Sobre mim
| Brincadeira séria |
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| Qua, 18 de Outubro de 2006 20:12 |
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Quando criança, brincar nas ruas de minha querida cidade (Dianópolis-TO) com os amigos sempre foi minha atividade predileta. "Pé-de-rua" era o apelido que minha mãe me atribuía naquela época. A única coisa que me deixava em casa eram as minhas bugigangas (cacos de telhas, pedras, barquinhos) para brincar no tanque de lavar roupas, o velho quintal, onde brincava de carrinho e lá fazia as cidadezinhas, e claro, a velha TV. Lembro-me de uma época que sabia toda a programação de desenhos animados da manhã...Era fascinado por Super-heróis, Jogadores de Futebol... Meus pais até tentavam impor alguns limites em relação a TV, mas como eles trabalhavam o dia todo eu freqüentemente assistia a todos os programas que bem queria. Adorava assistir Liga da justiça, e brincar de representá-los na rua com os amigos. Resolver enigmas, ser forte e inteligente, ser reconhecido por todos pelo notável trabalho contra o crime. Por isso, também sempre gostei de brincar de polícia e ladrão. A fantasia toda consistia em ser o melhor, o mais rápido, apanhar o bandido, ganhar notoriedade como bom profissional e pessoa do bem. E isto não era um sentimento só meu, era o de meus amigos também. Eu cresci e a TV continuou presente em minha vida. Com o tempo, por causa das cenas que assistia e pelos comentários que ouvia de meus pais, comecei a me preocupar muito mais com o mundo. Me apavorei com a crescente violência e a impunidade diária. Envergonhei-me profundamente com a “corrupção” em nosso país. Chorei com as cenas do sertão brasileiro e seus órfãos. Odiei os políticos, os bandidos e a “polícia”. Fiquei adulto e a TV me acompanhou. Hoje sinceramente sinto saudade da minha infância! Saudade das coisas boas, é claro! Saudade das brincadeiras, dos sonhos e da paz que reinava em minha cidade. Por conta deste saudosismo, fiz um exercício comigo mesmo e tentei imaginar, se eu fosse criança novamente hoje, qual o personagem da TV que eu gostaria mais de fantasiar e brincar com os amigos. Antes de escolher o mais legal, relacionei alguns: a) um mutante, com muito, mas muito poder de destruição; b) um cara bonito, rico, gostoso, sensual, com uma máscara e traseiro a mostra, poderoso por conquistar todos as mulheres, e claro, atrair todas as câmeras e flashes; c) cantor de pagode, amigo de traficante e herói por ser vítima do sistema; d) seqüestrador da mãe de jogador de futebol; e) um policial civil ou militar; f) "Chefão do Tráfico" em uma favela qualquer, pode ser até do interior, determinar toques de recolher, comandar a comunidade local, ser respeitado, temido, arrecadar muito dinheiro e ajudar a comunidade frágil e esquecida, colecionar armas, determinar quem vive e quem continua morrendo, enfim, ser reconhecido por um feito notável - localmente, nacionalmente e, com muito profissionalismo, até internacionalmente. Realmente me surpreendi com este pequeno exercício! Que personagens mais estranhos estes que relacionei...Bom, são os anseios de uma criança apenas. Que acompanhava muito a TV. Esta criança imaginária procurou por policiais notáveis, combatentes do crime, homens honrados. Não assistiu nenhum noticiário que exaltasse a honra de um policial corajoso, que morreu durante o combate ao crime organizado. Não conheceu nenhuma mãe que "morria" de orgulho do filho porque foi condecorado por se arriscar e descobrir diversos cativeiros, e ainda ter recebido o prêmio de Policial do Ano das mãos do próprio Governador... Logo a “esperança” começou a fazer minha cabeça, resolvi acrescentar mais um na lista; g) um “Herói Anônimo do Ano”...Diante desta lista e ainda como menino imaginário, inocente, manipulado e fantasioso, cheguei a grande conclusão: "Chefão do Tráfico" eu serei! Na minha lista, este era o mais empolgante e famoso papel para representar e brincar. Fiquei mais empolgado ainda quando deixei a fantasia se confundir com a realidade e pensei - "quando crescer, eu vou ser o Traficante do Ano !". Quando a fantasia foi embora e a realidade se instalou novamente em minha mente, tive medo, muito medo. Questionei-me por ter escolhido o personagem do mal, em vez do personagem do bem...Senti uma leve dor de cabeça e decidi me distrair um pouco. Imediatamente liguei a TV. Mário Sérgio Mello Xavier |



