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Copa de 2014: O iminente risco da vergonha PDF Imprimir E-mail
Seg, 08 de Agosto de 2011 18:15
Sessenta e um anos depois, tudo, literalmente, mudou. Já não são dezesseis seleções, são 32, a estrutura global se ampliou, a tecnologia dominou o restante do século passado, abraçou o presente, e, com isso, o mundo ficou mais exigente, mais ágil e mais moderno. Em 1950, quando o Brasil sediou sua primeira e única Copa do Mundo, não éramos pentacampeões e o futebol não era dinamizado como hoje. Naquele tempo, a disputa era entre América do Sul e Europa, com participação de equipes consideradas “galinhas mortas”, por serem tecnicamente bem inferiores, embora mesmo na América do Sul houvesse times fracos. Hoje é entre América do Sul, fortalecida quase que integralmente, e os outros quatro continentes. Nesse contexto de desenvolvimento do futebol e do mundo, corremos o risco de passar vergonha na Copa de 2014? Sim, claro. Não por conta da festa do futebol, mas pela falta de estrutura e compromisso sério do Brasil com um evento monumental que mexe com o próprio espírito brasileiro.

“A Copa é amanhã, mas os brasileiros pensam que é só depois de amanhã.” Esta declaração foi do presidente da FIFA, Joseph Blatter, ao Estadão, quatro meses atrás. Ele estava corretíssimo, embora, óbvio, o governo brasileiro tenha tentado amenizar o peso da declaração dizendo que “não; estamos no calendário.” Esta verdade é muito duvidosa. Apuramos que o país corre, sim, o risco iminente da vergonha e está se preparando para a Copa a passos de tartaruga, com nada de trem bala.

A verdade é que, comparativamente, faltando o mesmo tempo para a Copa de 2010, a África do Sul, um país bem menos desenvolvido que o Brasil, estava mais avançado nos preparativos do Mundial do que nós estamos. E eles passaram vergonha. Em plena Copa do Mundo, os sul-africanos estavam fazendo obras de acessos aos estádios. Em dado momento, a situação das obras era tão crítica que a própria FIFA cogitou mudar a sede em caráter emergencial. Há dúvida de que passaremos, também, se os rumos não mudarem, o mesmo vexame? Não, óbvio.

Nosso país carrega, atrelado às cores e ao significado de sua bandeira, o orgulho de ser o símbolo do futebol mundial. Quando se pensa em futebol ao redor do planeta, pensa-se, necessariamente, em Brasil, não na Inglaterra, a promulgadora do esporte no mundo. É bastante preocupante perceber que, faltando menos de três anos para a Copa de 2014, temos muito pouco para brilhar e mostrar a que viemos, além, certamente, da promessa do time de Mano Menezes, uma Seleção de novos talentos que floresce por si própria, apesar do recente fiasco na Copa América da Argentina. À parte de um time jovem e reformado que tem, sim, chances de nos fazer chegar ao hexacampeonato em casa, não temos muito mais. Não há, sequer, um dos maiores componentes do futebol, os estádios. E o maior dos componentes, a torcida, ninguém sabe como vai ficar, ou melhor, como vai se movimentar pelo país, de forma segura, ordeira e confortável.

É muito questionável a afirmação do governo de que as obras dos estádios estão em dia, dentro do previsto, como gostam de dizer, e que o Brasil está no topo da questão. Muito questionável, mesmo. As declarações do dirigente da FIFA não deveriam ser alarmantes, mas são. O Brasil quer organizar um evento mundial de modo desorganizado e, talvez, pecaminosamente, no que diz respeito à lisura e à transparência do planejamento e da concretização das obras. Estivemos, neste ano, em seis das doze sedes da Copa – Brasília, São Paulo, Belo Horizonte, Salvador, Recife e Natal, – e constatamos: a partir do que existe agora, o Brasil não acha que a Copa será depois de amanhã, mas acha que será em 2018. Estão nossos governantes e nossas instituições pensando que a próxima Copa será na Rússia? Francamente, sim. Como gostam de dizer os norte-americanos, “the clock is ticking”, ou seja, o relógio está correndo.

