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Hipocrisia e BBB PDF Imprimir E-mail
Dom, 13 de Fevereiro de 2011 07:31
Há onze anos, durante os meses de janeiro a março, começa o velho dilema repetitivo e hipócrita: “assistir ou não assistir ao Big Brother Brasil, eis a questão”. Inúmeras vozes “intelectualizadas” se levantam contra o reality show, acusando-o de inútil, de perda de tempo, de apresentar futilidades e imbecilidades de todo gênero. Muitos se constrangem em admitir que se deleitam com esses programas. Por outro lado, há quem sinceramente os repudiam.

Existe BBB porque o ser humano não perde a atávica mania de se interessar mais do que o devido pela vida alheia. É ingenuidade exigir que uma empresa privada coloque no ar um programa de discussões filosóficas porque isso é cultura. Não dá lucro. Essa prerrogativa é da TV Brasil, que é estatal. Dê uma olhadinha na audiência dela: é quase um traço. Não é o BBB que imbeciliza as pessoas. Nosso problema é de educação, de falta de senso crítico. Nossas mazelas educacionais são expostas ao mundo quando nas olimpíadas de matemática e de interpretação de texto ficamos em último lugar. Aliás, esse não é único programa televisivo de baixo calão da TV brasileira. Existem muitos outros.  

O formato do BBB é cópia de outro que veicula na Holanda e em boa parte da Europa. O de lá também é fútil, mas não consta que os europeus estejam piores por isso. Esse tipo de programação tem como proposta o entretenimento; quem não se diverte com ele, que não o assista. As pessoas estão levando a sério o que não é para ser levado a sério.

Particularmente, não sou contra o BBB, até porque tenho total ascendência sobre o meu controle remoto. Confesso que dou minhas espiadelas de vez em quando. E nem vou dizer que assim o faço para refletir a respeito da psicologia humana, os aspectos mais intrínsecos da alma, ou qualquer baboseira dita para escamotear a verdadeira razão de assistirmos a esse tipo de entretenimento: a mera curiosidade, a diversão, a delícia das futilidades. E, claro, para ver os corpos femininos expostos.  

E qual o problema? As pessoas que não gostam ou dizem não gostar afirmam que seria muito melhor curtir um bom filme, ler um livro ou fazer qualquer coisa menos estúpida. Mas duvido que a maioria dos críticos esteja, no horário do programa, lendo Proust, Dante, Homero ou Calvino. Certamente está ocupada com outra futilidade qualquer.  

É difícil se dedicar, toda noite, às coisas interessantes da vida, aos enigmas e complexidades da existência. Necessitamos, também, de banalidades. Quem suporta ficar o tempo todo se debruçando sobre as grandes questões? Um pouco de bobagem não faz mal a ninguém. É importante ler Nietzsche, mas há espaço para programas fúteis em nossa vida.

Gosto de ler e escrever livros. Aprecio revistas, jornais, assisto a filmes, adoro teatro, mas sempre que posso vejo e leio qualquer outra coisa que me traga diversão. Até ao programa do pastor Valdemiro Santiago, durante minhas zapeadas, dedico alguns segundos. Por que não? Desde bula de remédio ao Big Brother, de tudo é possível retirar alguma informação. Ou não retirar nada além de risos ou muxoxos. Já está de bom tamanho.  

Se tenho algo melhor para fazer, faço. Não deixo meus compromissos por nada. Ainda prefiro um tempo dedicado à minha mulher e filhos; um bom encontro com os amigos. Muitas vezes, assisto à televisão e leio a um só tempo, parando de vez em quando sempre que ouço uma discussão mais acirrada ou se uma mulher bonita aparece na tela. Costumo entremear meus momentos intelectuais com futilidades, questões complexas com banalidades, notícias com divertimento.

Assim, posso conversar sobre tudo, de filosofia a receitas, de CQC a Gabriel García Márquez, de novelas a Machado de Assis, de política, futebol e religião a uma dose de Jorge Luis Borges. Se etimologicamente cultura é o aspecto da vida relacionado à produção, transmissão do conhecimento e à criação artística, além do conjunto de códigos e padrões que regulam a ação humana individual e coletiva, a rigor e com um pouco de boa vontade, o Big Brother e o pastor Valdemiro também entram nesse caldo. Por outro lado, há o livre arbítrio: a decisão de assistir a tais programas será sempre sua.

Dídimo Heleno, advogado, membro das Academias Palmense, Dianopolina e Tocantinense Maçônica de Letras