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Bartolomeu PDF Imprimir E-mail
Qua, 29 de Setembro de 2004 17:18

O texto abaixo é do dianopolino Dídimo Heleno Póvoa Aires, advogado e residente em Palmas. Publicado na editoria Tendências e Idéias do Jornal do Tocantins de hoje.

Bartolomeu

O Brasil é um país de povo inteligente e criativo. Muitos seriam os benefícios se houvesse investimento e incentivo para acolher os nossos melhores talentos. Em todos os rincões brasileiros, sempre há pessoas detentoras dos mais variados dons artísticos: são poetas, músicos, comediantes, repentistas e tantos outros. Em cada canto deste imenso território é possível vislumbrar um Patativa do Açaré, uma Cora Coralina ou um Geraldinho.

Existem pessoas que nasceram para o estrelato, para brilhar. Talvez por falta de uma política pública voltada para esse fim, muitos passam pela vida exibindo o seu talento a uma platéia minúscula, restrita ao seu círculo de convivência. Assim é com Edilton Bartolomeu, conhecido por “Ediltão”, “Bartola” ou “Caixão de Osso”.

Bartolomeu é daqueles sujeitos que nasceram com o dom da comunicação. Um simples acontecimento pode se transformar no mais inusitado dos fatos, quando narrado por ele. Edilton é capaz de prender, por horas seguidas, a atenção de todos os que têm o privilégio de ouvir os seus relatos. O seu jeito peculiar de transformar coisas simples do cotidiano em situações hilárias, a sua singular forma de se expressar, o seu gestual exagerado e a incrível capacidade de memorização, fazem dele um dos raros talentos do nosso Estado.

Mas Bartolomeu vive em Dianópolis, ignorado pela mídia, contando seus causos em mesas de bar nos finais de semana, nas esquinas e nas casas de amigos, para uma pequena e afortunada platéia de dianopolinos, acostumada e afeiçoada ao talento do cidadão ilustre.

Edilton é um sujeito magro, alto, empertigado, dançarino fino. Também esbanja sua habilidade na arte da marcenaria, dando vida à madeira, construindo com ela esculturas que trazem a marca do estilista de alto nível. Em muitos lares dianopolinos é possível apreciar móveis que foram talhados pelas mãos desse contador de causos que, nas horas vagas, exerce a profissão que aprendeu com o pai, o lendário músico Zé de Bento.

Como todos os artistas, Bartolomeu difere dos meros mortais que o cercam. Suas observações jocosas são, a um só tempo, apreciadas e temidas. Ser personagem dos causos “bartolomeunianos” é motivo de preocupação, pois os seus floreios são capazes de colocar o protagonista em situações vexatórias. Porém, é um privilégio fazer parte desse universo, tanto assim que poucos são os que se sentem incomodados com seus comentários.

Seu meio de transporte é sempre uma Caravan. Embora o modelo não seja mais fabricado, ele sempre encontra uma forma de adquiri-lo, e seu corpo de faquir é visto transitando pelas ruas da cidade, atrás do volante do referido automóvel. Em época de eleição, costuma transformar o veículo em “carro de som”, oportunidade em que vocifera contra os pobres adversários, contando causos públicos e “despindo” os políticos no meio da rua. Ediltão é o tipo de pessoa a quem todo homem público ajuizado deve dispensar amizade.

Bartolomeu é um talento inquestionável. Embora seja costume no Brasil homenagear as pessoas após a morte, entendo que o reconhecimento deve ser prestado quando ainda vivas. Batizar praças, ruas ou prédios públicos com o nome do homenageado, é, na verdade, mais um tributo à família que ao falecido. Além disso, Bartola é um homem que não combina com esse tipo de distinção. Não teria a menor graça um endereço que se escrevesse assim: “avenida Edilton Bartolomeu da Silva, nº 100”. Mais interessante seria se nos acostumássemos a reconhecer os talentos em vida, dispensando-lhes a reverência que merecem.