o descobridor do Brasil; que Santos Dumont não é o pai da aviação, e que o inferno, não é aqui no nosso próprio meio, mas em local outro, cheio de fogo, com diabinhos cheios de chifres, e, ao final, que um pedófilo padre, no ato da confissão, será capaz de perdoar nossos pecados.
Certamente, constitui-se missão difícil tratar de temática tão controvertida e presente nas camadas sociais, para não se quedar numa atitude involuntária de apregoar falso moralismo, principalmente quando se sabe que raros são aqueles que já não tenham feito breve incursão nesses equivocados caminhos, sem embargo da velha máxima permanecer fiel, como advertência de cabeceira: “que atire a primeira pedra aquele que se encontrar isento de erros.”
No entanto, o fato de reconhecer a existência dos falsos testemunhos, das lorotas nos domínios público, não justifica o ato omissivo de ignorá-los enquanto condutas reprováveis com conseqüências desastrosas para o próprio autor e para terceiros inocentes, inclusive apresentando seus pontos negativos, e até mesmo se encorajando para abrir o debate acerca dos seus mitos e controvérsias.
Acredita-se que só assim é possível encarar, por exemplo, face a face o lodaçal dos políticos, na casa maior de Leis desta Nação, em dias de alforria da mentira, mesmo em se sabendo que no calendário vigente, o 1º de abril não se prolonga no curso do ano, para dar proteção aos mentirosos. A herança que se colhe de tais posturas é uma vergonha nacional e a eterna dúvida de que se não somos partícipes de tais engodos pela omissão no processo político.
Outrossim, há ferrenhos e sistemáticos defensores da mentira que apresentam inúmeras teses, tais como de que uma mentirinha, de vez em quando, se faz necessária para apaziguar ânimos, para suavizar notícias trágicas para os cardíacos e até mesmo para se conquistar notáveis namoradas. Ora, sabe-se que os ânimos se apaziguam apenas quando não há mais motivos para o entrevero; de outro lado, insta salientar que não é a notícia suavizada ou direta que irá implicar no momento da morte de cardíacos, isto somente Deus o sabe. E, por fim, mentiras jamais enganaram namoradas, aliás, estas apenas apreciaram discursos fantasiosos, que revelaram temor às suas pessoas, na medida em que também eram cônscias que os pretendentes, através do hábito da mentira, terminariam por revelar mais fortemente, uma verdade que tentavam dissimular.
Outros pertinazes defensores da mentira buscam argumentos eruditos, tais como de que até mesmo o apostolo Pedro teria negado Cristo por três vezes, e por fim, que até mesmo o Rabino da Galiléia teria apregoado as suas lições em meias verdades, quando se articulava através das parábolas para a multidão que o seguia. Ora, o fato de Pedro ter tentado defender a si e ao Messias em nada contribuiu, pois que o Maior dos Homens já teria profetizado que antes que o galo cantasse o seu apóstolo lhe negaria por três vezes. Noutro passo, merece refletir que Jesus de Nazaré pregou os seus ensinamentos por parábolas, não porque ocultasse a verdade, mas porque utilizava uma figura de linguagem, buscando atingir maior número de pessoas que o seguiam, os quais não estavam prontos a compreender a profundidade e grandeza dos seus ensinamentos. Demais a mais, aos seus apóstolos, repassou as suas lições com maior inteireza para que o seu legado pudesse chegar a toda humanidade.
Todas as ciências humanas e lições religiosas propugnam pela manutenção da verdade e derrogação da mentira. Assim, se deu inicialmente nos 10 mandamentos, que advertiram aos povos que não cometessem o falso testemunho, que é o testemunho mentiroso capaz de levar inocentes à prisão por crimes que não cometeram, bem assim de causar a cisão de casamentos duradouros pela delação de adultérios inexistentes.
A psicologia, também nesta vertente, tem prestado valioso auxílio no sentido de desmascarar o mentiroso, quando orienta que este não fita os olhos do seu interlocutor, voltando a sua visão sempre para os lados, para o teto ou para o chão, evidenciando a insustentável fragilidade de suas afirmações, quando não demonstra desespero pelo descrédito que recebe dos ouvintes alterando a sua voz, de forma reiterada e insistente.
Mais que isto, lições outras psicológicas têm chegado aos laboratórios, auxiliando a criar os detectores de mentiras, que colhem afirmações inseguras e incertezas através das vibrações das cordas vocais. Por fim, a vetusta técnica de acareação do Poder Judiciário continua fazendo milagres desmistificando falastrões, quando seus próprios exemplos, posturas e condição moral já não os desmoralizam publicamente.
Desta forma, com tantas técnicas e recursos para se coibir a mentira, sem embargo das terríveis seqüelas oriundas de tais práticas, fosse melhor, caminhar ao lado da verdade, que segundo a voz popular, dói apenas porque constrói e, porque segundo os transcendentais caminhos do cristianismo, somente esta verdade é capaz de libertar os homens.
Zilmar Wolney Aires Filho (Zilô), advogado, com pós-graduação em Processo Civil e professor universitário