Infelizmente, o Brasil não tem a agilidade e o preparo do primeiro mundo, e isso é decepcionante. Em nossas viagens, comprovamos: há um visível descrédito dos paulistanos, dos brasilienses, dos recifenses, dos belo-horizontinos, dos soteropolitanos e, principalmente, dos natalenses, em relação ao êxito da organização do evento em suas sedes. Um taxista que nos transportou do Aeroporto Internacional Augusto Severo, em Natal, ao hotel, disse: “Ninguém aqui acredita nesta Copa, este ‘Machadão’ não sai nem na base do machado”. Machadão é como será chamado o estádio que sediará os jogos em Natal, uma obra orçada em R$420 milhões, com capacidade para 45 mil torcedores, feita pela construtora OAS, com previsão de entrega em dezembro de 2013. É uma longínqua previsão. A Arena das Dunas será erguida do zero, mas o governo brasileiro prefere divulgar fotos do antigo Estádio João Cláudio Vasconcelos Machado, fundado em 1972, de propriedade da Prefeitura de Natal, porque é melhor e menos vergonhoso que divulgar uma imagem da realidade, um imenso terreno com alguns tratores e difícil acesso.

A realidade elaborada pelo governo do Brasil é linda, mas tristemente irreal: realizaremos a maior Copa do Mundo de todos os tempos, faremos bonito no país do futebol, daremos show de visibilidade internacional, atrairemos bilhões de recursos para o país e nos consolidaremos como um país, verdadeiramente, capaz de conseguir chegar ao primeiro mundo e se firmar nele. Duvidoso. Não há praticamente nada. Quando não se tem estádios, o que pensar do resto? Não há aeroportos capazes de acomodar o fluxo de estrangeiros e brasileiros; não há estrutura hoteleira suficiente; não há meios confiáveis de transporte; não há rodovias seguras; não há garantia de segurança pública; enfim, há muito pouco do que é necessário para estar nos holofotes do mundo e não ser zombado pela opinião global. O Brasil está sonhando, quando deveria estar desperto.

Para apenas amenizar a situação, o secretário-geral da FIFA, Jérôme Valcke, disse que as obras parecem avançar, mas que não sabe como o Rio de Janeiro, por exemplo, vai melhorar o trânsito e como o Brasil vai movimentar centenas de milhares de turistas sendo um país continental. “Tem que funcionar”, disse Valcke, recentemente, num encontro com jornalistas. Para ele, os estádios representam o menor problema, pois serão construídos ou reformados, mas já a infraestrutura do país... Algum tempo atrás, o próprio Valcke chegou a afirmar que “Para o Brasil, o mais importante não é organizar, mas vencer a Copa de 2014. Nós não temos estádios, nós não temos aeroportos. O estádio de São Paulo pode ficar pronto apenas quando estiveram restando poucas semanas para o início do Mundial. Isso é inadmissível.”

Encontramos problemas de locomoção em todas as sedes visitadas. Um fator básico, por exemplo, seria a mobilidade eficiente entre as sedes mais próximas entre si, no nordeste, isto é, entre Fortaleza, Natal, Recife e Salvador. Porém, as BRs 101 e 116, que ligam as cidades, em muitos pontos, estão frangalhadas, sem sinalização eficiente, sem segurança, enfim, estão há anos-luz da decência, para dizer o mínimo. Os próprios aeroportos, nas sedes, sequer conseguem acomodar o volume de voos domésticos, uma vez que não têm suficiente número de jet bridges, ou pontes de acesso das aeronaves aos terminais, também para dizer o mínimo, e para não dizer do que é essencial a um aeroporto decoroso, como terminais, lojas, e instrumentos facilitadores aos passageiros (kiosques de auto-check-in, esteiras modernas de entrega de bagagem, etc). Em todas as sedes visitadas, com exceção de Natal e Brasília, o avião que nos transportava teve que parar no pátio e os passageiros foram transportados aos saguões por meio de ônibus, inclusive no Aeroporto Internacional André Franco Montoro, em Guarulhos, dito o mais moderno e mais avançado do país. Em São Paulo, sobretudo, o principal hub aeroportuário do Brasil, o caos era geral apenas com a demanda doméstica. Imaginemos como estará aquilo com a movimentação da Copa do Mundo. Em abril último, por sinal, São Paulo se transformou num pandemônio por conta do show da banda irlandesa U2. Os aeroportos ficaram entupidos, o trânsito totalmente parado, enfim, nada de eficiência.

