Os mapas, catálogos e folhetins estão sempre ficando mais mentirosos, ante o capricho incorrigível do tempo, em modificar lentamente, lugares, paisagens, pessoas. Por isso, o Bar do Cocho silencia o campo de sua atividade, para entrar, definitivamente, para os anais da história de Dianópolis-TO. Assim foi o Bagó-Bar, o Casarão, o Varandas. Agora, restam, certamente, as imagens registradas num subconsciente, nas fotografias, nos escritos. E, por fim, as músicas que eternizarão os momentos, as pessoas... Conheci o Bar do Cocho ainda sob a gestão do saudoso Francisco Lopes (Chiquinho do Cocho). Após, seus sucessores, e de modo especial, seu filho Frans Carlos Aires Lopes, meu contemporâneo, que tomou as rédeas do local, ocasião em que, nos idos dos anos 80, tive o privilégio de vivenciar muitas oportunidades de prazer, felicidade e descontração.
Lá no alto, da dupla avenida, que homenageou Veríssimo da Mata, antes de chegar à igreja matriz, está o ambiente, Bar do Cocho. Ali, gerações se encontravam para, nos vapores etílicos do álcool, descontrair, cantar, comentar sobre os ensaios afetivos gloriosos e mal sucedidos. Lá, era o porto seguro da isonomia. Nunca se viu lugar, onde os iguais e desiguais seriam tratados de forma tão igualitária.
É certo que, em nossa volta, tínhamos alguns heróis de época, que com os seus silêncios, nos davam inúmeras lições. Eles, ainda estão vivos em nossas mentes: Jóve, Valdeci (Do finado Valtim), Xero, Ivan (De Eduardo), Artuzinho, Zé Henrique, além de outros tantos anônimos.
O ambiente era mais ou menos assim: Um chega, gritando, tô morrendo de ressaca, me dá outra! O outro insatisfeito com a derrota do seu time de futebol, bebe pela tristeza; o outro, pela vitória. De outro lado, há alguém querendo encontrar soluções para os problemas da vida, da cidade, enfim, do Brasil. Daqui a pouco, todos estavam ricos, empolgados, donos da razão, após terem criados as soluções mais mirabolantes, para sanar aquilo que os homens aprenderam a chamar de conflitos existenciais.
O certo é que a catrevagem amoava em torno de copos e miniaturas de cochos, que acondicionavam sal e pimenta. Alguns menos contidos, e emotivos, choravam. Isso me faz recordar, meus amigos, Tadeu, Deputado Gil (William), Peryzinho, além de outros. Também pudera, conter tanta emoção com o repertório musical de Coquinho, Nego Pan, Digão, etc.
Cabe lembrar que inúmeros apelidos nasciam aos visitantes. Contudo, ao final de cada jornada boêmia, todos se abraçavam e se cumprimentavam inúmeras vezes, com se fossem autênticos deputados. Os mais jovens aprendiam, logo, logo, com os mais velhos. E, ai daquele que fosse embora mais cedo, certamente correria o risco de ir com sua orelha pegando fogo, pela tesoura (fofoca), que atrás certamente iria colocá-lo na roda.
No início, o ambiente era quase particular para homens. Poucas mulheres se atreveriam a entrar no recinto, salvo Dona Zefa e sua filha Simone, muito timidamente, para nos trazer o famoso tira-gosto de fígado, à palitos, até hoje jamais superado na cidade. No entanto, as filhas do lugar, que estudavam em Brasília e Goiânia, quando regressavam nas férias de Julho, ou final de ano, foram vencendo as barreiras e preconceitos. Aliás, ao final, o grupo “Lindas e Maravilhosas” e as inesquecíveis componentes da “Rua da Letra” se agregaram ao bando, em definitivo. O resultado foi pura felicidade.
É certo que Frans Carlos, talvez, tenha pago valor elevado, por todos nós, para manter o ancoradouro dos nossos desabafos e descontração. Certamente, com a cultura do fiado, apesar dos slogans repudiantes afixados na parede, fosse melhor esquecer a sua antiga caderneta, em nome os instantes glamourosos.
Dizem os antigos que quem faz o bar, o boteco ou botequim é o dono. E, isso, eu e meus contemporâneos devemos a Frans, por mais esta página na história do Duro, onde fomos os seus atores e fizemos diálogo interessante com a sua pessoa. Ficaram, sim, boas lembranças. E, certamente, Frans, foi o responsável por isso.
Certamente, as paredes daquele ambiente, que já receberam tantas fotografias, dos seus visitantes e adeptos, em circunstâncias inusitadas, guardam registros, que nem mesmo o confessionário do padre mais ilustre, teve o privilégio de ter, em dias de adeptos mais feverosos aos dogmas religiosos.
Raimundo Fagner, Roberto Carlos, Zé Ramalho, além de outros nomes da MPB, pela vitrola, entoavam suas canções, que iam passando de geração à geração. Aqui e acolá os cancioneiros debruçavam sobre a viola e, entre gritos, foguetes e algazarras, as vozes, afinadas ou não, iam desabrochando, em nome da felicidade. É certo que, não raras vezes, esquecíamos de retornar aos nossos lares, para o encontro com a namorada. E, aí, a mentira perdoável, do bom advogado, tinha que está afiada, na ponta da língua, para garantir a sequencia do namoro.
O Bar do Cocho pode perder o seu espaço físico, nas listas telefônicas, nos calendários. Certamente, o capricho do tempo, aliado, quem sabe, a possíveis questões econômicas, jamais apagarão os registros nos subconscientes daqueles, que não raras vezes, conheceram momentos felizes, de prazer. Aliás, cabe refletir, que aquilo que se leva, desta vida, são apenas os bons momentos. E, estes serão eternizados pela felicidade dos filhos do lugar. Eis aí o nosso brado, terno, romântico e inconformado de nostalgia.
Que o eco da nossa voz, chata, rouca, ou irrenitente, não raras vezes embriagada, através de inúmeras canções, sussurre por muito tempo naquelas imediações, para que o novo, o moderno, saiba que, naquele lugar, a felicidade, o prazer e a descontração já foram território comum.
Aliás, neste contexto, faço minhas as ilustres palavras do primo e conterrâneo, Ítalo Marcel, em artigo, neste sítio. Ao final, assevero, que não serão novas roupagens físicas e estruturais que apagarão os sonhos do velho clube de esquina e da velha calça colorida.
Zilmar Wolney Aires Filho (Zilô), advogado e professor universitário, especialista em Processo Civil e mestrando em Direito Civil




