Na infância, eu até achava meio impositivo, mais depois assimilei a importância, de ter que tomar e receber bênção ao levantar e ao dormir. Assim como fazer o “pelo sinal da santa cruz [...]”. E, no final, concluir, já bocejando, o santo anjo do senhor, meu zeloso guardador [...]. Agora, as minhas preces são mecânicas, na grita do trânsito. Ou seja, no exato momento que sinto falta de pedir bênção e ser abençoado. Enfim, eu fazia preces, e não sabia!Hoje, cientifico-me que, pelas manhãs, não havia o apito do microondas, notificando a requenta dos pré-cozidos e congelados. Mas, sim, café-com-leite, fresquinho, regado a beiju, cuscuz, cobertos com manteiga de leite.
Nós até aprendemos a comer pizza, lasanhas, estrogonofes, etc. Mas, na hora dos vamos ver da fome, bate a saudade da comidinha lá de casa, como bem asseverou Herbert Viana na ontológica canção: Entrei de Gaiato no Navio. Por isso, rubacão, serigado, picado de inhame, de mandioca, de maxixe, regados a carne-seca, ou moída, serão, por todo e sempre, insubstituíveis.
O churrasco de picanha, que agora é território comum, é herança dos gaúchos, que migraram da região sul para o norte. Mas, eles não podem fazer esquecer os fritos e farofas, tantas vezes acondicionados em latas de leite em pó, como garantia de um boa viagem nos rasga-roupas (Viação Paraíso). Enfim, hoje, em volta de tudo está o churrasquinho. Laerte de Valdó pode até se gabar da freguesia. Mas, jamais irá superar o espetinho de Dona Pequena, nos idos dos anos 70, em frente à velha igreja matriz. Ele será sempre inesquecível.
Quantas vezes almoçamos, sem tantas regras e etiquetas. Irmãos mais velhos com os mais novos, no mesmo prato, na mesma vasilha. Quantos talheres e panelas lavamos juntos, usando um avental, morrendo de vergonha das meninas do colégio nos flagrar nestas práticas. Mas, éramos felizes, mesmo os mais novos utilizando roupas usadas dos irmãos mais velhos, quando não mais lhe serviam.
As máquinas de lavar roupa, de agora, lavam tudo, inclusive sem o zelo de retirar os chicletes, papéis-moedas e anotações dos nossos bolsos. E, ainda torcem, enxáguam, secam. Não é que tiraram, a um tempo só, o trabalho da lavadeira e gomadeira. É que os quaradouros não exalam mais aquele cheiro bom de roupa lavada, apenas com sabão de barra canoeiro, sem os alvejantes e produtos químicos. Sem contar que, na sequencia, o sol fazia, gratuitamente, o retoque final de extirpar as últimas bactérias das vestimentas. Roupas, agora, se enxugam estendidas atrás da geladeira, atrás das portas, na cozinha, na garagem, na sala de estar. Além, é claro, daquele cheirinho de mofo.
Eu achava que as buchas vegetais, que também areavam panelas, tão comuns ainda nas feiras livres, por cá, eram, por demais, extravagantes com a pele, no banho. No entanto, os sabonetes líquidos, de agora, e tantos cremes, xampus, para isso e aquilo outro, podem até ocultar, por alguns instantes, as notícias da seca, disfarçando os mapas da pele, através das inesquecíveis tiriricas. Todavia, nos deixa a impressão de que a pele nunca se lavou, e vai ficar sempre escorregadia.
Mas, nem todo mal é tão ruim assim. Aliás, quantas vezes muitos tiveram que improvisar, no meio do cerrado, folha de simbaíba (sambaíba) ou sabugo de milho, em lugar de papel higiênico, em dias de desarrancho intestinal. Por isso, cabe parafrasear o cancioneiro regionalista, Genésio Tocantins: “Eles eram jeca, mas eram jóia”.
Me recordo ainda de meus professores de primário e 1.º grau, como meus substitutos pais. Professora Floreni, Joatan, Tonys, Carlos Alberto Wolney. Professor a gente nunca se esquece. Agora, ninguém chama o educador, de professor. Ou seja, quase sempre se houve a expressão chula: Tio, tô vazando! Que fazer?! Por isso, em Terra de presidente analfabeto quem tem um olho é rei.
