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Cartas de Nova York - Carnaval em Nova York: O bom ficou na memória; hoje pode levar a melhor quem tem colares

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O carnaval, por natureza, é uma festa fantasiosa que enche o imaginário das pessoas e produz a sensação de extravasamento, explosão de felicidade. Uma vez que Gera, Mário Sérgio, Wilson Veneno e Tibrão já fizeram um ótimo trabalho explicando o contexto histórico da festa, no DnoTo Cast 10, vou direto ao ponto deste artigo: Como é o carnaval aqui em Nova York?

Para o pessoal da velha guarda, carnaval em Nova York lembra os tempos de glória dos anos 80, quando a cidade acomodava bailes de carnaval com marchinhas e purpurina, nas famosas noites dos mascarados. Era tudo de muito bom gosto, o pessoal caprichava mesmo, "Ô abre alas que eu quero passar..." Passar o carnaval em Nova York era o topo da ostentação. Os bailes do Wardolf Astoria, talvez o mais luxuoso hotel de Manhattan, eram embalados por artistas brasileiros, gente da ascendência de Emilinha Borba e Jamelão. Muito glamour.

Hoje em dia, esses bailes não existem mais, ou uns pares estão restritos a festas particulares da alta burguesia da cidade, da qual um número limitadíssimo de brasileiros faz parte. O mais comum agora são festas em discotecas, com algumas bundas de fora, tudo bem, mas sem nenhuma tradição carnavalesca. Nova York, historicamente, sempre se restringiu a festas de carnaval fechadas; não há carnaval de rua. Ninguém, é claro, resiste ao frio inflexível de -10C, em média, nesta época do ano. Assim, o carnaval na Big Apple restringe-se a bailes em locais cobertos, organizados por membros da comunidade brasileira. Uma pioneira que trouxe a ideia de bailes de carnaval para Nova York foi Nair Mesquita, uma funcionária do Ministério das Relações Exteriores que trabalhava no Consulado-Geral de Nova York nos anos 70. Depois, outros personagens foram surgindo nesta cena, gente como Jota Alves, Benito Romero, e muitos outros.

Recordo-me bem que há três anos, quando mudei de Atlanta para Nova York, um dos meus primeiros eventos sociais foi uma festa de carnaval, promovida por brasileiros e italianos num espaço onde funciona a Piola Restaurant, pizzaria na parte sul de Manhattan, famosa não somente pelas pizzas, mas, sobretudo, pela música e público brasileiros. Por questão de minutos eu não desisti da festa. A fila que dava acesso ao salão principal estava dobrando a esquina. O frio era algo em torno de -15C, com sensação térmica próxima de -20C, mais ou menos. Contudo, a espera valeu a pena. Apesar de o local não ter comportado confortavelmente a grande quantidade de foliões, diverti-me à beça. Aliás, conforto e carnaval não combinam mesmo. O bom foi cair na farra com a brasileirada e com os italianos, tudo regrado a muita brahma e com direito a fantasias, confetes, e mulher bonita à revelia.

Atualmente, as festas carnavalescas de Manhattan são muito diferentes das nossas, mesmo que organizadas por brasileiros. Quem dos dianopolinos não se lembra daqueles bailes de carnaval tradicionais realizados no Clube Social Uirapuru que varavam a madrugada, com cerveja a preço irrisório? Ou mesmo aqueles do Basa e Rodô clubes? Pois bem, os bailes de Nova York têm hora marcada para começar mas, principalmente, hora para acabar. A cerveja custa a menina dos olhos. Uma brahminha longneck não sai por menos de sete dólares, com mais um ou dois dólares de gorjeta. Esta, por sinal, é essencial, esperada, e garante atendimento rápido nas vezes seguintes. Sem gorjeta, adeus saudade! Os bartenders vão simplesmente ignorá-lo quando voltar para "mais uma, por favor".

Quando o badalo marca 3h30, as luzes piscam, é a "last call", última oportunidade para comprar bebida alcoólica. A lei municipal de Nova York proíbe a comercialização de álcool depois das 4 da matina. Então, nada de virar a noite. Por volta de 3h50 passam recolhendo as cervejas e os drinques de quem não conseguiu terminar e, então, pé na estrada, cambada. Não se pode deixar o recinto com bebida, como aliás não se pode consumir álcool nas ruas.

