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Futebol sem bola PDF Imprimir E-mail
Qui, 27 de Agosto de 2009 14:29

Antigamente as cidades vizinhas a Dianópolis se organizavam em torno de algum campeonato de futebol. Almas e Natividade eram as outras participantes, com suas respectivas seleções. Pelo regulamento, o dono da casa, que detinha o mando de campo, ficava incumbido de providenciar a bola e o árbitro. O jogo deveria começar às quatro da tarde, com tolerância máxima de quinze minutos, caso contrário o time causador do atraso perderia por WO.

Dr. Wilson, que me narrou essa inusitada história, era o técnico do time de Dianópolis. Naquela tarde, o jogo seria na cidade de  Almas e o time da casa teria de levar todos os apetrechos, tais como bola, apito, bandeirinhas etc. Na época, o presidente da Liga de Futebol e torcedor fanático do time almense era o temido Gustavão, conhecido por sua postura firme, muitas vezes até agressiva.

Depois de uma longa viagem a bordo de um caminhão marca Chevrolet por uma estrada repleta de “costelas de vaca”, onde os atletas dianopolinos se acomodavam à moda bóia-fria, chegavam ao destino com a bunda pisada, dolorida pelos solavancos da jornada. Mesmo assim encontravam força e empolgação para enfrentar noventa minutos de correria e o perigo das chuteiras de cravo, confeccionadas pelo lendário “Gilbertão do Instituto”,  prontas para escalavrar as canelas mais afoitas.

Por volta das três da tarde o caminhão apontou na entrada da cidade, acompanhado por uma nuvem espessa de poeira amarronzada, que desprendia do pó da estrada, deixando apenas os olhos e os dentes dos jogadores à mostra. Faltavam dezessete para as quatro e o time dianopolino já fazia o seu aquecimento.

A torcida eufórica e fanática apoiava seu time e lotava o campo de terra, localizado quase no centro da cidade. Gustavão se mostrava nervoso, conversava com o juiz da partida e discutia com os técnicos. Apesar do adiantado da hora, não havia bola, pois a pessoa recomendada para trazê-la até aquele momento não havia aparecido. O tempo passava e o regulamento não deixava dúvida: Almas poderia perder por WO.  

Gustavão, que possuía o hábito de comparecer às partidas de futebol devidamente acompanhado por um revólver calibre 38 na cintura, era temido por todos aqueles que tinham um mínimo de juízo. Quatro e treze, nada de bola. O Presidente da Liga perdeu a paciência, chamou o árbitro, sussurrou alguma ameaça em seu ouvido e determinou o início do jogo, sem bola mesmo.

Quatro e quatorze, os jogadores a postos, cada um em sua posição. Dr. Wilson, estarrecido à beira do campo, recusava-se a acreditar na cena que assistia. Gustavão gritou: “Pode começar!” O juiz apitou e o jogo seguiu sem bola. O time visitante partiu pra cima e a torcida entusiasmada acompanhava atentamente todos os lances.

Aonde um jogador ia, os outros acompanhavam. Os choques das canelas eram ouvidos a um raio de cinquenta metros. Até faltas eram marcadas. A bola fictícia era ajeitada mimicamente pelo cobrador por cima de uma touceira de malva e a torcida gritava aquele “uuuuuuuu”, imaginando que a pelota havia raspado a trave.

Depois de alguns minutos desse inusitado futebol, a tal bola chegou. O juiz paralisou a partida e recomeçou-a logo em seguida, com o jogo indo até o seu final, como se nada de estranho tivesse acontecido. O time de Almas perdeu, mas Gustavão evitou o vexame de uma desclassificação por WO.

Dídimo Heleno Póvoa Aires, advogado, membro das Academias Palmense e Tocantinense Maçônica de Letras.