Sobre mim

Entendendo o Natal PDF Imprimir E-mail
Qua, 15 de Dezembro de 2004 17:43

Vivemos pela vida intercalando épocas de entusiasmo com épocas de desilusão. De vez em quando andamos inchados como velas e caminhamos velozes pelo mar do mundo; em outras ocasiões - mais frequentes do que as outras - estamos murchos como folhas que o tempo engelhou. Temos momentos dourados, como nesta época natalina agora, em que caminhamos sobre nuvens e tudo nos parece maravilhoso, e outros - tão cinzentos! - em que talvez há algo que adormece e parace ficar assim durante o tempo necessário para que tudo volte a ser belo.

Nessa época natalina, as luzes apagadas se assendem e se rendem ao despertar do dia internacional da paz e da esperança no mundo. Sei que o Natal já existia quando eu vim ao mundo e sempre foi muito bom verificar que cabiam na mesma casa, connosco, os avós, os tios, os primos e os amigos. Havia um calor qualquer que faltava no resto do ano. Um aconchego a que não sabia dar nome. Depois, juntou-se a tudo isto o fato de o Natal acontecer dentro dessa outra coisa maravilhosa que eram as férias e cronologicamante o final de ano, ganhando assim, ainda mais encanto.

Mas chegou a idade de querer saber a razão funda das coisas. Saí de casa, morar sozinho, viver longe do conforto de nossas casas e sair de baixo das protetoras asas de nossas mães. E hoje, resolvi explicar a todos, que vou passar um natal diferente, explicando onde as pessoas compram e vendem presentes, sempre envolvidos nestes lindos papéis de muitas cores. Percebo que os que compram e vendem não sabem dizer o que realmente desejavam. Falam de como tiveram de correr muito nessa época do ano; falam de números, das poupanças, das dívidas que tinham feito; do seu esforço e de como a vida não estava boa para dar presente.

Perceba então, que a maioria nada sabe acerca do verdadeiro sentido que é o Natal. Nas ruas, as luzes não passam de simples técnica comercial e, no fundo, tudo está muito escuro.

Percebam que as famílias continuam a se juntar, é de adimirar que nesse país tão espasoso podem caber muitos em casas tão pequeninas. Coitados que ficam alí sentados, passando o tempo em frente da televisão, envolvidos em monossílabos e gritos. Compreendi então, que são apenas por hábito que se reunem. Parece que perderam o Natal, conservando somente a roupagem do Natal. É como se houvesse o embrulho bonito do presente, mas sem presente dentro.

Cito um natal onde pessoas sabem explicar as dores. Pode ser um hospital, uma prisão ou uma barraca de janelas abertas ao frio da noite, onde uma mãe perde um filho. Onde há uma outra mãe com um filho doente. Onde um homem jazia imóvel num leito e gemia não sei que doença. Onde havia um ser humano de sonho gigantesco e umas mãos tão pequeninas, e sofria coitado, de não ser capaz de poder brincar. Cito os cegos e alguns que, vendo, desejam ver de um outro modo.

Não é preciso exemplificar muitos casos, mas posso dizer que com ceteza havia uma oração nos lábios de cada um deles; nos olhos de cada um, uma lágrima e, simultaneamente, um brilho de esperança. Estes sim se preocupam com a meia noite, e os que podem, se ajoelham para pedir algo melhor!

Digo-lhes que o Natal é só de quem há muito espera. De quem ainda não se encheu. É só de quem sonhou além das coisas e se vê ainda muito longe. É de quem tem chorado, de quem tem sofrido. De quem olha para dentro de si mesmo e sente medo. De quem não encontrou ainda o seu consolo.

O Natal existe apenas onde existe a falta. Nós, que temos tudo - que pensamos que temos tudo - sofremos da terrível pobreza de não sabermos sequer que somos pobres.

O Natal não é para nós. Eu mesmo com este texto e estas belas palavras não sou capaz de entendê-lo...