O uniforme escolar, o sinal de respeito. O sonho de usar o tênis conga, imaginem, agora, um dia, o kichute. Ouvir, durante o recreio (agora, intervalos), as baladas de Benito de Paula. Por fim, devassar o proibido, sacro, e o impenetrável mundo das freiras naquele Colégio.
Quando cantávamos o hino nacional, no pátio do Colégio, em comemorações cívicas. Havia respeito, sentimento, posição de sentido. Hoje, só há arrepios, na abertura dos jogos da Seleção de Futebol. O pavilhão nacional é utilizado como calcinha, enfiada nas entranhas de algumas moças mais atrevidas. E os símbolos e armas nacionais motivo de chacota. Aliás, quais são mesmos os símbolos?!
É certo que se os milicas nos colocavam a ouvir algumas músicas ufânicas dos Incríveis, como: “Esse é um País que vai prá frente [...], bem assim aquela outra, “Eu te amo meu Brasil [...]”. Ou, pior ainda, a ontológica, da campanha do MOBRAL, de Médici: “Você também é responsável, então me ensine a escrever [...]”, da dupla, Dom e Havel. Contudo, nós saíamos, pela tangente, cantando Vandré: “[...] Bem vamos embora, que esperar não é saber, quem sabe faz hora, não espera acontecer.[...]
Quando eu precisei de segurança, eu sempre tive certeza que o lugar mais tranqüilo não é era perto da polícia, salvo raríssimas exceções. Desde que a polícia passou a vender segurança para traficantes, eu tinha certeza que o grupo Titãs não estava assim tão equivocado, ao pronunciar: “Polícia pára, quem precisa de polícia.” Outrossim, quando prenderam José Arruda, em Brasília, eu quase acreditei que tinha chegado ao fim aquela era da lei do mais forte, do crime de colarinho branco não punível. E, por fim, que iríamos desmistificar Nelson Hungria, afirmando que a cadeia pública, não seria apenas para puta, pobre e preto. No entanto, observo que um chefe de quadrilha, pode dirigir o país, ser blindado pela mídia, e não ser preso.
Eu sempre acreditei em exceções. Aliás, nós, as aves que migraram do antigo norte goiano, hoje sudeste do Tocantins, e sobrevivemos, é um exemplo disso. Todavia, quando Rita Lee asseverou que os trombadinhas, de hoje, são os políticos de amanhã, eu posso acreditar, e também não concordar, que, pelo voto, pessoa criminosa e guerrilheira, de ontem, venha ocupar o cargo mais alto do País.
Não é só dizer saudade, asseverava Renato Russo. É que sem ela falta alavanca para construir e viver no futuro. Mais que isto, equivocou-se Drumond de Andrade em dizer que, no meio do caminho havia uma pedra. Havia, sim, um referencial. Um marco, indicando sempre a hora da volta, depois de cada revoada feliz ou infeliz.
Se hoje tenho a liberdade de lançar um olhar epistemológico sobre a coisas, antes que aquele vetusto e dogmático, a licenciatura de um mestrado não me despirá do verniz das coisas lá de casa. Não há como viver divorciado delas. Elas são a minha história, a minha gente, a minha eterna nostalgia. Roupas, dialetos, posturas, a gente muda de acordo com a estação. Costumes, tradição, folclore, enfim, cultura, estão insculpidos na alma do Sertanejo. Por isso, é sempre bom lembrar, o saudoso Zé Leal, com seu acordeon fictício: “onde é que vai meu pombo roxo se a lagoa já secou [...]”
O homem que vive com o novo, sem fazer um link (ligação) com o velho, alienou-se na perspectiva de não mais fazer parâmetros, comparações. Vive-se sob a égide do descartável, e como tal, empresta sua conduta, palavras e comportamento a esses mesmos contornos.
Zilmar Wolney Aires Filho (Zilô), advogado e professor universitário; especialista em Processo Civil e Mestrando em Direito Civil




