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Cartas de Nova York: um matuto na Big Apple PDF Imprimir E-mail
Dom, 30 de Janeiro de 2011 22:31

Pra começar: eu cheguei na alfândega americana tendo em mãos um livro sobre a AK-47 – o rifle de assalto mais usado no mundo. Tinha tudo pra dar errado...

Relatarei minha primeira experiência em viagem ao exterior. Já comecei errado: comprei um pacote de viagem para Nova York sem ter nem passaporte, condorô o visto. Graças a Deus, consegui tirar o visto sem problemas. A viagem foi em março de 2010. Eu e mais dois amigos ficamos uma semana numa das cidades mais charmosas do mundo.

Vamos elaborar uma escala de ladineza: meu amigo, Marcão (à dir), viajadorzão internacional de outros carnavais; eu, o matuto que mal sabe dar bom dia em inglês; e meu amigo Marquim (à esq.), por incrível que pareça, consegue ser mais jeca que eu.


No começo da viagem, já me envergonhei: todos levavam aquelas malas jumbo (gigantes), enquanto meu primeiro embarque internacional foi com uma cachorra. Não o animal, seu animal; mas aquela mochila, costumeiramente vista nos cata-corno da Transbrasiliana. Eu sabia que lá faríamos muitas compras. Como eu não tinha mala grande, resolvi deixar pra comprar a mala nos EUA, pois lá era mais barato que aqui.
 
Tudo lá é mais barato. É incrível quando a gente compara as coisas daqui com lá. Não é à toa que brasileiro vai ao exterior e se acaba em compras. Conosco não foi diferente.

Antes de eu falar das compras, vou compartilhar do medo que eu estava de não conseguir entrar nos Estados Unidos. Já ouvimos várias histórias sobre a antipatia e desrespeito com que os americanos tratam turistas. Pra quem não sabe dos trâmites, vou resumir: você precisa ter um visto, que não é fácil de conseguir. Mas, mesmo de posse dele, não se tem garantia que conseguirá pisar em solo americano. É que todo turista deve passar na imigração, lá em qualquer aeroporto dos EUA, e responder algumas perguntas. Caso o peão lá não for com sua cara, tiáu: prepare-se para voltar. Há casos de pessoas que descem do avião, são barrados na imigração e já são deportados de volta no mesmo vôo, sem choro e nem vela.

Desde o dia que comprei a passagem, eu tinha receio de algo dar errado comigo neste sentido. Poucos dias antes de viajar, já sabendo que ficaria cerca de 9 horas no avião, resolvi comprar um livro para ajudar passar o tempo. Lembrei da indicação dum amigo e adquiri “Rajadas da História: o Fuzil AK-47 da Rússia de Stálin Até Hoje”. Pra quem não sabe, AK é o rifle de assalto mais usado no mundo. Na capa do livro, uma foto grande do rifle. Numa época em que os americanos estão pilhados com este lance de terrorista, certamente aquela não era a melhor literatura.

O embarque foi em Brasília, com parada em São Paulo. Já em Congonhas (SP), meu amigo me viu com o livro na mão e disse: “você tá doido pra ser preso lá na imigração, né?”. Aquilo me deixou mais tenso ainda. Pensei em deixar o livro no aeroporto paulista, mas tinha lido só o começo e a história tava boa. Resolvi levá-lo comigo.

Já chegando no aeroporto JFK, em NY, pensei em deixá-lo no avião, aí matutei: “já trouxe ele até aqui, vou acabar de levá-lo”. Por sorte, deu tudo certo e fomos liberados. Enfim, chegava oficialmente aos Estados Unidos da América.

Já sabendo que o movimento de compras ia ser grande, com o típico pensamento de gente sem-costume, resolvi sair do Brasil com apenas uma camiseta e uma cueca na cachorra. Sim, pois chegaríamos em NY no fim da tarde de um sábado e no domingo já tínhamos em nosso roteiro compras em um out-let (shoppings com coleções passadas, com tudo muuuito barato).

