Recebo a notícia da demolição do Bar do Cocho com muita tristeza.Naquele lugar, eu também bebi, vivi, já sorri e chorei e fiz muitas amizades. Muito embora, com o passar dos anos, as vidas acabam tomando caminhos diferentes, mas tenho o prazer de fazer de ter feito parte daquela turma. Foi uma época de grandes alegrias, sem dúvidas.
Quem nunca sentou ali numa sexta-feira à tardezinha para "quebrar umas"? Sentar ali e falar da vida alheia e dar boas risadas. Prazer inigualável, beber aquela canelinha, beber uma gelada e ouvir os causos, as novidades contadas por meu amigo Frans Carlos, sem falar no delicioso tira-gosto de fígado feito por ele. Por falar em tira-gosto, fomos agraciados dezenas de vezes com a visita da vizinha ilustre, Dona Zilnar, que com sua generosidade peculiar e, talvez, o inexplicável gosto de ver o povo indagando por ali, saía da sua casa e levava tira-gosto pra gente, lá no bar.
Ali, também, foi um um dos lugares em que pude refinar o meu gosto musical, como por exemplo: Fagner, Vozes a Acordes, Zé Ramalho, Belchior, Geraldo Azevedo, Maria Betânia, Caetano Veloso, Alceu Valença, enfim... Sim, lá escutávamos boas músicas, graças a Deus!
Era gostoso olhar em volta e ver várias gerações reunidas, confraternizando e contando suas histórias. Em época de férias, isso se tornava mais frequente, pois muitos "batiam ponto" todos os dias ali. Quem nunca ouviu da mãe: "pega suas coisas e muda lá pro Cocho logo!"?
Daquela época, o fato que mais marcou a minha vida, foram os acampamentos que a gente fazia toda Semana Santa, para um local chamado "Vai Quem Quer", na beira do Rio Manoel Alves.
Eram quatro dias de acampamento; Só ia homem e que fosse da Turma do Cocho; Os novatos só iam com apreciação dos veteranos; Nada de cerveja; Só levávamos pinga 51 (algo em torno de 10 caixas com 12 litros cada), limão e gelo à vontade e uma fartura de comida; A viagem era na carroceria do caminhão de Bida (apelidado de Scania e pronunciava-se o "S" com som de "X"); Saíamos de DNO sempre na quarta-feira à noite e nunca sobrava pinga!
O acampamento se resumia a um enorme barracão coberto de palha na barranca do rio. Redes armadas, fogo aceso dia e noite, formação das equipes para comandar a cozinha durante os dias e comida não faltava. Era tradição inquestionável, beber um copo de sumo de tipí, na Sexta-feira Santa logo no raiar do dia. Segundo os veteranos, tal ritual era pra "fechar o corpo".O acampamento tinha leis e costumes próprios. Quem não se adequasse, não ia mais e ponto final! Alguns desentendimentos eram normais, visto que as cabeças estavam cheias de pinga e às vezes alguns não aguentavam a "pressão" das brincadeiras.
Num desses em que fui, me marcou uma viagem de volta à cidade. Saímos do acampamento, por volta do meio dia e só chegamos em DNO às 21 hs. Na estrada haviam vários colchetes e cada abertura de colchete, durava em torno de 1 hora e uns 4 litros de pinga. Às vezes, era deixado pra trás a pessoa que descia para abrir o colchete e este tinha que sair correndo atrás do caminhão. Quando se avistava algum bicho, a exemplo da siriema, os mais afoitos desciam do caminhão a saíam correndo atrás da ave no meio do cerrado... era uma farra gostosa!
Vou guardar eternamente na lembrança tudo que vivi durante aqueles anos da Turma do Cocho. Quanta saudade!
Robispierre Melo Xavier, auditor fiscal da Receita do Estado do Tocantins




