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Famílias e escolhas

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Nós, nascidos em cidades que têm uma história para contar, mesmo que seja ela um tanto quanto sanguinária, cultivamos lá nosso orgulho, nossas idiossincrasias. O dianopolino tem, por excelência, um nariz empinado. E nos orgulhamos disso, o que é pior. Estamos certos de que somos a “capital do mundo” – um devaneio, convenhamos.

Mas o fato é que existe mesmo sinceridade nesse sentimento; ninguém está blefando ou sendo hipócrita. Há amor envolvido. Imagino que em outros lugares deve ser igual, mas só posso falar de onde nasci. Dianópolis é bem melhor do que as outras cidades, claro. Lá nós temos algumas coisas genuínas, como são genuínas todas as coisas que são nossas.   

Quem nasce Póvoa, num lugar desses, em que a genética é sistematicamente analisada, deve ter rótula grande, pouco pelo, canela fina, andar rápido e certo nervosismo peculiar. Se alguma dessas características não condiz com o histórico genealógico do sujeito, é porque tem mistura no meio. Por exemplo: um Póvoa bruto quer dizer que ele também é Aires; um Rodrigues e Costa pode ter problema de bipolaridade: o sujeito é, ao mesmo tempo, retraído e extrovertido. Um Póvoa Rodrigues costuma tocar e cantar bem. Se ele for Costa e Rodrigues, aí a voz entra em sintonia com o talento. Se for só Costa, tal pessoa pode se tornar artista. Aires cantam e os males espantam; um Rodrigues Leal é redundância. E um Leal costuma ser leal. E os Alves? Melhor ainda ficam quando se misturam aos Rodrigues. Os Fernandes, como os Cardoso, gostam de comércio, mas também podem ser poetas. Os Jacobina são finos, meio franceses; deram glamour aos Ayres. Os Wolney são irremediavelmente aristocráticos.

Dianópolis já cresceu, é uma mocinha, está bastante miscigenada e sei que não serão poucas as vozes que se levantarão contra este texto, acusando-o de elitista e até xenófobo. Que me perdoem os que adoram o politicamente correto, as coisinhas no lugar, mas o que pretendo, mesmo, é convidá-los a uma reflexão.

Os Ribeiro levam a vida de forma a causar inveja no observador. São tranquilos, irônicos e agradáveis. São quase irmãos dos Pixuri, que trouxeram irreverência e presença de espírito para Dianópolis. Eles, os Ribeiro, não costumam andar: levitam! E os Cavalari Cavalcanti? Quanta elegância e beleza, agraciados que foram pela genética. E eu fico me perguntando: quantos seres sairão dessa mistura toda? Imagine meus filhos, por exemplo, que trazem no nome o Carlos, Batista, Póvoa e Aires... Aguardemos, não tenhamos pressa...  Os Valente são, no geral, valentes mesmo; se se juntam com um Leal, talvez se tornem mais calmos; com um Póvoa, mandões. Se o sujeito nasceu Silva, Araújo e Póvoa traz grandes possibilidades de se tornar político. Os Dantas, como bons nordestinos, misturaram seus genes com os nossos e melhoraram algumas gerações.  

Todas as famílias que citei acima são apelidos que damos aos seres humanos. Se somos bons ou ruins, isso não depende da genética, mas das escolhas. Um Valente pode ser manso, um Póvoa pode ser calmo, um Rodrigues gentil, um Aires gentleman e um Ribeiro sisudo. O poder da opção é tão grande que um Costa – vejam só! – pode até não apreciar violão e boemia. E eu, pessoalmente, conheço Aires diplomatas, Rodrigues bem humorados e Costas reflexivos. Ninguém quer saber o seu patronímico, mas do que você é capaz de fazer enquanto gente, enquanto pessoa. O sobrenome da nossa família é Dianópolis, o único capaz de nos unir. Lembremos disso sem bairrismo, mas com a consciência de que somos aquilo que queremos ser.

Dídimo Heleno, advogado, membro das Academias Palmense, Dianopolina e Tocantinense Maçônica de Letras
 

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