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Cartas de Nova York: Na hora da Copa, a velha guarda acode Nova York

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Pouca gente debate a máxima de que o futebol é a maior paixão do brasileiro, desafiando, em popularidade, muitas de nossas identidades nacionais, como o samba, a capoeira, as praias, e até mesmo o sonho da casa própria ou do carro na garagem. O futebol, em sua magia inefável, desperta no brasileiro a faculdade de sentir ou apreciar seu país, quiçá, suscita até o impulso de amá-lo com mais propriedade. Assim, naturalmente, movidos pelo futebol—que carrega em si a Pátria e o respeito mundial, até por ser este esporte a maior paixão individual do planeta, superando os Jogos Olímpicos—os brasileiros que residem em Nova York outrossim não discutem que o futebol é nossa maior caracterização. Resta sofrer por estar longe do país neste momento de Copa do Mundo, quando o Brasil é ainda mais grande, por conta da arte dos gramados. A sorte maior dos expatriados de Manhattan: os ex-jogadores da velha guarda da bola que vieram, muito apropriadamente, entreter a enorme turma de imigrantes.

A paixão pelo futebol nem sempre e, necessariamente, está expressa na atitude de um torcedor atento e observador, que acompanha o seu time em todos os campeonatos, sabe o nome de todos os jogadores da agremiação, conhece quem é a comissão técnica, e que preserva na memória os momentos daquele gol marcado no clímax e na glória que renderam ao seu time um título estadual, nacional ou mundial. Entretanto, mesmo sem o caráter excepcional dessa predileção extremosa que qualifica e legitima um torcedor fanático, podemos afirmar, sem cambalear, que o brasileiro em si, é atrelado ao futebol, em alguma esfera.

Provavelmente, grande parte dos leitores da seção Cartas de Nova York representa justo o torcedor obcecado, que vibra, que se agonia e que sofre quando o time perde. Tais leitores, certamente, são também quem trazem aos amigos, numa conversa na arquibancada do estádio ou numa mesa ou balcão de bar—como acontecia esplendidamente no bar do Cocho—os momentos espetaculares do futebol. Esses torcedores, elevadamente, clareiam a memória dos presentes com as lembranças dos passes de bola de nossos maiores craques, como o rei Pelé, Garrincha, Rivelino, Zico, Rivaldo, Zagalo, Bebeto, Romário, Ronaldo, Kaká—a lista é inumerável e, aqui, injusta—, e, também, dos craques mundiais, como os ingleses Bobby Charlton e Jimmy Greeves, o alemão Beckenbauer, o húngaro Puskas, os italianos Rivera e Mazzola, o espanhol Gento, o “Paco”, o argentino Maradona, enfim, as personalidades dos campos de futebol que fizeram deste esporte o orgulho da Terra.

O fato é que o brasileiro se vê envolto pela mitologia do futebol, seja, inclusive, por um simples jogo amistoso envolvendo nossa seleção canarinho, onde quer que ela vá. Em qualquer parte do mundo que se hasteia a grandeza do futebol brasileiro, o eco do nosso Hino Nacional e o sentimento da Pátria amada se unem num coro uníssono e fazem o Brasil ainda mais soberano, mais respeitado, mais autêntico e mais adorado. Foi assim, mostrando nosso futebol maravilha, que encantamos o povo desvalido do Haiti, em 2004. Nossa seleção foi recebida em Porto Príncipe por milhares de haitianos eufóricos, esbaforidos, que saíram às ruas gritando e correndo atrás do comboio da ONU que levava nossos jogadores ao Estádio Sylvio Cator, como se o próprio Haiti houvesse ganhado uma Copa do Mundo e recebia de volta o time campeão. Os haitianos, que se classificaram apenas uma vez para a Copa do Mundo, a de 1974, na Alemanha, deram à nossa seleção honrarias tais que jamais ofereceram a um chefe de Estado que visitou a ilha caribenha. No Sylvio Cator, aplaudiram entusiasmados a cada um dos seis gols que o Brasil marcou contra a seleção haitiana. Isso é mérito incontestável de nosso dom de jogar futebol bem, aliás, excepcionalmente bem.

Assim, faltando poucos dias para o início da Copa, a indagação que não se cala: será que o Brasil vai honrar esse prestígio mundial? No momento do jogo, os compatriotas que vivem em Nova York afligem-se: as meninas mordem os lábios, e os caras levam a mão à cabeça na hora de um lance perigoso. E, no Brasil, nós que estamos de fora, sabemos: por esse momento de tensão e alegria passam todos os brasileiros, até mesmo aqueles que detestam futebol, mas que têm que se render à pressão popular, quase ufanista, até mesmo no gesto da maioria em estampar a Bandeira Nacional por todas as partes, como a dizer: pelo menos de quatro em quatro anos somos patriotas e reverenciamos nosso símbolo maior.

