Durante as viagens, além de trabalhar, agente sempre aproveitava para dar umas linhadas (pescada) nos finais de semana, nas cidades que possuíam rio. Tivemos o privilégio de passar um desses finais de semana na cidade de Pedro Afonso, que é conhecida como a “capital da soja” no Tocantins. Ela fica cerca de 200 Km de distância da capital Palmas. Para quem não conhece, o município foi criado em 1903, tendo suas terras desmembradas do município de Porto Nacional que, aliás, pelo que se nota, era um município bastante extenso. Pedro Afonso só foi elevada a categoria de cidade em 1937 e o nome da cidade originou-se de uma homenagem feita pelo Sr. Rafael Taggia, fundador da cidade, ao príncipe D. Pedro Afonso de Orleans e Bragança. Pedro Afonso é privilegiada também por ser cercada por dois grandes rios, Tocantins e Sono. É famosa também pelas belas praias que fervilham de gente no mês de julho.

No cair da tarde do dia 18 de agosto de 2008, num sábado ensolarado, resolvemos dar umas linhadas no Rio Tocantins. O Tocantins por ser um rio muito largo, não é muito bom para a pesca de barranco, além disso, não havia nenhum boteco por perto para agente ficar bebericando algumas. Passamos então para o Rio Sono, que nos atendia em quase tudo, era mais curto e ficava praticamente dentro da cidade. O percurso feito de um rio para o outro era feito à pé mesmo, não dava mais que 1 (um) ou 2 (dois) quilômetros de um ponto ao outro. Que tal? Tínhamos a opção de escolher em qual dos rios banhar ou pescar. Ôôô vidinha mais ou menos... Mas a população ribeirinha parece que não dava muito valor, tanto que víamos pouquíssimas pesssoas banhando ou pescando nos rios.
O local que escolhemos para pescar, ficava próximo de uma enorme passarela que dá acesso ao município de Bom Jesus do Tocantins. Ela passa por cima de uma ilha que é formada no meio do rio e que se transforma em praia dureante os meses de julho. Alí próximo havia uma canoa “dando sopa”, então sentei na ponta dela e os meus fugindo do sol, sentaram na sombra próximo ao barranco... Pesca vai... pesca vem... Até que no recolher da minha linha, ela ficou pesada, como se o azol estivesse enganchando, mas logo começou a tomar a linha de minha mão novamente. Emocionado, gritei que tinha acabado de pegar um peixe. Meus colegas nem deram muita trela, acharam que eu estava brincando. Outro problema é que eu não havia percebido que a canoa não estava amarrada direito e então durante “a minha briga” com o peixe, a canoa desamarrou e começou a desser o rio. Os meus colegas ficaram preocupados, saíram correndo para chamar alguém, o dono da canoa provavelmente. O pior de tudo é que os remos não estavam dentro da canoa...Pensei comigo: E agora josé?
Para minha sorte, o bruto do peixe começou a subir o rio puxanda a linha contra a correnteza, isso fez com que a canoa não dessesse mais. O peixe era bruto meus amigos! Ele ficou segurando a canoa uns dois minutos até que o dono veio ao meu encontro e trouxe a trouxe de volta para a margem. Depois do peixe ter me salvado, com um súbito golpe de ingratidão, retirei ele para fora d’água. Para mim era um belo de um Jaú Serra, já para os meus colegas e ribeirinhos, nã passava de mais um “Cuiú-Cuiú”, peixe que não é muito apreciado pelos pescadores, talvez por ser feio demais. Na cidade ninguém gostava do pobre coitado. Pelo Brasil à fora, ele é chamado também de Abotoado, Armau ou Armado.

Dizem que paixão sega e como eu estava muito extasiado com o peixe, sem ligar muito para sua feiura, acabei convencendo meus colegas que deveríamos tratá-lo, visto que não haviamos pescado nenhum outro tipo mais “bonitinho”. Retiramos somente os filés (deu uns dois quilos mais ou menos) do danado e saímos pela cidade, dessa vez procurando um boteco que fizesse ele de tira-gosto. Como sabíamos que seria difícil alguém na cidade perder tempo fritando um Cuiú-Cuiú, começamos a mentir dizendo que era filé de Pintado. Achamos um dono de boteco que tratou logo de passar uma farinha no bixo, fritou e sentou na mesa com agente. Convicto de que tinha fritado o fiçé do pintado, começamos a bebericar algumas e comer o peixe. Durante a conversa, pergutamos se ele já havia comido o tal Cuiú-Cuiú, foi então que ele começou a xingar e a reclamar do peixe. O incrível é que ele não largou o prato de jeito nenhum. Naquele dia o rapaz mal sabia que cuspia no próprio prato.
Obs: É bom lembrar que pescador aumenta um pouco, mas não inventa.




