Sobre mim
| Dona Xepa |
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| Qui, 09 de Dezembro de 2010 17:32 |
Quando eu tinha por volta de 12 ou 13 anos, transitei em meio aos artistas de Dianópolis, que àquela época possuía grupos de teatro bastante ativos. Viajávamos para as cidades vizinhas e além-fronteira, como Barreiras, na Bahia. Menino precoce, não perdia as festas dos bastidores e volta e meia era convocado para um papel em alguma peça. O auditório do Colégio João d’Abreu lotava de ávidos amantes das artes cênicas. Hoje tudo isso acabou. Talvez tenha sido o advento da televisão, que embruteceu um tantinho nosso povo. A celebridade de então era Fátima Almeida – quem não se lembra de sua performance em A Filha do Amor, onde contracenava com Josino Filho e protagonizaram o primeiro beijo técnico da cidade? Gilberto, Onésimo, João Jorge, Geralda, Estefânia, entre outros, eram os mais requisitados. Josino Filho, o Zino, era estrela de última grandeza, uma espécie de Fátima Almeida do sexo masculino, sempre disputado para os principais papéis. Antes dos 15 anos de idade criamos, eu, Deco e Clístenes, o G.T.I. – Grupo Teatral Infantil. Depois dos quinze, passamos a chamar o grupo de G.T.J. – Grupo Teatral dos Jovens, cuja sede ficava nos fundos da casa de minha avó Stela. Lá ensaiávamos e escrevíamos peças. A primeira foi A Morte de Tiro e Queda, que passou por todas as escolas da cidade, atraindo um grande público. Até hoje guardo os originais, escritos com caneta Bic e letra de quem está sendo alfabetizado. Mais tarde, devido ao sucesso do nosso grupo, passei a ser convidado com mais assiduidade para participar de teatros no mundo adulto. Foi aí que conheci Altamare, a Tina. Ela era o Josino Filho do sexo feminino. Polivalente, alternava as funções de atriz e diretora. Outro sucesso seu foi em A Face de Cristo. Comandava todo o elenco com pulso forte, composto de alguns irresponsáveis que eram tocados a laço para os ensaios semanais. Meu primeiro papel no teatro “profissional” foi como Luizinho, em Dona Xepa, uma peça protagonizada por Tina, que fazia o papel da senhora que dá nome ao espetáculo. Durante os meses de ensaio, pude conhecer e participar um pouco da esbórnia local. Em Dona Xepa João Jorge fazia um italiano chamado Ângelo, com um sotaque de novela das oito e muita jocosidade. Quase sempre, depois dos ensaios íamos à casa de algum dos atores para uma merecida esticada. Foi quando aprendi a fumar, beber e a levar uma vida boêmia, apesar de muito jovem. Quando a peça começou a ser apresentada, o sucesso foi imediato e convites choveram para apresentações nas cidades em torno de Dianópolis. Para eu viajar, era preciso autorização do Juizado de Menores, com o aval dos pais. Isso não era problema, já que Tina tomava frente nas negociações. O fato é que tínhamos uma vida cultural rica, agitada e proveitosa. O público era dos mais qualificados e estava sempre ali, apoiando a iniciativa. Os dias de teatro eram alegres, auditório repleto de entusiasmados dianopolinos, inclusive os casais idosos. O tempo passou, as pessoas sumiram, cada uma tomou rumo na vida e só ficou saudade. Dona Xepa, a Tina, conheceu Rogério de Teófilo e, após alguns anos de estágio probatório, resolveram se casar “no religioso” no dia 4 de dezembro de 2010. Eles fizeram o oposto do que normalmente se faz: primeiro se uniram e verificaram a probabilidade de serem felizes para sempre. Constatado que isso é possível, requisitaram as bênçãos da Igreja. Rogério me disse, durante a festa, que estava sossegado, pois tudo o que fez de errado nesse período pré-bênção não tem validade, já que sua união ainda não tinha sido benzida. Os pecados, segundo ele, começarão daqui em diante. E me mostrou uma lista que o padre lhe entregou, contendo os dez mandamentos e uma série de prováveis punições caso sejam descumpridos. Coçou a cabeça quando percebeu que é impossível viver sem pecar. Dizem que o pecador só é punido quando tem consciência do pecado. Esse, agora, é o caso do meu amigo Rogério. Altamare, ou Tina, foi de extrema importância na minha formação. Ela me deu a oportunidade de sair da mesmice e do marasmo em que se vivia na adolescência numa cidade do interior que, à época, não nos oferecia muito mais do que o trivial. Há pessoas assim, que aparecem sorrateiramente em dado momento de nossas existências, estendem suas mãos e nos conduzem para o centro do palco da vida. Dídimo Heleno, advogado, membro das Academias Palmense, Dianopolina e Tocantinense Maçônica de Letras. |




Quando eu tinha por volta de 12 ou 13 anos, transitei em meio aos artistas de Dianópolis, que àquela época possuía grupos de teatro bastante ativos. Viajávamos para as cidades vizinhas e além-fronteira, como Barreiras, na Bahia. Menino precoce, não perdia as festas dos bastidores e volta e meia era convocado para um papel em alguma peça. O auditório do Colégio João d’Abreu lotava de ávidos amantes das artes cênicas. Hoje tudo isso acabou. Talvez tenha sido o advento da televisão, que embruteceu um tantinho nosso povo.