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Faculdade-indústria, professor-vendilhão, acadêmico-cliente: o quadro atual da educação PDF Imprimir E-mail
Qui, 19 de Maio de 2011 18:40
No tempo em que os interioranos implementavam a via crucis, nos trilhos do êxodo rural, para alcançar os grandes centros, a palavrinha mágica, inclusão, ainda não estava na moda. E o combate desses com os moradores das metrópoles, dava-se por meio de forças desiguais. O sertanejo vencia, por teimosia. A concorrência, no ensino superior, era de, no mínimo, 15 por vaga. Agora, pariram Faculdades por todas as esquinas do Brasil. E, se porventura, um analfabeto esquecer seus documentos no guichê da Faculdade-Indústria, no retorno, certamente, já estará matriculado, com um carnê recheado de elevadas prestações.

O ensino superior industrializou-se, tornando-se um negócio altamente rentável. Cabe lembrar que, com abertura do mercado brasileiro, em dias de regime neoliberal, o sucateamento das universidades públicas foi o pontapé inicial, para ofertar uma fatia desse mercado aos europeus. É certo que, para tais investidores encontrarem tamanho espaço, com a expansão do ensino superior, sob a roupagem de inclusão, a contrapartida seria dividir lucros com as autoridades que possibilitaram o incremento do vantajoso negócio.
 
O saudoso educador Paulo Freire, porventura, deve ter morrido, mais depressa, pelo notável dissabor, em ver tudo que fizeram com a educação, nas últimas décadas, neste País. Ele, por certo, não suportou os atuais paradigmas, tais como: É proibido reprovar. É proibido usar canetas vermelhas na correção. É proibido corrigir, pois constrange. Mas, é possível aluno metralhar pessoas inocentes, em escolas. Matar professor. Ajuizar ação de danos morais contra o docente, que não lhe avaliou bem.

Ou seja, com a instauração do mercado de diplomas de ensino superior, e a concorrência desleal, passaram a exigir do corpo docente ações descomunais. Por exemplo, que não criasse embaraços na venda do diploma. E, para tal, se qualificasse, o mais breve possível, em mestrados e doutorados, de elevadas prestações, apenas, para educar, ou nivelar semi-analfabetos.

Não bastasse isso, os atuais corredores universitários sedimentaram axiomas escrachantes com a imagem do corpo docente, nos seguintes termos: no quadro atual de ensino superior, a faculdade-indústria quer vender o diploma para o acadêmico-cliente, e o professor-démodé, tem atrapalhado o negócio, porque ainda não assimilou uma regra simples do atual ensino superior: o corpo docente finge que ensina; os acadêmicos fingem que aprendem. E, no final, tudo se acomoda!

Há uma inversão inaceitável de valores e regras, neste contexto. Aliás, o sábio ex-ministro Cristóvão Buarque bem que buscou mostrar os caminhos do acerto, quando afirmou que teríamos que recomeçar o País, remodelando os critérios de educação! Outrossim, com a sábia lição, não apregoou, de forma implícita, que devêssemos ser condescendentes com as avaliações dos nossos irmãos analfabetos. E, nem tampouco, que premiássemos os semi-analfabetos com título doutor honoris causa.

Não se pode ignorar que tudo de equívoco, que se faz na educação, a sua repercussão dá-se por, no mínimo, 20 anos. Imaginemos, portanto, durante quantas gerações, o Brasil será descredibilizado por pseudos-bacharéis? Pois, esses possuem um diploma, mas não conseguem exercer as suas profissões, ou até mesmo serem aprovados num exame da OAB.

O Brasil, na sua marcha progressiva, para alcançar as  grandes Nações, necessita demonstrar às comunidades internacionais, em prazo exíguo, que erradicou os índices alarmantes de analfabetismo. Outrossim, mascarar essa situação com diplomas foi, no mínimo, irresponsável. Ou seja, atirou nos próprios pés. Pois, agora os investidores internacionais, por falta de mão de obra qualificada, estão refazendo as malas. E o argumento é simples: apesar de encontrarem inúmeros portadores de diplomas, que esnobam fantásticos currículos copiados da internet. Todavia, esses, por ocasião da entrevista, tremem, e não conseguem demonstrar, no mínimo, as suas aptidões.

A inclusão dos analfabetos e semi-analfabetos do País deve-se dar, sem a pressão de organismos internacionais. Até porque, esses possuem o direito de, a seu tempo, por meio de fases e etapas bem delineadas, da absorção do conhecimento. Pois, como lecionava o mestre Seneca: ler sem refletir, é o mesmo que comer sem digerir. Ou seja, do jeito que entra, sai. Não se retém nada!

Zilmar Wolney Aires Filho, advogado, professor universitário, especialista, em processo civil e mestrando em Direito