Sobre mim

Deus e o aborto depois das eleições PDF Imprimir E-mail
Ter, 16 de Novembro de 2010 19:25
Deus e o aborto foram dois temas muito debatidos no segundo turno das eleições presidenciais. Tudo começou quando Dilma Rousseff declarou-se, ainda no ano de 2007, a favor da sua descriminalização. Nosso Código Penal só permite a prática quando proveniente de estupro ou quando há nítido risco da mulher perder a vida. O fato é que a discussão chegou ao grande público e os assessores do candidato José Serra, à época, vendo a oportunidade diante da porta, resolveram trazer o tema para o centro do debate. Um assunto pobre, deprimente, para não dizer medieval.

Na ocasião, os candidatos se tornaram religiosos convictos, crentes em Deus e respeitadores dos dogmas da Igreja. Na verdade, não se trata de concordar ou não com o aborto, mas o que se explorou na campanha foi mesmo a fé das pessoas – e de forma rasteira, diga-se. Um pastor evangélico foi à televisão e fez um discurso aos seus fiéis, dizendo que deveriam apoiar José Serra, já que a adversária era a favor dessa prática demoníaca. Com o advento da internet, esses vídeos correram mundo em poucos minutos. Um arcebispo leu um longo trecho condenando a posição da candidata do PT e, novamente, o vídeo correu o Brasil de ponta a ponta. Pronto: estava formado o clima tão desejado pelo PSDB.

Esse negócio de enfiar Deus em política sempre foi um grande perigo. Sim, porque por trás da discussão a respeito do aborto está mesmo é o respeito aos dogmas religiosos. Para as religiões mais tradicionais, nem mesmo as ressalvas do Código Penal deveriam ser permitidas. Na verdade, é mais um tema de interesse exclusivamente pessoal, mas que a Igreja tenta impor à sociedade. Ora, quem é religioso e segue uma religião, que respeite os seus dogmas, mas quem não é deve ser livre para decidir. Mas o assunto rende voto, aí se torna tão relevante. Dizem que Fernando Henrique, quando disputou a prefeitura de São Paulo com Jânio Quadros em 1985, teria perdido as eleições por conta de seu titubeio em responder se acreditava em Deus, no último debate entre os dois. Fé é uma questão que o povo leva a sério.

Tudo isso está coberto por uma aura quase visível de hipocrisia. Sabe-se que no Brasil milhares de mulheres, todos os anos, morrem em clínicas clandestinas tentando praticar aborto, auxiliadas por pessoas desqualificadas, sem a menor condição técnica e de higiene. Por outro lado, mulheres economicamente privilegiadas praticam os seus abortos nas melhores clínicas e com os mais preparados profissionais. Cabe ao Estado dar condições a todas elas, já que estamos diante de um problema de saúde pública. A mulher que é religiosa, obviamente, poderá optar por não adotar a prática, por razões de fé e em respeito aos dogmas de sua igreja. Mas aquelas que não são religiosas deveriam ter, igualmente, o direito de optar pelo aborto, com toda a segurança e sem o risco de serem presas por isso.  

Durante a campanha, a agora presidente Dilma, num programa de televisão, disse que acredita em Deus e em Nossa Senhora “de forma geral”, acrescentando mais uma modalidade da santa às inúmeras já existentes. José Serra apareceu em seu programa lendo a Bíblia. A um desavisado qualquer ficou a impressão de que estávamos diante de eleições no Irã. Nossos candidatos falavam como aiatolás.

O fato das religiões serem contra o aborto não fará com que ele deixe de acontecer. É o mesmo que se posicionar contrariamente ao sexo antes do casamento. E daí? Todo mundo faz. Ao Estado cabe cuidar da saúde de suas mulheres, no primeiro caso, e distribuir camisinhas, no segundo. No momento em que os governos passam a escutar as vozes religiosas para tomar suas decisões, por pura conveniência política, estamos cada vez mais próximos de “iranizar” nosso país. Trazer Deus e o aborto para o centro da discussão política nos remete à Idade Média, a era das trevas. Espera-se que Dilma não se enverede por esse caminho, até por que o seu discurso após eleita foi bastante alvissareiro.

Dídimo Heleno, advogado, membro das Academias Dianopolina, Palmense e Tocantinense Maçônica de Letras