Sobre mim

Cartas de Londres – O verão londrino PDF Imprimir E-mail
Seg, 22 de Junho de 2009 07:30
Enquanto no Brasil todo mundo está celebrando um ventinho mais frio, por causa da chegada do inverno, aqui na Inglaterra e em toda Europa, o povo celebra (e como celebra) a chegada de mais um verão.
    
Não tinha noção do quanto essa estação é tão esperada e aclamada por todos daqui. E isso porque ela só dura dois meses, talvez um pouco mais.
 
Para início de conversa, é bom explicar que aqui as estações do ano são realmente bem definidas. Verão é verão, primavera é primavera (quanta flor…Jesus, amado!), inverno é inverno (muito gelo… Jesus, apaga a luz!) e assim por diante. E, como uma boa dianopolitana ou dianopolina, tive que me adaptar a tudo isso.

O inverno é uma “coisa”. Clareia lá pelas 9 da manhã, isso quando o tempo está bom. Por incrível que pareça, às vezes, às 15 horas já é noite. (Tia Dolinha tá de prova!).

O bom de tudo é ficar colocando aquele tanto de casaco, tirar aquele tanto de foto bonita pra colocar no orkut, pro povo ver e pensar que tá tudo bem, tudo lindo! Depois de dois meses de frio intenso, já ficamos doido pro trem acabar logo, porque não aguentamos mais tanto gelo. Mas voltemos ao verão.

O verão é tudo de bom! Quando cheguei aqui pela primeira vez, ainda estava um pouco frio e, quando comecei a trabalhar em uma empresa, fazendo faxina, é claro (abafa o caso) e chegava a hora do almoço, eu estranhava. Nessa hora, quando aparecia um solzinho, neguinho já ia pro rumo dele, com gosto de gás. Ficava lá, debaixo do sol, igual besta, rindo à toa… Deixava de almoçar pra ficar lá, só curtindo a quenturinha.
 
No Brasil, quando a gente vai num boteco à tarde, por exemplo, e senta do lado de fora, logo procura por uma sombra, um pé de manga pra ficar embaixo. Em Palmas então, nem se fala! Aqui não. Quando é verão, o povo almoça e janta no sol. Isso mesmo: janta no sol também! Isso porque, durante essa estação,  4 horas da manhã já começa a clarear e, às vezes, 10 horas da noite ainda é claro. Pensa numa indaga. Ai vira festa total. Pensa num povo que gosta de cerveja? Cerveja só não. Aqui o povo gosta de vinho, de champagne, tudo que pode e o que não pode também.

Se a gente sai de casa cedo pra trabalhar, o que se vê é a rua cheia de vômito… um horror! Mas logo, logo chega o gari, de bem com a vida, ouvindo o Ipod dele, falando no celular de última geração, pronto pra limpar a bagunça.
 
Muita gente aí no Brasil pensa e afirma que o povo daqui não é feliz, que são frustrados, blá, blá, blá…O povo é feliz e muito, isso sim! Como não? Recebe salário por semana e, se não recebe, é só bater um papo com a tia Betinha (Rainha Elizabeth) que ela dá casa pra morar, e não é “casa da X” não! Dá também mais uma ajudinha básica, também recebida por semana. Tudo muito simples. Nada de bolsa família, bolsa cidadão, ou coisa parecida. É dinheiro na conta e pronto.
 
Estava outro dia conversando com uma amiga e chegamos a conclusão que não tem nada de tristeza. Já pensou: um país rico que nem esse, lindo (o Brasil também é lindo; sem criar polêmica, gente!), com uma história fascinante, centro das atenções, gente de todo o canto do mundo, festa, show, boate, praia, EMPREGO, é claro, e  com verão o ano inteiro? Ave Maria, viraria uma anarquia danada. Não ia precisar nem chamar Bin Laden pra jogar uma bomba aqui não. Iria acontecer um verdadeiro suicídio coletivo, de tanta cachaça e festa que esse povo faz nessa temporada.

Precisa ver a alegria das pessoas! Eles vão trabalhar com trajes normais, mas levam sempre a mochilinha nas costas, para poder trocar de roupa quando acaba o expediente e curtir o resto do dia.
 
A mulherada é um caso à parte. Cada uma quer vestir roupa mais curta que a outra. Pintam as unhas de rosa, de laranja. Ah… laranja também fica a pele delas. Isso mesmo! Esse povo branco daqui não consegue pegar um bronze como o nosso, daí vão fazer bronzeamento artificial, pintura à jato, tudo que se possa imaginar, para tentar melhorar a cor de “leite puro desnatado” que eles têm.

Esses dias encontrei na farmácia até um lencinho umedecido, que dá cor à pele.Tem base? Tem também spray pra tingir as pernas, o rosto, um verdadeiro arsenal do tipo “kit verão intenso”. Resultado: ficam cor de laranja. Completamente. É andar na rua e se deparar com aquele tanto de E.T. Ao invés de verde, eles são laranja.
 
O maior problema do verão europeu, na minha opinião, é fazer uso do transporte público. Todo mundo sabe que esse povo não é igual à gente. Nós somos probrinhos (a gente ainda chega lá!), mas somos limpinhos, não é mesmo?  Mas aqui, minha gente… Terrível! Pensa num metrô ou num ônibus que fede? Como a maior parte do tempo é inverno, tanto os metrôs como os ônibus só têm sistema de aquecimento. Não tem ar condicionado e nem um ventiladorzinho sequer. Dai é tampar o nariz e pedir pra Deus pra chegar logo no destino, porque é fedor em japonês, chinês,em italiano, e no indiano (o pior de todos) é terrível. Os branquinhos também fedem que é uma beleza.
 
Fica, portanto, um pouco do que acontece aqui na Inglaterra e na Europa durante esses dois meses de verão (média de 20 a 25 graus, estourando).

O verão aqui é lindo, o povo é feliz, bebe uma cerveja amuada, mas eu vou é pegar descendo pra Dianópolis, minha terra querida e amada, porque a gente pode não ser do primeiro mundo, mas, com certeza, somos o que de melhor há no mundo! Com cerveja...

A dianopolina Tais Parente vive em Londres desde 2006, sem muito glamour. Ela diz que não é jornalista, comunicadora ou mesmo  escritora. Diz ser alguém que está lá como muitos, trabalhando com dignidade e tentando proporcionar uma vida melhor à filha e família.

_________________________________________________________________________________________

O DnoTO, na sessão Cartas do Mundo, apresenta textos de conterrâneos que já estiveram ou vivem no exterior. Eles apresentam fatos corriqueiros, o cotidiano de outras culturas. É pura observação do dia-a-dia. É a oportundiade de conhecermos o mundo, sob um olhar dianopolino. Se você mora ou já esteve no exterior e tem algo a dizer, escreva pra gente.