Também em São Paulo, tida como uma sede natural – dada a importância da cidade como centro financeiro do país, a tradição futebolística dos maiores times do Brasil, e dos legendários Morumbi e Pacaembu (sede da Copa de 1950) – nada corre com velocidade. O “Fielzão”, estádio do Corinthians que receberá os jogos, está na base, aliás, na terraplanagem, em resumo, nada de fieldade com o calendário da Copa. Apenas dias atrás, o projeto do futuro estádio foi oficialmente aceito pela FIFA como sede oficial. A obra, a ser construída pela Norberto Odebrecht, com orçamento na ordem de R$820 milhões, e com capacidade para 68 mil lugares, está presentemente nesta fase: um belo desenho arquitetônico no papel e no bairro de Itaquera, com previsão de entrega – e, ressaltamos, – previsão, para fevereiro de 2014, isto é, quatro meses antes da Copa. O Fielzão ainda sonha em ser o palco de abertura da Copa, mas a situação é tão crítica que São Paulo já foi descartada pela FIFA para participar da Copa das Confederações em 2013, um evento importantíssimo que serve como instrumento final da FIFA para testar alguns dos estádios que receberão os jogos de abertura, semifinais e final da Copa. Se a situação é essa no que se trata dos próprios estádios, como fica a infraestrutura? O prometido trem bala, obra do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que ligaria o Rio de Janeiro a São Paulo, dando ao Brasil um ar de modernidade e de desenvolvimento, desafogando os aeroportos das duas maiores sedes, não sairá sequer para as Olimpíadas do Rio, em 2016, que dirá para a Copa de 2014, e isso já foi dito oficialmente pelas autoridades.

O Brasil precisa mostrar que não é mais o país do futuro, é o país do agora. Em sua primeira visita oficial a Brasília, em março último, o presidente Barack Obama disse que nosso futuro já chegou, que nosso momento é o presente. Mas o risco da vergonha e do desconcerto intragável é iminente e patente. Não há muito de futuro nas obras e planejamentos da Copa, mas muito, sim, de passado e atraso, embora Orlando Silva, o ministro brasileiro dos Esportes, insista em dizer o contrário.

Planejamos visitar todas as outras seis sedes da Copa até julho de 2012 (Manaus, Fortaleza, Rio de Janeiro, Curitiba, Porto Alegre, e, inclusive, Cuiabá, certamente um dos projetos mais questionáveis de todas as sedes, uma vez que a cidade sequer tem tradição no futebol).
Esperamos, certamente, encontrar o “Verdão”, como é chamado o Estádio José Fragelli, em menos fragilidade que agora, dado que R$596,7 milhões estão sendo alocados para transformar o atual precário estádio numa arena excepcional, com capacidade para 43 mil torcedores, digna de jogos de Copa do Mundo. O que será desta futura magnífica obra da Copa de 2014 depois do Mundial ninguém sabe ao certo, talvez será o maior mausoléu do Centro-Oeste do país, ou palco de esporádicos amistosos, ou, mais provável, de jogos da terceira e quarta divisões do futebol brasileiro.

Foi louvável a decisão da presidenta Dilma Rousseff em escolher Pelé como nosso embaixador para a Copa de 2014. A imagem limpa, quase sem nódoas, do esportista do século, de um atleta exemplar, vai nos ajudar bastante. Mas é preciso muito mais. O Rei do futebol já ganhou, com seus companheiros, os títulos de 58, 62 e 70; agora, a estrutura do Brasil precisa ganhar, também, o respeito e a credibilidade, e isso não é responsabilidade do Rei. Ajamos imediatamente, visto que a Rússia, sede de 2018, está a todo vapor. Como um dos BRICs, o maior país do mundo está em acelerado processo de desenvolvimento, atento à modernidade e à rapidez. Os russos têm tempo, o Brasil, outro BRIC, não. Nosso país não pode passar a vergonha de fazer menos e baixo, afinal nós somos o país do momento, nós somos, com muito orgulho e muita propriedade, o país do futebol.

O dianopolino Fabrício Silva é mestre em jornalismo pela New York University (NYU), editor adjunto do Brasilians Newspaper em Nova York e redator do Brazilian Day in New York.