Chegamos ao hotel, fizemos o check in e saímos para jantar. Fomos à Time Square, a esquina mais famosa do mundo. Lá paramos numa das filiais da mundialmente conhecida Hard Rock Café. É um misto de restaurante e bar. Estava lotado. Depois de uma breve espera, conseguimos uma mesa. Lógico que pediríamos cerveja. Ao olhar o cardápio, o susto: 7 dólares uma long neck. Como estávamos de férias e não queríamos fazer conta de pouca coisa, íamos pedindo uma atrás da outra. Reparei que só nós, os brasileiros-peida-pinga, que bebíamos daquele tanto.

Todas as mesas ao redor da nossa iam tendo um rodízio. As pessoas chegavam, bebiam algo, lanchavam e iam embora. Só nós que pensamos estar num boteco e ficamos naquela indagona comprida. Ainda bem que quando a conta chegou, já estávamos todos de fogo. E gente de fogo se acha rico, bonito e sabido.

Ao sairmos do restaurante, outro choque: o térmico. Estava frio. Mas era muuuito frio. Algo que eu jamais conhecia. Coisa na faixa de 1 a 2 graus positivos. Mas o costumeiro vento naqueles corredores de prédio de Nova York torna a sensação térmica ainda pior. Não deu nem 5 minutos que estávamos na rua e o pileque já tinha ido embora. Tanto dólar gasto por tão pouco...


Os poucos dias que passamos lá foram ótimos. Quase toda noite tomávamos uns querosenes e o preço era sempre o mesmo: de 6,50 a 7 doletas por cada garrafinha de cerveja.

A falta do inglês não foi problema. No geral, Marcão estava por perto e falava por nós. Quando não, a língua universal falava mais alto: Money! Só apresentar as verdinhas ou cartão de crédito que todos se entendem. É de impressionar como os americanos estão bem preparados para vender. Não é à toa que são um país capitalista daquele tanto. A barreira da língua parece não ser problema: gestos, sinais e vontade de vender e comprar promovem o entendimento de todos.

Comida americana. Valei-me. Pensaí num negócio difícil de acostumar. Seriam só seis dias, daí imaginei que comer lá não seria tão complicado. Mas foi. Americano come muito mal. Aquela coisa que todo mundo já sabe: muita gordura e açúcar. Foi sanduíche, pizza, hot dog, frango frito e tudo que é porcaria que vinha pela frente. Quando voltamos ao Brasil, fomos direto para uma churrascaria lá em Brasília (destino final de nosso vôo), para matar a saudade de nosso arroz e feijão.


As mulheres americanas também chamaram a atenção. Mas o destaque foi negativo. Passei a entender porque gringo vem pra cá e fica louco com as brasileiras. Só vimos mulher feia por lá, sejam americanas ou estrangeiras da Europa ou Ásia. Quando víamos alguma bonita, era latina: ou era da América Central ou descendente. Estas sim tinham belos corpos: seios e bundas fartas, ao contrário das sem-bundas de lá. Isso sem falar nas obesas.

Aliás, não só obesas, mas obesos. A população de baixa renda, principalmente, sofre com a questão da obesidade. Segundo o que li sobre o assunto, são eles os mais expostos ao fast-food. Os negros e hispânicos, em sua grande maioria, estavam muito acima do peso.

Outra coisa que me impressionou muito naquela cidade é a quantidade de estrangeiro. Percebia-se claramente que tinha gente do mundo todo por ali, principalmente chineses e indianos. Brasileiros também estavam aos montes.

Entrei no provador de uma loja e comecei a ouvi uma conversa em português. Um casal, em compras. O rapaz estava no provador, e sua esposa cá fora, aguardando-o. De repente, ouvi ela falar assim: “compra esta amor. Preocupa não. Chegar no Brasil, a gente começa a correr e a calça vai ficar certinha”, disse a rechonchuda e esperançosa mulher.

 

 

Geraldo Neto é radialista, matuto, pós-graduado em Assessoria de Comunicação e membro da Academia Dianopolina de Letras.