Dos colaboradores da seção Cartas do Mundo, creio que sou o mais prejudicado nesse momento, e Átila Costa, obviamente, o mais privilegiado. Em Nova York, como em todos os cantos deste país, o futebol, no âmbito popular, quando não é rechaçado, é ignorado por completo. Dão de ombros à arte mundial. Veneram o beisebol, golfe, basquete e os esportes de inverno. Norte-americanos gostam e fazem questão, pretensiosamente, de ser diferentes. Aqui deram à nossa paixão o nome de “soccer”, para, evidente, surgir terminologia à paixão deles, o futebol americano, que aqui é chamado simplesmente de futebol. Esta é uma incógnita que eu jamais consegui decifrar, em quase uma década vivendo aqui: eles correm de um lado a outro do campo, por horas a fio, com a bola na mão, e chamam o esporte de bola no pé (foot: pé; ball: bola). Ironicamente, já sugeri dezenas de vezes que renomeiem o esporte que praticam para handebol, mas são turrões e incompreensivos. Creio que assim seguirão, infelizmente. Sugeri, também, que ao menos chamassem o que jogam de rúgbi, que é a modalidade desportiva mais próxima do que eles praticam. Nada foi aceito até agora; então, juntei-me à razão comum que pode, quem sabe, explicar a teima norte-americana:

O problema é que, embora as mais fundamentadas hipóteses apontem que o futebol tenha surgido na China, o esporte foi, de fato, revelado ao mundo pelos ingleses—os colonizadores deste país. Também os ingleses desenvolveram o rúgbi, que por sinal é o segundo esporte mais praticado na sede da Copa, a África do Sul. Bem, os norte-americanos têm antipatia estampada pelos ingleses, criadores do rúgbi, que é muito parecido com o futebol americano. Aliás, o que os norte-americanos jogam é o melhoramento do rúgbi. Assim, resolveram os filhos de Tio Sam complicar: ao invés de reconhecerem que o futebol americano é a forma evoluída do rúgbi, partiram para a provocação gratuita: “Football is what we play, soccer is what you pretend to play” (Futebol é o que jogamos, e soccer é o que vocês fingem jogar). É mais ou menos assim. Sigo, portanto, sem explicação porque o futebol deles, durante o qual usam as mãos todo o tempo, pode ser chamado de futebol. A mão é penalidade máxima em qualquer parte do mundo, com exceção, claro, da mão santa.

Na euforia de uma Copa do Mundo, planejando onde assistirei à abertura e aos primeiros jogos—haja vista que aos derradeiros e à final assistirei no Brasil—chego em casa, abro minha caixa de correios e recebo, todo alegre, o exemplar de junho de uma das minhas revistas favoritas, Men’s Journal. O contentamento durou pouco. Revista esportiva que é, trouxe um artigo sobre a Copa do Mundo. O título da matéria? “Por que a Copa do Mundo é um saco?” É de arrepiar a maestria do autor da reportagem, Matt Taibbi, em descrever tão bem o ódio que os norte-americanos, no geral, têm por futebol. Quem estiver interessado em ler o artigo, acesse: www.mensjournal.com, edição deste mês.

À propósito, não há por hora intenção de generalizar tudo. O futebol tem crescido muito nos Estados Unidos, e eles têm até alguma história. Quem imaginava, por exemplo, que aqui surgiria um craque de bola no fim dos anos 40, Joe Gaetjens, responsável, inclusive, por aquela marcante vitória de 1-0 contra a Inglaterra na Copa do Mundo de 1950, no Brasil? Quem entende de bola aqui, jamais esquece Gaetjens. É verdade, ademais, que a seleção norte-americana vem ganhando visibilidade internacional, e esta é a sexta Copa consecutiva que eles disputam, tendo, sabemos, chegado às quartas de final na Coreia do Sul/Japão, em 2002. Irônico o suficiente, pois, é ver a Inglaterra, cabeça de chave do Grupo C, comandada pelo brilhante italiano Fabio Capello, enfrentando exatamente os Estados Unidos no primeiro jogo do grupo. Acompanhemos o que Tim Howard, goleiro revelação norte-americano, reserva para o fera de bola do Manchester United, Wayne Rooney, que defenderá a seleção inglesa. Ou o que Rooney tem no farnel para Howard.

Entusiasmado e ansioso com os jogos, disse a meu irmão Banda que fosse buscar-me  no aeroporto Santa Genoveva para a final da Copa, pois estou positivo de que o Brasil estará lá. Disse-me ele, em seu extraordinário senso de bom humor: “Moço, talvez o Brasil chegue aqui antes de você”. É isso reflexo da insatisfação popular do torcedor brasileiro com a seleção de Dunga?

Talvez a mais interessante maneira de entender como se comporta o torcedor brasileiro é perceber que o Brasil é farto de gente que sabe de futebol. O senso comum, e isso é verdade aqui em Nova York também, é gerido pela influência direta de centenas de técnicos e comentaristas, e pela ação da mídia, que propagandeia cada segundo da Copa. Há gente que se abdica do que lhe é mais necessário para comprar uma TV nova; outros cancelam viagens; enfim, o povo quer ver a Copa, independente da escalação do técnico. Há, claro, aqueles que desgostam do técnico Dunga, outros que apoiam o trabalho e acreditam na seleção.

