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Avacalhação e insensibilidade

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Corre na internet uma campanha mundial contra o apedrejamento da iraniana Sakineh Mohammadi-Ashtiani, acusada de ter traído o marido. Pois é, no Irã, em pleno século XXI, ainda se pratica essa modalidade de pena, que foi vista pela última vez no Antigo Testamento e no Alcorão.

Como é amigo de Ahmadinejad, presidente daquele país quase medieval, Lula foi consultado a respeito do assunto, no sentido de apoiar essa pressão internacional para evitar que a iraniana seja sacrificada. O nosso caríssimo presidente, num primeiro momento, respondeu que “as leis dos países devem ser respeitadas para não virar avacalhação”. Isso nos permite raciocinar que Luiz Inácio avacalha as leis eleitorais do país, cada vez que é multado.

É impressionante a insensibilidade do nosso presidente. Num segundo momento, em tom de galhofa, ao falar a respeito do apedrejamento no Irã, cantarolou o samba de Ataulfo Alves, numa alusão aos homens que traem suas mulheres: “atire a primeira pedra, ai, ai, ai...”. Ouviu-se uma gargalhada sonora dos bajuladores presentes. Como se não bastasse o mau gosto em fazer gracejo com algo tão sério, ainda sugeriu que é dado a traições conjugais.  

Essa atitude é a mesma demonstrada quando se lixou para o pedido dos presos políticos cubanos; a mesma indiferença com os boxeadores também caribenhos que imploraram clemência, mas mesmo assim foram mandados de volta para o cadafalso; é a mesma desfaçatez que usa para defender o terrorista-assassino italiano Cesare Battisti, dando-lhe colo como se fosse um injustiçado.

Lula está na contramão do bom senso. Seu sorriso largo e sua compreensão são sempre reservados para caudilhos como Evo Morales, Hugo Chaves, Rafael Correa, inúmeros ditadores africanos e, claro, o mais novo membro do clube, o xiita persa. A pobre mulher iraniana está na iminência de ser submetida a uma pena degradante e Luiz Inácio acha que interferir para que isso não aconteça é avacalhar as leis do Irã.

E nós sabemos que a voz de Lula é uma das únicas que o pigmeu louco do Irã ainda escuta. Ele, Lula, não se constrangeu em fazer apologia aos palestinos em plena visita a Israel, nem se ruborizou quando foi à televisão dizer que caixa dois é prática corriqueira e normal no país. Talvez alertado pelo absurdo que disse, após declarar o carinho que sente por Ahmadinejad, resolveu dizer outro: “Se essa mulher está causando incômodo lá no Irã, nós a receberemos de braços abertos no Brasil”. Observe que na visão de Luiz Inácio é a vítima que incomoda, e não o fato de que ela será executada em praça pública de forma cruel.

Outras mulheres já foram mortas por apedrejamento no Irã, mas o caso de agora teve essa repercussão internacional por conta dos filhos da acusada, que expuseram o fato na rede mundial de computadores, pois afirmam que a mãe é inocente e foi julgada sem direito a qualquer defesa.  Ainda que tivesse cometido o crime e sido respeitado o seu direito de defesa, não justificaria a aplicação de uma pena aviltante como essa. Mas o governo iraniano mostrou toda sua complacência, ao suspender a pena de apedrejamento; agora, Ashtiani será apenas enforcada.

Enquanto as supostas adúlteras persas têm suas cabeças esmagadas por pedras ou são enforcadas, o nosso líder maior afaga o presidente do Irã e desfila pelo mundo africano, visitando ditadores que parecem saídos de um filme de ficção. Esteve até na Guiné Equatorial, cujo presidente, Obiang Mbasogo, é acusado internacionalmente de enriquecimento ilícito e violação dos direitos humanos. Em casa, o ditador africano é conhecido pelo simpático apelido de “canibal”, já que teria o inusitado costume de comer o coração de suas vítimas. Embora ele governe um dos países mais paupérrimos do mundo, é o oitavo homem mais rico do planeta, na lista da revista Forbes. Isso sim é avacalhação!
                         
Dídimo Heleno, advogado, membro das Academias Palmense, Dianopolina e Tocantinense Maçônica de Letras
 

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