Sobre mim
| Banda de cuscuz |
|
|
|
| Qua, 29 de Outubro de 2003 13:56 |
|
O caso abaixo nos foi enviado por Robim. Era um mês frio e logo cedo, como de praxe, a família estava sentada à mesa Uma meninada falante, com o zói ainda remelento, cabelos assanhados, tirando O pai de família era um senhor de cenho fechado, sisudo e autoritário. Calado, de poucas palavras, até hoje ele é assim. Os nomes dos personagens serão trocados pra preservar, além das suas vidas íntimas, a minha cara!! Pois o personagem principal é um sujeito conhecido por sua força bruta, jovem bravo, destemido, enfim, não quero apanhar! (risos) À mesa o colossal café da manhã: leite quente, café, gemada, bejú de tapioca Um desses meninos, não satisfeito com o banquete servido pela sua mãe, ainda pegou um enorme pedaço de cuscuz e saiu comendo, lambendo os beiços. O chefe da família, por sua vez, teria que ir ao sítio próximo à cidade. Na garagem um carro de luxo para a época. Uma Rural. Pra quem não conhece uma Rural, trata-se de um veículo de grande porte, equivalente à uma Blazer nos dias de hoje. Carro pra família grande e ainda pra labutar com a roça. Era uma carro invejável, de ótima conservação, mecânica impecável, pneus "licrinhos", tanque sempre cheio... Lá vai o Sr. Chefe da família funcionar seu carro para partir rumo ao sítio. Quando tentou dar partida no motor, nada!! A o motor nem "molgou". Tentou novamente e nada do motor da loba funcionar. Sim, era assim que chamavam a velha Rural, "lôba". Resolveu então ir até a porta da rua pra ver se encontrava algumas pessoas para ajudar na empreitada de empurrar a Rural, pois é um carro extremamente pesado, visto sua robustez. Chegando à porta, olhou para a rua, para cima, para baixo e ninguém perambulando por ali àquela hora da manhã. Só a meninada brincando: primos, amigos, parentes, aderentes...e entre elas o menino com o pedaço de cuscuz à mão. O Sr. houve por bem chamar a garotada. Arrebanhou todos e foram tentar empurrar a Rural. O Sr. como era o único adulto na empreitada, resolveu ficar do lado de fora do carro, com uma das mãos ao volante e ainda empurrando carro. - Umbora cambada de lumbriguentos!! Bradava o Sr. Era menino fazendo tanta força que alguns peidavam, outros gemiam, outros escorregavam e metiam a cara no barro, outros arrebentavam o botão da sandália havaiana e começavam a chorar com medo de apanhar quando chegassem em casa...e lá estava o sabichão do menino com o cuscuz numa das mãos e empurrando a Rural com a outra mão. Eis que essa empreitada acaba por culminar numa ocorrência inusitada. De repente a Rural desgovernou, despinguelou na ladeira e foi aquela gritaria; calça o carro, calça o carro, calça o carro...pega daqui, pega dacolá...valei-me meu Deus do céu...chamaram todos os santos...uma correria!! Daí, numa olhada para o lado o Sr. viu o menino que estava mais próximo da roda dianteira da Rural e gritou: - Fulano, calça o carro!! Caça uma banda de tijolo e calça o carro!! Arruma uma pedra e calça o carro, fulano!! Anda!! O menino, assustado, estremeceu ao ouvir a voz imperativa de seu pai. Olhou rapidamente para um lado e para outro e não viu sequer um torrão pra calçar o pneu. Ao jogar o pedaço de cuscuz sob o pneu, o viu ser esmagado pelo pneu. Chorou, rolou no chão, inconformado com tamanha crueldade. E ainda os primos e amigos estavam dando risada da sua cara!! A Rural foi esbarrar no meio fio. Dizem que até hoje esse rapaz não gosta de ver falar sobre esse assunto. Pudera não é? Depois do acontecido todos os moleques da rua só o chamavam pelo apelido adotado: "Banda de Cuscuz". Era: " Umbora jogar enfinca batente Banda de Cuscuz?", " Umbora jogar bila banda de Cuscuz?", "Umbora jogar pião Banda de Cuscuz?", "Umbora pegar caju e puçá na Beira D' Água Bandade Cuscuz?". Simplesmente bizarro!" O texto foi publicado dia 19 de maio de 2005 no caderno Arte e Vida do Jornal do Toncantins. |