Porém, como no Brasil, aqui em Manhattan, quando a bola rola, todos os desacordos com a comissão técnica são postos de lado. Os brasileiros que vivem aqui, mesmo quando adversos à escalação, querem, sim, que o Brasil vença. Muitos dos meus amigos com os quais eu converso sobre futebol são taxativos em afirmar que a nossa seleção na África do Sul descreve a personalidade do técnico Dunga quando era jogador, naquela seleção campeã do mundo em 1994, após 24 anos sem ganhar um título. Dunga tinha um estilo especial de jogar, por isso mesmo era nosso capitão; hoje, ele também tem um modelo próprio de comandar e escalar o time. E por falar na Copa de 1994, não adianta perguntar ao norte-americano comum onde este evento foi realizado. Não terá a menor pista, e ainda vai pensar que você está falando em aramaico.


A opinião de que temos uma boa seleção, que, inclusive, representa o espírito combativo e esportista do técnico Dunga, quando era jogador, é também o modo de ver da velha guarda—assim nos disseram eles. Nossos ex-craques correram a acudir os brasileiros que vivem na Big Apple, e chegaram confiantes que o Brasil vai fazer bonito nesta Copa. Trazidos para comentar os jogos para vários veículos de comunicação que irão transmitir as partidas em português, eles prometem fazer uma festa. Reinaldo, ex-jogador do Atlético (MG), comanda o bom humor da turma toda que ilustra a foto deste artigo. Vieram, claro, tentar animar uma cidade que, no futebol, é mórbida, para dizer o mínimo. Os ex-craques, nos vários encontros com a imprensa e com os amigos, expressaram o desejo de trazer um pouco da emoção do futebol para os brasileiros que vivem em Nova York. Nobre missão, diga-se de passagem. A foto que ilustra este artigo, dou devido crédito, é de meu amigo Ricardo Pimentel, um excelente fotógrafo brasileiro que vive em Manhattan e cedeu a foto, gentilmente, à seção Cartas de Nova York. Antes de embarcar para o Brasil, farei uma entrevista com Zinho e com Nilton Batata, depois do primeiro jogo do Brasil, contra a Coreia do Norte, para saber como os ex-jogadores avaliam o desempenho de nossa seleção. Eles estarão em Nova York para comentar os jogos para a rede de televisão ESPN, que também transmitirá as partidas em português.

A Copa do Mundo da África do Sul é extraordinária antes mesmo de começar, e, na minha opinião, tem tudo para ocupar lugar histórico no mural das copas: a primeira africana. O futebol, a satisfação mundial do esporte, finalmente homenageia a mãe da Terra, também encantada por um toque de bola, e, principalmente, por campos de futebol improvisados, por pés sujos de lama, por redes furadas, por resenhas, por barulho, por xingamentos a árbitros, por tudo que o futebol representa. No mais, são também criativos como nós, ou melhor, nós como eles: os sul-africanos—e a África como um todo—também usam bucheiras, tocos ou pedras para simular a trave do gol. Com todas nossas similaridades, já parou o leitor para refletir sobre a importância histórica que será ver Nélson Mandela, aos 91 anos, de mãos dadas com o rei Pelé, no irrepreensível Soccer City, antigo First National Bank Stadium, na abertura ou na final da Copa? Dois mitos que sacudiram e modificaram o mundo com suas histórias de garra, luta e superação. Um, ícone do esporte; o outro, fenômeno da política global; os dois, venerados em todo o planeta. Bafana bafana!

E assim, nobres leitores, se faz a Copa do Mundo em Nova York. Viram bem? Há muito pouco de Copa. Mas há intenções valorosas, como a de nossos ex-craques que trazem alegria à enorme multidão de nossos co-nacionais que não estarão no Brasil para curtir uma das mais significativas copas desde 1930. O resto é aquela coisa que o leitor ladino pode imaginar: os brasileiros se aglutinando em alguns poucos bares brasileiros que transmitem a Copa via pay-per-view, pela Globo Internacional, na casa de amigos, ou nos bolsões de maior concentração. Algumas poucas bandeirolas modestas, sim, tentarão fazer a festa verde-amarela, evitando perturbar a rotina de uma cidade grandiosa que não dá a mínima, na verdade, ignora quase completamente, a maior paixão brasileira, e uma das maiores euforias mundiais, o futebol. Apenas sete países já ganharam uma Copa do Mundo; e, nós, quem mais ganhou, damos espaço a um egoísmo justificado: queremos o sexto título.

O dianopolino Fabrício Silva é mestre em jornalismo pela New York University (NYU). É editor-adjunto do jornal The Brasilians, em Manhattan, e redator do Brazilian Day in New York. Venceu, em abril de 2010, pela segunda vez consecutiva, o prêmio internacional de imprensa da Associação Brasileira de Imprensa Internacional.

 

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