Geralmente, o que percebo os brasileiros fazendo aqui nos dias de carnaval é reunir a galera em casa, calibrar no álcool antes de ir às festas, chegar já meio alto, contar com a sorte em arrumar uma companhia, e voltar de madrugada para continuar o baile em casa. Entretanto, tudo deve ser feito com moderação. Existe outra lei municipal, embora não cumprida com muito rigor, que autoriza a polícia a prender os beberrões que demonstrarem claramente estar bêbados na rua. O cidadão é enquadrado no que chamam aqui de “intoxicação pública”.

Nunca se deve sair do bar apertado. Urinar no beco, como muitos fazem na rua Água Boa, ou como fazem no Pelourinho, em Salvador, pode tornar-se na maior dor de cabeça. Em Nova York, a pessoa flagrada urinando na rua é processada como "sexual predator". Isso mesmo, ofensa sexual gravíssima, que jamais sai da ficha do cidadão. Quando a pessoa com esta acusação muda de lugar, a polícia alerta a nova vizinhança para olharem as crianças, pois um predador sexual mudou-se para ali. O nome da pessoa fica também num site público disponível para consulta. Quer dizer, no possível exagero da lei de alguns estados norte-americanos, "urinar no beco" é ofensa sexual grave. Ainda assim, em algumas estações do metrô de Nova York, sistema tido como um dos mais sujos do mundo, ninguém suporta o odor de urina.

É brincadeira? Existem outras questões: os foliões devem sempre eleger uma pessoa totalmente sóbria para dirigir a galera de volta. Em dias de festas, a fiscalização, que no normal é super eficiente, é intensificada, principalmente nos túneis que ligam as outras quatro partes de Nova York (Bronx, Brooklyn, Long Island e Queens) à ilha de Manhattan. A verdade é que nenhum cidadão de bem ou de mal quer receber as penalidades de uma DUI – "Driving Under Influence" (Dirigindo Bêbado). Se parado, vários testes de sobriedade são aplicados e em seguida o velho bafômetro, tudo no local mesmo. Determinado o nível de álcool da pessoa, o folião é preso e processado pelo Estado, além de perder o direito de dirigir por um ano, e pagar multa mínima de $1.000. É melhor um carnaval mais sóbrio mesmo.

No geral, as festas de carnaval em Nova York são bastante tímidas. Não existe nenhum feriado, e a moçada pega leve para trabalhar no dia seguinte. Tudo isso muda muito em outras partes dos Estados Unidos. Em Nova Orleans, por exemplo, onde acontece o tradicional Mardi Gras, a festança rola solta na rua, com desfiles, mulheres seminuas, carros alegóricos, e similares. Mas aqui em Nova York, nada disso. No máximo, a terça-feira gorda de carnaval, conhecida como "Fat Tuesday". Neste dia, em bares mais isolados, as pessoas usam máscaras de carnaval, e os homens enchem o pescoço de colares de plástico. Tais colares valem muito. Cerveja vai, cerveja vem, em dado momento inicia-se a troca de colares. O camarada entrega o colar a uma moça e, em reciprocidade, recebe um "flash". Este flash aqui traduz-se na moça levantar a blusa e expor a peitaria ao galanteador. Que beleza! Quanto mais colares, melhor. Só é admitido em qualquer bar de Nova York, e isso é seguido com rigor, quem tiver de 21 anos acima.

Ainda assim, sentido mesmo de carnaval brasileiro não existe em Nova York. A coisa não deslancha nem mesmo nos adjacentes Connecticut e Nova Jersey, estados que abrigam uma grande quantidade de brasileiros. Então resta, na realidade, nostalgizar os tempos áureos de Emilinha e companhia no Wardolf Astoria. Ou comprar colares.

O dianopolino Fabrício Silva é mestre em jornalismo pela New York University (NYU). É editor-adjunto do jornal The Brasilians, em Manhattan, e redator do Brazilian Day in New York, realizado pelo The Brasilians e pela TV Globo Internacional.
 

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