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Felicidade e Bolsa Família PDF Imprimir E-mail
Sáb, 25 de Setembro de 2010 10:25
Minha colega de trabalho disse uma frase interessante: “dinheiro não traz felicidade, mas deixa a gente rico, o que é quase a mesma coisa”. Esse é um tema sempre debatido, o de se saber se o dinheiro traz, ou não, felicidade. Muitos afirmam ser felizes com quase nada, outros dizem que a pobreza é incompatível com a alegria. Tenho para mim que o sorriso desmedido na boca de alguns miseráveis diz mais respeito à sua condição intelectual do que material. Pouca cultura, conhecimento de menos e ignorância crônica podem gerar felicidade pelo simples fato de o sujeito aceitar passivamente sua situação.

Segundo matéria veiculada na revista Veja, uma pesquisa americana chegou à conclusão de que para ser feliz o sujeito precisa de não mais que 75 mil dólares ao ano. Ora, quem ganha isso aqui no Brasil pode ser considerado rico, claro, já que representa uma boa remuneração mensal. Essa é uma quantia suficiente para atender às necessidades básicas, como uma casa confortável, um carro novo e a educação dos filhos. A maioria do povo brasileiro vive de aluguel e sequer possui carro. No quesito educação, pouquíssimos conseguem pagar uma escola de qualidade, pois como se sabe as públicas são quase sempre vergonhosas.

Obviamente que felicidade é um conceito um tanto quanto relativo e não faltará quem se contente com pouco, bastando o mínimo para se considerar agraciado pelo destino. Muitas pessoas veem na religião, na promessa da vida após a morte, o suficiente para enfrentar as agruras do cotidiano e aceitam sua condição sob a vazia explicação de que assim é por que é assim que tem que ser. Esses enfrentam com galhardia os problemas da vida e são, sinceramente, felizes.

Outros, mais realistas, buscam a felicidade com tanta ânsia e ganância que chegam ao final da vida frustrados e se esquecem de procurar satisfação nas coisas mais simples. Assistir a um filme comendo pipoca ao lado dos filhos, tomar um bom vinho, apreciar uma bela partida de futebol e ler um livro são atitudes frugais da vida que trazem um prazer indescritível, mesmo que momentâneo. Não faltam os apologistas da felicidade e não são poucos os livros de autoajuda que prometem o nirvana ao leitor. Entendo que a vida é feita de pequenos momentos felizes e outros tantos de aborrecimento. Talvez o grande segredo seja justamente conseguir que os períodos de regozijo superem os de tédio.

Mas não há dúvida que o dinheiro está por trás de tudo isso. A inveja, esse sentimento sempre detestável, foi a mola propulsora que fez do capitalismo um sistema tão maldito quanto fascinante. O vizinho que não suporta ver o outro adquirir um carro melhor do que o seu acaba impulsionando a economia na busca de saciar sua cobiça desmedida. De outro lado, essa mesma  inveja é capaz de fazer com que o sujeito mate outro apenas para lhe arrancar o tênis da moda.  

O psicólogo Daniel Gilbert, citado na reportagem da Veja, afirma que a riqueza aumenta a felicidade apenas quando retira as pessoas da pobreza e as inserem na classe média. A partir daí, o dinheiro não traz mais felicidade, já que exige muito esforço para se manter a fortuna e sobra pouco tempo para se dedicar aos pequenos prazeres da vida. Sendo assim, constata-se que milhões de brasileiros que saíram da miséria crônica e passaram a comer melhor (ou simplesmente comer) estão felizes graças ao Bolsa Família. E a tendência é que permaneçam assim por muito tempo, uma vez que o alto índice de analfabetismo contribui para que o sorriso débil custe a se desfazer nos lábios do ignorante. Esses brasileiros estão mais felizes não porque a vida para eles ficou fácil, mas tão somente porque se contentam com pouco. Como são desprovidos de conhecimento e cultura, os seus sonhos se limitam a um prato de comida diário. O governo Lula descobriu isso, como indicam as pesquisas de intenção de voto para presidente.        

Dídimo Heleno, advogado, membro das Academias Dianopolina, Palmense e Tocantinense Maçônica de Letras.