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Exemplos de José Alencar PDF Imprimir E-mail
Seg, 06 de Junho de 2011 07:11
Passado algum tempo do falecimento do ex-presidente José Alencar, faço agora algumas reflexões. É praxe no Brasil que as pessoas sejam glorificadas após a morte. Já ouvi discurso de padre em sepultamento que praticamente transformava o morto em mais um santo católico. As pessoas tendem a ser lenientes com as atitudes de quem em vida nem foi assim tão exemplar. O caso de José Alencar é emblemático. Desde o dia em que ele chamou a mãe de sua suposta filha de prostituta e revelou ter sido assíduo frequentador de cabarés na juventude percebi que não se tratava de um puro.

Importante que se esclareça que não tenho nada contra frequentadores de cabarés. Tenho, sim, receio de quem trata uma suposta mãe de sua filha como prostituta e que, por isso, não seria apta à maternidade. Quem frequenta prostíbulos e os repudia age como os senhores de engenho, que apesar de racistas mantinham amantes negras, justamente aquelas que levavam para dentro da Casa Grande.

No país do “homem cordial”, como diria Sérgio Buarque de Holanda, não é de se admirar que o simpático e carismático José Alencar tenha tocado os corações de nossa gente. Ele era o típico mineirão, fala mansa, com um jeitão irresistível de caipira que deu certo e se tornou um dos maiores empresários do ramo têxtil. E, como Lula, se identifica com o povo, já que saiu de baixo, sofreu como quase todos nós, passou inúmeras necessidades e venceu. E venceu sem perder a simplicidade. Para completar, não terminou os estudos, o que é um prato cheio para se conquistar a popularidade numa nação onde o intelectual é considerado de elite e, justamente por isso, discriminado.   

A ofensa de José Alencar, dirigida à mulher que disse ser mãe de sua filha, além da recusa em fazer o teste de DNA, são atitudes reveladoras de um caráter. Ao mesmo tempo em que admitiu ter sido frequentador de lupanares, se recusou a se submeter a um procedimento que esclareceria de vez a questão. É claro que tal recusa gera a presunção de veracidade em seu desfavor.

A intenção deste artigo não é a de jogar lenha num fogo que já se apagou. O que me intriga é essa atitude coletiva de se deixar levar por qualquer afago e demonstrações de simpatia e sofrimento. Aqui, a maioria é capaz de contar sua vida para uma pessoa que conhece na fila de banco. De maneira geral, não se aceita ausência de intimidade. Daí saem os Maluf, Collor, Sarney e Renans da vida.

Por outro lado, ninguém contesta a luta exemplar do ex vice-presidente, que enfrentou com bravura um câncer devastador, por mais de dez anos. De fato, demonstrou perseverança e fé na vida, vontade de continuar lutando e, por isso, conseguiu driblar por um bom tempo a sua doença. Mas é preciso considerar que o poder aquisitivo do paciente, nesse caso, foi essencial. Claro que se tivesse de se submeter ao atendimento do SUS não teria resistido tanto. Se todas as pessoas portadoras de câncer pudessem ser recebidas no Hospital Sírio Libanês e contassem com uma equipe médica de tão alto gabarito, muitas histórias poderiam ter outro fim.  

O fato é que, em minha opinião, José Alencar passou longe desse homem retilíneo que tantos querem nos fazer crer. E só digo isso pela atitude dele com relação à suposta mãe de sua filha. Alguns podem pensar que é pouco diante do muito que ele deixou de exemplos. Penso que sua atitude é que manchou uma luta que poderia ter sido ainda mais digna. Há inúmeros heróis brasileiros, e não são os participantes do Big Brother. Um pai que consegue manter sua família, aos trancos e barrancos, com um mísero salário mínimo e trabalhando de sol a sol, também é motivo de exemplo para todos nós. O melhor que poderemos extrair da morte de Alencar é a certeza de que o nosso sistema público de saúde precisa, urgentemente, melhorar. Todos nós temos o direito de acesso a profissionais qualificados e hospitais decentes.

Dídimo Heleno, advogado, membro das Academias Palmense, Dianopolina e Tocantinense Maçônica de Letras